Não havia data mais simbólica para Odila Peres Valência Hoehne nascer. Na próxima sexta-feira (1°), Dia do Trabalhador, ela completará 80 anos e continuará trabalhando com a mesma energia de quando começou. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Conhecida como Odilinha, ela é proprietária de um dos bufês mais tradicionais de Santos, possivelmente o mais antigo ainda em funcionamento. Em mais de 44 anos de atividade, organizou milhares de festas, acompanhou gerações de famílias e transformou receitas em clássicos da gastronomia local. Tudo começou de forma quase despretensiosa.Recém-casada, Odilinha adorava cozinhar para amigos. Os almoços viraram ponto de encontro. A mesa estava sempre cheia, com panelas borbulhando e o entra e sai de gente que vinha provar suas receitas não parava. Algumas receitas já viraram marca registrada. Entre elas, o camarão empanado, o croquete em forma de cajuzinho, o bobó de camarão e o famoso bolo dominó são alguns exemplos. Tem também o cuscuz paulista enfeitado com uma cascata de camarões e com textura cremosa. (Débora Henriques/Divulgação) Até que uma amiga que morava em São Paulo teve uma ideia que mudaria seu destino. “Odila, vamos fazer uma festa?”, sugeriu. Odilinha lembra que respondeu, surpresa: “Como que nós vamos fazer uma festa?” As duas começaram a pesquisar bufês e entender como funcionava o mundo dos eventos. Decidiram se arriscar organizando um jantar em São Paulo. O resultado foi imediato: convidados encantados e muitos elogios. “Deu tão certo que eu pensei: vou fazer isso em Santos”. E nunca mais parou. Pratos preparados no bufê conquistam gerações de clientes e amigos (Alexsander Ferraz/AT) No começo, tudo acontecia dentro do apartamento onde vivia com o marido, Emilio, e as três filhas, Simone, Andrea e Cintia. Panelas no fogão o dia inteiro, bandejas montadas na mesa da sala. O marido, que trabalhava na refinaria e chegava cansado, não gostava muito da movimentação. “Ele detestava aquele entra e sai”, conta, rindo. “Mas eu não conseguia parar.” O talento logo encontrou espaço para crescer. Um dos grandes incentivadores no início foi o Clube dos Ingleses, em Santos, que confiou a ela a organização de eventos da casa. A partir dali, o nome de Odilinha começou a circular entre festas e celebrações. De casamento em casamento, de aniversário em aniversário, ela foi conquistando clientes e paladares. Hoje, o bufê conta com cerca de 30 funcionários diretos. Mesmo assim, Odilinha continua presente em tudo. É sempre a primeira a chegar nos eventos e muitas vezes a última a sair. “Gosto de ficar de olho em tudo. Em todos esses anos, nunca uma festa minha deu errado”. Foto antiga de Odila Hoehne com o marido Emilio e seus funcionários (Arquivo pessoal) A cozinha continua sendo o lugar onde se sente mais feliz. O perfume do camarão dourando na panela costuma denunciar quando ela está por perto. Ali, entre panelas e travessas, se move com a naturalidade de quem passou a vida inteira naquele território. “O lugar que eu mais gosto é a cozinha, sem nenhuma dúvida.” Mesmo com uma equipe estruturada, ela não abre mão de preparar alguns itens pessoalmente. “Até hoje eu faço a massa do camarão empanado e do croquete de carne”, conta com orgulho. Reinventar A cozinha do bufê funciona atualmente na loja da Avenida Afonso Pena, onde também há um movimentado sistema de pronta-entrega. No balcão e no freezer, ficam disponíveis mais de 120 itens diferentes do cardápio, entre tortas, bolos, salgados, massas e pratos completos. “É uma variedade enorme. As massas têm muita saída e no sábado acaba tudo desse balcão”. A ideia ganhou força depois da pandemia, quando o negócio precisou se reinventar. “Na pandemia, passamos a colocar itens expostos e fez muito sucesso. As pessoas passam rapidinho e pegam para um lanche, almoço ou jantar”. Cuscuz Paulista de Camarões. Odila Hoehne (Divulgação) Ingredientes 3 colheres de sopa de azeite, 2 cebolas bem picadas, 2 dentes de alho picados, 2 tomates sem sementes bem picados, 2 latas de atum, 1 kg de camarão branco médio, 200 g de ervilha congelada, 1 vidro de palmito picado, 1 copo de caldo de camarão (feito com cabeças e cascas), molho de pimenta a gosto (ou páprica picante), 1 xícara de farinha de milho flocada (podendo ajustar a quantidade), salsa picada a gosto e 6 camarões grandes para decorar o fundo da forma. Para enfeitar, 8 camarões rosa grandes limpos, sal a gosto e azeite para grelhar Modo de preparo Em uma panela grande, aqueça o azeite e refogue a cebola até ficar transparente. Acrescente o alho e deixe perfumar. Adicione o camarão médio e refogue até que ele mude de cor, ficando rosado — sem passar do ponto. Junte o atum e os tomates picados, misture bem e deixe refogar até formar um molho mais encorpado. Acrescente o caldo de camarão, tempere com sal e pimenta (ou páprica) a gosto. Com o fogo baixo, vá adicionando a farinha de milho aos poucos, mexendo sempre, até a massa começar a soltar do fundo da panela — o ponto ideal é úmido, porém firme para moldar. Unte a forma de pudim com azeite e decore o fundo com os camarões grandes, palmito e ervilhas. Despeje a massa do cuscuz, pressionando levemente para acomodar bem. Deixe descansar por alguns minutos e desenforme ainda morno. À parte, tempere os camarões rosa grandes com sal e um fio de azeite. Grelhe rapidamente em uma frigideira bem quente até ficarem dourados e suculentos (cerca de 3 minutos). Finalize o cuscuz já desenformado com esses camarões grelhados por cima e finalize com salsa picada. Sirva em seguida. Sempre de olho nas tendências Mesmo depois de décadas na cozinha, Odila Hoehne continua atenta às novidades. As tendências gastronômicas chegam principalmente pelas redes sociais, com a ajuda das filhas Simone, Andrea e Cintia, que acompanham o que viraliza na internet e trabalham com a mãe. Foi assim, por exemplo, com o morango do amor, febre nas redes no ano passado. “Vendemos 1.500 unidades em uma semana. Uma loucura. O preço do morango subiu, mesmo assim todos queriam, mas passou rápido”, conta. A moda do pistache, ela diz que nunca seguiu. “Só uso pistache de verdade, não uso a pasta pronta. Então é mais caro. Sempre fiz pratos com pistache, como massas, carnes, doces, mas não por causa dessa febre”. Atualmente, Odila destaca que as festas de 15 anos voltaram com tudo e estão mais frequentes que as de casamento. “São as mais requintadas que tenho feito”. Mas se há algo que não muda nos eventos comandados por Odilinha, dos chiques aos básicos, é a fartura. Filha de descendentes de espanhóis, ela cresceu em uma casa onde comida era sinônimo de acolhimento. “Em casa de espanhol ninguém passa fome”, diz. Talvez por isso tenha verdadeiro pavor de ver comida acabar em um evento. “Eu morro de medo de alguém procurar e não ter. Meu lema é que nada pode acabar, tem que sobrar. Se o último convidado quiser comer, tem que ter”. Entre casamentos, aniversários e debutantes, houve épocas em que o ritmo era diário. Hoje, ela diz que diminuiu um pouco a agenda, mas continua à frente do negócio e para nós, simples mortais, podemos dizer, bem acelerado. No ano passado, ela organizou um jantar no Parque Valongo para 1.600 pessoas, o maior da sua carreira. Depois de mais de quatro décadas, milhares de festas realizadas e gerações de clientes atendidas, Odilinha segue fazendo o que sempre fez: observando cada detalhe, circulando entre cozinha e salão e garantindo que cada convidado saia satisfeito. “O segredo é dedicação, amor e responsabilidade no que faço”.