A empatia com o próximo parece longe do cotidiano de muitos jovens. Expostos a julgamentos, postagens ofensivas e olhares detratores, essas vítimas do chamado tribunal da internet aumentam a cada dia, especialmente nas redes sociais. Pois “assinar embaixo” dessas práticas está na ordem do dia, especialmente para combater o apoio à violência gratuita. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para a psicóloga Fernanda Negreiros, uma característica da chamada Geração Z (pessoas nascidas entre 1995 e 2010), o julgamento é tido como uma prática comum. “Temos uma geração onde reza-se a cartilha da rede social, das curtidas, dos seguidores e tiktokers, Cada vez mais a mídia dita as regras. Tendo em vista tudo isso, há uma geração sem limites quando se diz respeito ao bem-estar do próximo. Uma geração julgadora, que acredita ter a verdade absoluta sobre tudo”, afirma. Ela observa que, numa geração mais tecnológica, as relações interpessoais ficam escassas. “Os adolescentes hoje têm uma dificuldade em expor opiniões e ter uma escuta de aprendizagem. A escuta reativa que permeia a adolescência dessa geração acaba sufocando, ofendendo e muitas vezes injustiçando as pessoas com opiniões contrárias. Leva o adolescente a ditar o que ele acha certo, o que ele acredita enquanto verdade absoluta”, define. Fernanda pondera que a cultura do cancelamento e da responsabilização, além da destruição em massa, compõem uma linha muito tênue. “Se nós entendermos que o cérebro do adolescente está preparado para as mudanças biopsicossociais, é uma fase de erros e acertos. Porém, quanto mais tela, mais eu acredito naquele mundo que está sendo mostrado. A rede social mostra perfeição, enquanto a vida real, construção. Os adolescentes têm dificuldade em expor uma opinião, por exemplo. Não conseguem, muitas vezes, falar sobre o que gostam, sobre o que querem para um futuro próximo”, pontua. Violência simbólica A psicóloga entende que a violência simbólica está muito atrelada à ideia de agressão psicológica. “Um bloqueio definitivo de alguém pode levar até mesmo ao suicídio. Em consultório, eu percebo que a saúde mental na adolescência está cada vez mais fragilizada, com comportamentos inadequados e isolamento social, além de alguns começando a tomar medicação até para poder entender e socializar, algo que antigamente era muito ‘na prática’”, cita. A ida a festas e outros eventos sociais, frisa a especialista, era comum e importante fonte de interação. “Você ia a reuniões, brincava e não tinha esse uso excessivo de tela, que tira uma coisa simples, que é a socialização. Hoje, você ganha status numa rede social até com um ‘muito obrigado’. Coisas normais, hoje, são supervalorizadas porque se tornaram escassas”. Fernanda Negreiros sustenta que a cultura do cancelamento entre os jovens precisa ser ressignificada. “Eles precisam entender que o cancelamento está atrelado a coisas negativas, não a opiniões diferentes. Que podem trazer mudanças sociais positivas em algumas situações, mas também destruir a fase mais bacana, mais interessante que é a adolescência, a fase da mudança e a fase da construção interpessoal e emocional”, encerra.