"O smartphone abarcou tudo", diz o fotógrafo, professor e pesquisador Luiz Fernando Menezes (Alexsander Ferraz/AT) A fotografia como técnica ou arte de capturar imagens através da luz ganhou novos contornos há exatos 50 anos. Graças ao engenheiro da Kodak Steven Sasson, surgiu a primeira câmera digital. Pesava quase 4kg, funcionava com 16 pilhas pequenas, levava 23 segundos para tirar uma foto e tinha o tamanho de uma torradeira. Mas foi o pontapé de uma autêntica revolução hoje vista nos smartphones. No entanto, o feito não despertou muito interesse na chefia do engenheiro. Eles estavam convencidos que ninguém nunca ia querer olhar para fotos numa tela, contou Sasson para o The New York Times. Mesmo assim, a semente estava plantada. A fotografia passa por diversos processos de evolução. Os fotógrafos tipo “lambe-lambe” usavam produtos químicos para revelar a foto. Quando chega a fotografia digital, é um choque. Porque você dispensa a dependência de alguém revelar para você, com um custo menor. Hoje, as câmeras estão te filmando e te reconhecendo o tempo todo, afirma o fotógrafo, professor e pesquisador Luiz Fernando Menezes. Ele lembra que um ponto importante da evolução das câmeras digitais é quando elas se tornaram híbridas, passando a fotografar e filmar. O fotógrafo Nick Laham, por exemplo, é um marco nessa história por ter a primeira foto de capa do The New York Times tirada com um iPhone 4S, em 2013. Ele registrou os jogadores do time de beisebol New York Yankees. Túnel do tempo A primeira câmera eletrônica comercial foi lançada em 1981 pela Sony e chamada de Mavica (Magnetic Video Camera). Usava um disquete para armazenar imagens com resolução máxima de 570x490 pixels. Podia armazenar até 50 imagens estáticas. Já em 1986, cientistas da Kodak desenvolvem o primeiro sensor de imagem com mais de um megapixel, compacto o suficiente para ser usado em câmeras convencionais. E em 1988 a Fuji Film lançou a Fujix DS-1P, primeira câmera com cartão de memória removível. É uma nova maneira de enxergar o mundo. A cada minuto, 42,5 bilhões de fotos são tiradas no planeta. A fotografia é uma excelente ferramenta contra a depressão. É um momento que você pode tirar para você, extrair o que é belo, avalia Menezes. A popularização definitiva Em 2002, a Canon lançou a EOS 1Ds, a primeira câmera full frame digital capaz de atender ao exigente mercado profissional. Já em 1996, a Sony lançou a primeira e inovadora Cyber-shot que revolucionou o mercado fotográfico com seu modelo DSC-F1. Sua resolução era de 2 megapixels, tinha um zoom digital de 2,5x e uma tela de cristal líquido de 1,8 polegadas na parte traseira. A câmera teve diversas versões ao longo do tempo e, mais recentemente, voltou a ser bastante procurada pelos jovens da Geração Z. Enquanto isso, outra revolução estava em marcha. Em 1999, a japonesa Kyocera lançou o primeiro celular com câmera do planeta. Também conhecido como Visual Phone VP-210, possuía apenas uma lente frontal, além de botões físicos e uma pequena tela colorida. Daí para frente, a combinação telefone celular e câmera digital só se fortaleceu. É uma questão cultural, de aprimoramentos de equipamentos eletrônicos. O smartphone abarcou tudo. Isso sem falar na fotografia digital aérea com os drones. São muitas evoluções, finaliza Menezes. O fotógrafo e professor José Alberto Sarquis define sua carreira como meio analógica, meio digital. (Matheus Tagé/AT/Arquivo) Efeitos colaterais Argentino de Buenos Aires e morando em Santos desde o início da década de 1980, o fotógrafo e professor José Alberto Sarquis define sua carreira como meio analógica, meio digital. Segundo ele, a chegada do digital à fotografia não foi traumática, se deu de uma forma bastante tranquila. À época, era um pensamento bastante habitual entre muitos profissionais que o novo sistema nunca chegaria a igualar, em qualidade, o filme. Não só o igualou, mas superou, com várias vantagens, avalia. Entre elas, arquivo digital, se bem conservado, não se deteriora; e com a facilidade de ver a imagem na hora e poder arriscar experimentações que não eram possíveis com filme. Entretanto, ele coloca alguns efeitos colaterais da produção fotográfica digital. Como não gastamos com filme nem revelação e os cartões de memória parecem ser quase infinitos, o dedo aperta muito mais vezes que as necessárias. Além disso, como vemos a imagem imediatamente depois de ser produzida, não há, em termos gerais, um cuidado e um capricho na hora de colher a imagem. Se não dá certo, repetimos. Isso sem falar na falta de cuidado no momento do clique, se acentua, pois, se pensa que depois se arruma na edição, alega. Sarquis destaca a importância do celular na fotografia. Em um dos seus últimos depoimentos, Sebastião Salgado disse que fotografia com celular não é fotografia, mas uma forma que as pessoas têm hoje de se comunicar. Dentre essa enorme montanha de imagens diárias, há uma porcentagem, muito difícil de mensurar, de fotos que valem e que serão preservadas enquanto registro importante e memória. A imagem fotográfica não é algo banal e descartável, emenda.