A segurança alimentar não é apenas uma questão de higiene no preparo; ela começa muito antes, no armazenamento e no descongelamento dos alimentos (Divulgação / Freepik) A cena é comum em muitas cozinhas brasileiras: o jantar se aproxima, a carne ainda está congelada e, em um ato de desespero, a solução é apelar para truques caseiros. A panela cheia de água quente, um banho de vinagre ou a adição de sal para acelerar o processo são "receitas" que passam de geração em geração. A intenção é boa, mas o resultado pode ser um sério risco à saúde. Especialistas em segurança alimentar alertam: o que parece ser uma solução rápida, na verdade, cria o ambiente perfeito para a proliferação de bactérias nocivas, como a Salmonella e a Escherichia coli. O mito do descongelamento rápido precisa ser desfeito. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Por que os métodos caseiros são perigosos? Para entender o perigo do vinagre e do sal, é preciso compreender o conceito de "Zona de Perigo". De acordo com órgãos de saúde globais como o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), a temperatura entre 5°C e 60°C é o ambiente ideal para que bactérias se multipliquem em alimentos. Congelar a carne a -18°C as mantém em estado de dormência, mas não as elimina. Assim que a temperatura sobe, elas "acordam" e começam a se reproduzir rapidamente. Descongelar a carne fora da geladeira, seja em temperatura ambiente, em uma bacia com água quente ou, pior ainda, com a adição de vinagre ou sal, faz com que a superfície do alimento atinja a Zona de Perigo muito mais rápido do que o seu interior. Enquanto a parte de dentro ainda está congelada, a de fora já se tornou um terreno fértil para bactérias, que podem dobrar de número a cada 20 minutos. O vinagre, apesar de sua acidez, não é capaz de esterilizar o alimento. "Ele pode até inibir o crescimento de algumas bactérias, mas não tem a capacidade de matar as patógenas que causam intoxicação alimentar", explica a nutricionista e especialista em segurança alimentar Ana Paula Martins. "A ideia de que o vinagre 'amolece' a carne ou a 'limpa' é um equívoco. Na verdade, ele altera o pH da superfície, mas não impede a contaminação, e ainda pode prejudicar a textura e o sabor do alimento." Da mesma forma, o sal tem a capacidade de desidratar e extrair umidade da carne, o que, ironicamente, pode acelerar o processo de descongelamento em um nível superficial, mas não garante a segurança. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) reforçam em suas diretrizes a necessidade de manter a cadeia de frio, ou seja, evitar que o alimento atinja temperaturas inseguras. Os únicos métodos seguros de descongelamento Especialistas são unânimes: existem apenas três maneiras seguras e recomendadas de descongelar a carne. Todas elas focam em manter o alimento fora da Zona de Perigo. Na geladeira (o melhor método): Esta é a forma mais segura e recomendada por todos os órgãos de saúde. O processo é lento, mas permite que o descongelamento ocorra de forma uniforme, sem que a superfície do alimento atinja uma temperatura perigosa. O ideal é planejar com antecedência: um quilo de carne pode levar até 24 horas para descongelar completamente na geladeira, a uma temperatura abaixo de 5°C. Basta colocar o produto, ainda embalado, em um recipiente e transferi-lo para a prateleira de baixo da geladeira. Em água fria: Se o tempo é escasso, este método é uma alternativa segura. É crucial que a carne esteja em um saco plástico hermético e à prova de vazamentos. Submerja o pacote em uma tigela com água fria da torneira. A água deve ser trocada a cada 30 minutos para garantir que ela continue fria. O tempo médio para descongelar um quilo de carne é de cerca de uma hora. A água fria conduz o calor mais rapidamente que o ar, acelerando o processo, mas a embalagem protege o alimento da contaminação e impede que a temperatura da superfície suba perigosamente. No micro-ondas: Este é o método mais rápido, mas requer atenção e cuidado. O micro-ondas deve ter a função de descongelamento, que utiliza pulsos de energia para evitar o cozimento parcial do alimento. A regra de ouro é: a carne deve ser cozida imediatamente após ser retirada do micro-ondas. Isso porque partes do alimento já podem ter atingido temperaturas na Zona de Perigo, e o cozimento imediato garante a eliminação de qualquer bactéria. O Ministério da Saúde recomenda este método apenas para alimentos que serão preparados na mesma hora. O que nunca fazer ao descongelar a carne? Deixar em temperatura ambiente: Seja em cima da pia, na mesa ou em um recipiente. A parte externa descongela rapidamente, e as bactérias têm a festa perfeita para se multiplicar. Usar água quente: A água quente acelera o processo, mas também eleva a temperatura da superfície da carne, levando-a para a Zona de Perigo e favorecendo a proliferação bacteriana. Descongelar diretamente na pia ou em contato com a água: A carne, se não estiver em uma embalagem, pode ser contaminada por bactérias presentes na pia, e a água da torneira pode espalhar patógenos pela cozinha.