Juntas, elas somam aproximadamente R\$ 91 trilhões de valor de mercado. Como comparação, o PIB do Brasil encerrou 2025 em R\$ 12,7 trilhões. Cinco das maiores empresas do mundo (Apple, Amazon, Alphabet/Google, Meta e Microsoft), as chamadas big techs, vão além da força econômica: elas também ditam tendência e o futuro da inovação tecnológica. É possível afirmar que essas empresas alcançaram um patamar destacado porque conseguiram dominar e redefinir a infraestrutura do mundo moderno. E as razões desse panorama, segundo especialistas, são diversas. Para Henrique Reis, CEO da Wascer, plataforma de infraestrutura para coleta de dados e rastreamento, o ponto mais decisivo não aparece para o usuário. Afinal, quem faz uma busca, uma compra ou uma chamada de vídeo não vê o que existe por trás: data centers, servidores, cabos de fibra óptica, sistemas de energia e de refrigeração funcionando sem interrupção. “Quase todas essas empresas entenderam cedo que essa camada física era o ativo mais estratégico que tinham. Por isso decidiram construí-la e controlá-la, em vez de alugá-la. Com isso, cada serviço novo já nasce sobre uma estrutura capaz de atender centenas de milhões de pessoas no primeiro dia. Um bom produto explica o crescimento inicial dessas empresas. A infraestrutura explica por que elas conseguiram estar em tantas áreas ao mesmo tempo”. O CEO da dataRain Consulting, Wagner Andrade, vai na mesma linha. “Quanto mais gente usa, mais fortes ficam. Porque cada usuário novo atrai outro e atrai empresas querendo vender para ele. Quatro coisas sustentam essa força: elas vivem de dados e transformam o que as pessoas fazem em previsão; têm caixa para comprar concorrentes e bancar apostas de dez anos; controlam a cadeia inteira, a ponto de projetar os próprios chips; e tornam caro sair do ecossistema delas”. Para ele, o caso da Amazon é o mais emblemático, já que começou vendendo livros pela internet. “Para dar conta da loja, aprendeu a construir uma infraestrutura de computação enorme e passou a alugar esse aparato para outras empresas. Nasceu a nuvem (AWS), que hoje responde pela maior parte do lucro operacional da companhia”. As outras seguiram o mesmo desenho. “O Google foi da busca à publicidade e agora à IA. A Microsoft saiu do programa de PC, foi para a nuvem e chegou à IA no trabalho. A Apple trocou o computador pelo iPhone e depois pelos serviços. A Meta começou como rede social, comprou Instagram e WhatsApp e hoje aposta em IA e em óculos inteligentes. Em todas, um negócio financia e alimenta o próximo”, acrescenta Andrade. Construindo cérebros O CEO da dataRain Consulting aponta que o momento é do que define como “construção de cérebros”, que vão rodar a inteligência artificial de todo mundo. “Microsoft, Alphabet/Google, Amazon e Meta devem investir juntas cerca de US\$ 760 bilhões (R\$ 3,92 trilhões) em 2026, quase o dobro de 2025. Quase tudo vai para IA e data centers. O movimento é tão grande que, nos Estados Unidos, o investimento em data centers e equipamentos de computação passou o aporte em construção de moradias no segundo trimestre deste ano. Na prática, elas compram energia (inclusive nuclear), projetam os próprios chips e erguem data centers onde houver energia disponível. E o Brasil, com matriz majoritariamente renovável, entrou no mapa dessas decisões”, sinaliza. Estratégias direcionam próximos passos Entender o que deseja o público consumidor, na visão dos especialistas, está longe de mágica, mas é com base em estratégias. “Elas identificam essas mudanças pela observação do comportamento em escala, que só existe porque há infraestrutura para sustentá-la. Cada interação gera dados que precisam ser armazenados, processados e cruzados continuamente. Processar esse volume exige capacidade computacional, e essa capacidade tem uma cadeia física direta. Quem controla essa cadeia, consegue testar um produto novo com um grupo pequeno, medir o resultado e escalar em semanas. Sem essa base, o mesmo ciclo levaria anos”, explica Henrique Reis. Wagner Andrade lembra que o Google ficou famoso por testar 41 tons de azul num link para ver qual recebia mais cliques. Esse método tem um lado incômodo: entrega o dado sem perceber. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) existe para dar ao cidadão algum controle sobre isso. “Essas empresas não perguntam o que você quer: observam o que você faz e testam versões diferentes até acharem a que funciona”. Para ele, a tecnologia vai sair da tela e entrar no ambiente. “Hoje você abre um aplicativo e pede alguma coisa. O próximo passo é um assistente invisível que executa por você. São os agentes de IA”. Reis crê que o limite da expansão das big techs será mais físico que tecnológico. “Dependerá de quanta energia estará disponível, de quanta água a refrigeração poderá usar, de quantas rotas de fibra redundantes existirão e de onde será possível instalar novos data centers com segurança técnica. Essa pressão está levando a infraestrutura para fora dos grandes centros, e o Brasil tem condições reais de receber parte dessa capacidade, inclusive no interior. Para isso, o planejamento precisa começar pelo lugar certo”, finaliza.