“Ninguém me ama, ninguém me quer/Ninguém me chama de meu amor/A vida passa, e eu sem ninguém/E quem me abraça não me quer bem”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os versos da canção Ninguém Me Ama resumem, mas estão longe de definir quem foi Iracema de Sousa Ferreira, conhecida do Brasil por Nora Ney (1922-2003). Defini-la, contextualizá-la e resgatá-la para o futuro é o objetivo do livro Dossiê Nora Ney: Uma Voz Poética e Polêmica, 100 Anos (Editora Garota FM Books, R\$ 55,00), que será lançado neste sábado (25), às 17 horas, na Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15, Boqueirão), em Santos. “Dentre tantos pioneirismos, a politização é o que mais diferencia a trajetória de Nora Ney de suas contemporâneas, daí o título do livro. Ela não teve medo de usar sua atividade profissional como luta concreta por democracia e pela mundialização da cultura brasileira em um tempo em que as mulheres sequer tinham direito a gerir suas próprias vidas”, afirma Raphael Fernandes Lopes Faria, organizador do livro. A obra não é uma biografia, mas um mosaico de visões de oito músicos, comunicadores e historiadores sobre a cantora e sua abrangência – na música e além dela. O desejo primeiro de Raphael, porém, era escrever uma biografia. Mas esbarrou no volume escasso de informações. “Tudo sobre ela ficou muito perdido, espalhado, falta um acervo. O trabalho, se fosse possível, demoraria muitos anos. Os parentes vivos não possuem nada, tanto que vieram me perguntar sobre ela quando souberam do livro”. Capa do Livro (Divulgação) À frente do tempo Raphael menciona os pioneirismos de Nora Ney. Na música, ela foi a primeira pessoa a ganhar um disco de ouro no Brasil, justamente por Ninguém Me Ama, em 1952. Três anos depois, também foi por sua voz que o primeiro rock foi ouvido no País. Cantando em inglês, lançou Rock Around The Clock, de Bill Halley, aproveitando a onda do filme Sementes da Violência. “Ela cantou em inglês, Nora dominava o idioma. Antes de começar a carreira, ela ouvia muita música em inglês, as big bands nos anos 40, os crooners”. Mas talvez o maior pioneirismo tenha sido mesmo o que demonstrou na política. Filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Nora e o segundo marido, o também cantor Jorge Goulart, organizaram uma excursão à então União Soviética e à China, em 1958. A viagem cultural reuniu outros artistas, como o Grupo Farroupilha e a cantora Maria Helena Raposo, e teve apoio do governo de Juscelino Kubitschek. “Não se fala de artistas que foram para aquela região na época da Guerra Fria”, pondera Raphael. “Havia uma vontade de levar recortes da cultura brasileira. Era um modo de criar diálogo com essa outra metade do mundo que não era discutida aqui”. Raphael equipara essa incursão no Leste Europeu e na China ao show histórico da bossa nova no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1962. Para ele, são marcos históricos equivalentes da cultura brasileira. “Mas ninguém fala dos teatros lotados na União Soviética e na China (um deles com 45 mil pessoas). O nível de documentação é muito inferior”. Dentro das fronteiras brasileiras, a ação política de Nora também era prática: fez trabalhos de alfabetização de adultos nas periferias, com operários, trabalhadores braçais e propunha leituras de textos geopolíticos e tinha aversão a fã clube. “Ela entendia a necessidade de trabalhar a arte não só com a tietagem, mas como a oportunidade de aglutinar pessoas, trabalhar a consciência cidadã”. Por sua atuação política, com o golpe militar de 1964, Nora Ney foi demitida da Rádio Nacional. Com o marido, mudou-se para a União Soviética. Voltaria ao País somente em 1968, seguindo a carreira, mas sem o sucesso avassalador de meados dos anos 50. Por que nora? Raphael tem 35 anos – portanto, nasceu ao menos duas gerações após o ápice de Nora. De onde vem o interesse pela cantora? A porta de entrada foi a minissérie Presença de Anita (2012). “A Maysa, colega de Nora, cantava o tema de abertura, Ne Me Quittes Pas, em francês, isso me marcou”, recorda. “Eu tinha 11 anos”. No mestrado (Raphael é jornalista e músico), debruçou-se sobre o bolero, o samba-canção, em voga nas décadas de 1940 e 1950. Reencontrou Maysa, mas ao contrário desta, cuja trajetória é muito bem documentada, justamente a falta de registros sobre Nora o atraiu. “Havia menções, mas muito pouco. Pensei: ‘não pode ser desse jeito’”. Eis o dossiê para provar que não foi. Feminicídio O primeiro casamento de Nora foi com Cleido Maia, que trabalhava no Diário Carioca. Com ele, teve dois filhos. Porém, ele não suportava o caminho musical da ex-mulher. “O fato dela ganhar um salário capaz de sustentar a casa, ou seja, a emancipação dela, começou a incomodá-lo”, conta Raphael. Ao ponto de tentar matá-la: certa vez, obrigou-a a tomar uma quantidade fatal de remédios para dormir. “A gente encontra duas versões: a de que ele a ameaçou com um revólver ou com uma faca”. Quando Nora já estava desacordada, arrependeu-se e levou-a ao hospital, dizendo que ela tentara o suicídio. Ao despertar, Nora contradisse o ex-marido. Seguiu-se uma exposição pública do caso, que desembocou no então chamado desquite. A vida Iracema de Sousa Ferreira nasceu no Rio de Janeiro, em 20 de março de 1922. Foi a terceira filha de um arquivista da Câmara dos Deputados (quando a Capital Federal ainda era no Rio de Janeiro) e de uma enfermeira. Fascinada pela música, frequentava programas de rádio e de auditório na juventude. Morando no bairro da Urca, conheceu Dick Farney, Lúcio Alves, João Donato, Johnny Alf, Paulo Moura e muitos outros. Esses contatos abriram-lhe as portas da Rádio Tupi no final dos anos 40, quando foi contratada para cantar no programa Fantasias Musicais, apresentado por José Mauro. Nos anos 50, sua fama explodiu. Além de ganhar o primeiro disco de ouro da história fonográfica brasileira, a sua canção Menino Grande foi citada por Getúlio Vargas como sua preferida. Nos anos 70, 80 e 90, participou de vários shows e espetáculos e lançou álbuns, como As Eternas Cantoras do Rádio (1989). Ao lado de Maysa, Ângela Maria, Elizeth Cardoso e Dolores Duran, consagrou-se como uma das maiores intérpretes de samba-canção do País. Nora Nei morreu em 28 de outubro de 2003, aos 81 anos.