Feijoada, quartas e sábados, tem as carnes separadas; há ainda bufê de saladas, pratos quentes e chapa no Drina Restaurante, em Santos (Alexsander Ferraz/ AT) Um restaurante que parece casa de vó, daquelas onde o tempo desacelera e a comida é feita com afeto. Assim é o Drina Restaurante, no Embaré, em Santos, no litoral de São Paulo. Há 59 anos, a casa atravessa gerações e hoje recebe clientes que já chegam à quarta geração da mesma família. Cada ambiente guarda o legado de sua fundadora, que desembarcou no Brasil em 1952 com o nome Malak Mlatisoma, mas se tornou Dona Drina, tamanha a fama do restaurante que criou, o Recanto Drina. O nome, na verdade, homenageia o Rio Drina, que corta a Bósnia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A história tem ares de novela das seis: começa em terras distantes e desemboca no litoral paulista. Malak tinha apenas 14 anos quando o pai a casou com um bósnio, Hassan Mlatisoma, recém-chegado à Síria, fugido dos conflitos na antiga Iugoslávia. Pouco depois, o casal decidiu emigrar para o Brasil, onde viam a promessa de uma vida melhor. Uma das paredes do restaurante funciona como linha do tempo afetiva. Em fotografias antigas, a trajetória da família se revela. Em uma delas, Malak e Hassan aparecem em frente ao Museu do Ipiranga, recém-chegados ao País, ainda com o futuro inteiro por construir. Empreendedora nata, Malak, a nossa dona Drina, começou a cozinhar doces para vender enquanto a família morava nos fundos de uma padaria onde Hassan trabalhava. Foi juntando dinheiro até abrir uma pequena pensão. Ali nascia o Recanto Drina. Ela cozinhava para os hóspedes e para quem mais aparecesse. O sucesso foi natural e a pensão virou restaurante. No início, o serviço era na mesa. Na década de 1980, com o surgimento dos restaurantes por quilo, ela percebeu o potencial da novidade e adaptou o salão com balanças e rechauds, ampliando o público sem perder o sabor caseiro. Rafael herdou o legado da avó em Santos (Alexsander Ferraz/AT) Legado Quem hoje preserva essa história e conta emocionado é o neto Rafael, que assumiu o legado após a avó sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), há três anos, e perder boa parte dos movimentos. Arquiteto, criado em Brasília, ele passava as férias com a avó e tinha destino certo. “Era a minha diversão e das minhas irmãs vir ao restaurante ajudar. Fui vendo ela fazer tudo e nem percebi que estava aprendendo”, conta. “Ela era o motor do restaurante. Tinha hospitalidade na alma. Quando um cliente entrava, já estava sorrindo.” Na cozinha, Rafael mantém viva a fusão criada por Dona Drina: a culinária brasileira — pela qual ela se apaixonou e aprendeu com os funcionários — misturada às tradições sírias e bósnias herdadas do avô. “Faz muito sucesso tudo o que colocamos de comida árabe às sextas e fins de semana. São receitas da minha avó. Também temos cordeiro e nunca falta o strudel, o doce de massa folhada com maçã, que é um dos melhores do Brasil.” A relação com Santos se consolidou de vez quando chegou a hora da faculdade. “Saí de Brasília para morar com minha avó e não saí mais daqui”, diz. Ele afirma que a formação em arquitetura influencia diretamente o funcionamento do restaurante, não apenas na estética, mas na logística e no planejamento do serviço. “Arquitetura é visualizar e planejar como tudo vai funcionar.” O imóvel onde o restaurante está também é um atrativo. Trata-se de uma ampla casa onde cada sala reflete uma influência da fundadora: uma reúne objetos sírios; outra, lembranças bósnias; e uma terceira guarda recordações das viagens que Dona Drina fez pelo mundo. Todas são climatizadas. Já o quintal ensolarado é refúgio perfeito para quem prefere almoçar ao ar livre. A casa comporta até 60 pessoas e funciona no sistema por quilo: terça a quinta: R\$ 91,90 e sexta a domingo: R\$ 109,90. Serviço: Rua Oswaldo Cochrane, 37, Embaré, Santos. Almoço de terça a domingo, das 11h30 às 15h.