Literatura para ouvir, música para ler. Se a obra do pernambucano Armando Lôbo já não conhecia fronteira artística, agora tampouco tem amarras ao tempo: em sua nova criação, Anastácia, junta a linguagem da fotonovela dos anos 60 e 70 com a ópera. Tudo mediado por um QR Code. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! "Era para ser apenas uma ópera no palco, algo teatral. Mas sempre tive o desejo de transformar a mídia da ópera, colocar a ópera numa mídia diferente", explica. "Até cair na minha mão uma revista de fotonovela dos anos 70. Pensei: 'Rapaz, isso aqui é uma ópera, só falta a música'." Anastácia, a fotonovela, está incluída em uma revista homônima inspirada nos almanaques de outras décadas. Além da fotonovela, a publicação reúne poemas, receitas, palavras-cruzadas, entrevista e até um "horóscopo trágico" para 2026, remetendo às referências que inspiraram a obra. Na contracapa, um QR Code leva o leitor ao áudio da fotonovela. Enquanto acompanha as páginas, o público ouve atores interpretando e cantando o texto com acompanhamento de orquestra, reproduzindo a experiência de uma ópera. A versão teatral de Anastácia estreou em janeiro deste ano, no Teatro Santa Isabel, em Recife. Inter-relação de linguagens A ópera apresenta uma tragédia contemporânea ambientada em uma colônia penal feminina. A protagonista, Anastácia, mata outra detenta após não receber de volta uma Bíblia emprestada. A narrativa dialoga com autores como Dostoiévski e Nelson Rodrigues, abordando temas como exclusão, culpa, expiação, vazio e os limites da sanidade. Segundo Armando Lôbo, suas ideias nascem primeiro da literatura. Depois, ele define qual formato melhor serve à obra — ópera, teatro, filme, performance ou canção. "O teatro grego era tudo: literatura, teatro e música. Ésquilo, inclusive, era compositor e dirigia o coro dos espetáculos. Isso me interessa muito." O artista também pesquisa as raízes culturais de Pernambuco. Seu livro mais recente trata dos vaqueiros do sertão e dos aboiadores, cantadores que utilizam o aboio para conduzir o gado. Tendências inviáveis O subtítulo da revista é "Uma revista de tendências inviáveis", uma ironia sobre a dificuldade de viabilizar projetos artísticos. "As pessoas reclamavam da inviabilidade, por não ser um produto digital e pela origem da ideia ser uma ópera, que não é algo muito popular." Armando afirma que produzir arte no Brasil continua sendo um desafio, principalmente quando o objetivo não é o retorno financeiro, mas a criação artística. Seu desejo é que Anastácia funcione como uma "embaixadora da ópera", aproximando novos públicos desse gênero, que considera excessivamente associado à tradição europeia. Universalidade Embora tenha optado pela versão impressa da revista e por referências às antigas fotonovelas e fanzines, Armando Lôbo diz não ser contrário à tecnologia. Para ele, as redes sociais e a tecnologia globalizada esvaziam tradições, mas também permitem que temas universais circulem entre diferentes culturas. Como exemplo, cita as adaptações de Shakespeare feitas pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, que transportou dramas como Rei Lear, Macbeth e Hamlet para o Japão feudal. Quem é Armando Lôbo nasceu em Recife, em 26 de fevereiro de 1971. É compositor, cantor, arranjador, instrumentista, escritor e professor universitário. Possui cinco álbuns lançados, entre música popular e clássica contemporânea com forte influência nordestina. Também é autor do livro Jacó: Expressões Musicais do Vaqueiro Nordestino, além de compor óperas e produzir vídeos. Serviço Revista Anastácia 30 páginas Preço: R\$ 40,00