Muito além de um restaurante, o Madiba propõe uma viagem cultural por meio da gastronomia. Desde março, a casa funciona em novo endereço, no Campo Grande, reforçando a proposta de apresentar aos santistas os sabores e as tradições do continente africano, sem abrir mão da culinária brasileira no dia a dia. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! À frente do projeto está o senegalês Mbagnick Mendy, de 35 anos, o chef Nick. Há 14 anos no Brasil e há 7 vivendo em Santos, ele encontrou na cidade o lugar para construir a família ao lado da esposa santista e da filha de um ano. Depois de atuar em diversos restaurantes, decidiu criar um espaço dedicado à valorização da culinária africana, ainda pouco conhecida na Baixada Santista. “O Brasil tem muita presença da África dentro da sua cultura alimentar. Basta olhar para a comida baiana, para o uso do azeite de dendê, do quiabo e até para alguns pratos mineiros. Muitas vezes a receita mudou de nome ou ganhou outro ingrediente, mas a origem está ali”, explica o chef. O nome Madiba homenageia Nelson Mandela, conhecido pelo apelido que nomeia ao restaurante. A proposta vai além da comida. Em parceria com a esposa, a atriz e poeta Juliana do Espírito Santo, o espaço reúne gastronomia, arte e cultura africana, promovendo experiências que incluem conversas sobre história, tradições e costumes. No almoço, de segunda a sábado, o restaurante, que tem um ambiente simples e pequeno, serve comida brasileira por quilo (R\$ 80/Kg), com destaque para a feijoada às quartas e sábados. Já a culinária africana ganha espaço de quinta a sábado, tanto no almoço quanto no jantar — este último mediante reserva a grupos. Para quem nunca experimentou pratos africanos, Nick faz questão de tranquilizar os clientes. Ao contrário do que muitos imaginam, a comida não é apimentada. As receitas valorizam especiarias e ingredientes naturais, mas sem excessos, tornando a experiência bastante acessível ao paladar brasileiro. Chef Nick veio do Senegal e há sete anos fincou raízes em Santos (Alexsander Ferraz/AT) Sabores conhecidos E a proximidade entre as duas cozinhas surpreende. Muitos preparos lembram receitas conhecidas por aqui. O Fatai, por exemplo, é um salgado típico vendido nas ruas de vários países africanos que lembra bastante um pastel brasileiro, com massa crocante e recheio saboroso. Custa R\$ 20 a porção. Outra entrada popular é o Aloko (R\$ 25), feito com banana-da-terra frita em rodelas. Conquista logo na primeira mordida pela combinação entre o sabor adocicado da fruta e a casquinha dourada. Entre os principais, um dos destaques é o Tiep Bou Yapp (R\$ 50), conhecido internacionalmente como Jollof Rice. O prato reúne arroz preparado com especiarias, carne bovina magra, legumes e pimentões. O resultado lembra, em certa medida, um arroz carreteiro bem temperado, mas com identidade própria. É uma receita extremamente saborosa e uma excelente porta de entrada para quem deseja conhecer a culinária do oeste africano. Também fazem parte do cardápio o Yassa Guinar (R\$ 45), tradicional frango marinado com especiarias e cebolas caramelizadas servido com arroz branco. Para acompanhar, vale provar os sucos típicos. O Bissap (R\$ 20), com hibisco e o Djindier (R\$ 20), com gengibre. Dividir o prato: mais do que tradição, uma lição Quem reserva um pouco mais de tempo para a visita encontra uma experiência que vai além da refeição. Nick costuma compartilhar histórias sobre os ingredientes, os significados dos pratos e os costumes de seu país. Explica, por exemplo, por que muitas famílias africanas compartilham um único prato durante a refeição. “Quando todos comem juntos do mesmo prato, aprendem a dividir, a pedir licença, a respeitar o outro. É uma forma de ensinar convivência, união e fortalecer os laços da família”. Outro ritual apresentado pelo chef é a tradicional cerimônia do chá, comum no Senegal e na Mauritânia. Servida em três etapas, ela convida à conversa e ao compartilhamento de experiências, reproduzindo um costume em que diferentes gerações se reuniam à sombra das árvores para discutir os acontecimentos da vida e transmitir ensinamentos. O Madiba mostra que conhecer uma nova gastronomia é também descobrir novas histórias. E, nesse caso, elas chegam à mesa em pratos cheios de tradição, sabor e afeto. Serviço: Madiba – Culinária Africana & Brasileira (Rua Espírito Santo, 36, Campo Grande, Santos). Abre de segunda a sábado, das 11h às 16h30, com culinária brasileira; culinária africana de quinta a sábado, no almoço e jantar (à noite, mediante reserva). reservas: (13) 98843-6682.