Casal José e Rose (centro) começou na garagem; depois Matheus (à esq.), Lucas e Luan ampliaram o negócio (Alexsander Ferraz/AT) Não existe uma fórmula infalível para um restaurante ser um sucesso, mas há dois pontos que são fundamentais: a comida ser boa e você se sentir bem no lugar. O resto é talento, carisma, manter a qualidade e um monte de coisas que nem sempre saem de um manual. Mas se tem quem poderia dar uma aula sobre como transformar um pequeno negócio em um case vencedor, é a família Big Pizza. O casal Rose Morozetti e José Jaime, o Zé, os filhos Lucas e Matheus Morozetti e o amigo de infância de Lucas — hoje sócio — Luan Vilha transformaram uma pizzaria aberta em uma garagem, com dois funcionários, em uma empresa com cerca de 130 colaboradores. “No primeiro dia, o telefone não tocou”, lembra Rose. “Era telefone discado ainda. A gente ficou esperando e nada.” Hoje, na era dos aplicativos, a realidade é outra: são, em média, 20 mil pizzas vendidas por mês. “Eu fazia todos os recheios, o Zé fazia as massas e ficava no forno. A gente tinha um garçom e um motoboy. Os meninos vinham com a gente, ficavam brincando ou dormindo atrás do balcão”, conta Rose. “Eles cresceram aqui, mas eu não queria que trabalhassem com isso. Achava muito sacrificante.” Da insistência à renovação Mas o destino seguiu outro caminho. Lucas insistiu. “Eu queria mudar tudo. Modernizar, trazer coisas que via em São Paulo”, conta. “Um dia eu mudei o molho escondido. Coloquei alho, manjericão… coisa simples. Os clientes perceberam e elogiaram. Aí minha mãe começou a deixar eu mexer.” A partir dali, a transformação foi gradual e constante. “Eu via restaurantes em São Paulo com experiência, atendimento, ambiente e pensava: se aqui já lota desse jeito simples, imagina se a gente melhorar tudo isso?”, diz Lucas. Matheus seguiu por outro caminho complementar: estudou Gastronomia e passou a criar receitas. “Hoje sou eu que preciso convencer meu irmão das mudanças”, brinca Matheus. Entre as criações dele estão pizzas como a Caprese, com pesto de azeitonas, tomate, parmesão e muçarela de búfala, e a Eclipse, uma evolução de um dos maiores sucessos da casa, a Nevada. Crescer sem perder o controle Com o aumento da demanda, veio um novo desafio: organizar a casa. É aí que entra Luan, engenheiro de formação e amigo de infância de Lucas, que se tornou sócio. “Quando eu cheguei, a ideia era estruturar tudo. Criar processos, fichas técnicas, controle de produção”, explica. “Hoje tudo é pesado, conferido, padronizado.” A profissionalização mudou o negócio. “Antes vendia muito, mas não sabia exatamente para onde o dinheiro estava indo”, lembra Lucas. Hoje, a operação inclui um centro de produção que abastece tanto o salão quanto o delivery, que representa cerca de 70% do faturamento. “São 130 funcionários, sendo cerca de 50 só para entrega no delivery, todos registrados”, diz Luan. “No fim de semana, esse número ainda aumenta.” Pizza Caprese é uma das novidades do cardápio, criação de Matheus (Alexsander Ferraz/AT) A virada na pandemia Se há um momento que acelerou esse crescimento, foi a pandemia. “A gente entendeu muito rápido que o negócio ia ser sério”, conta Lucas. “Fechamos o salão antes de todo mundo e fomos 100% para o delivery”, diz Lucas. A decisão foi arriscada e certeira. “Enquanto muita gente ainda tentava entender o que fazer, a gente já estava focado em fazer o delivery funcionar.” A operação cresceu tanto que ficou inviável no espaço original. Vieram obras, expansão e, depois, a criação do galpão de produção. “Hoje a gente mantém praticamente o mesmo volume do auge da pandemia”, afirma. Apesar do sucesso, a expansão é tratada com cautela. “A ideia é abrir um delivery na Praia Grande até o fim do ano”, revela Lucas. “A gente estudou bastante, inclusive com dados do iFood, e faz sentido.” O modelo já está desenhado: produção centralizada e finalização local. “Vai ser uma cozinha lá para montar, assar e entregar. Tudo preparado daqui.” “As pessoas perguntam por que a gente não cria uma franquia, não abre em todo lugar. A gente prefere crescer devagar e garantir que cada unidade seja relevante.” A preocupação é manter o padrão. “É muito difícil crescer e manter a qualidade. E franquia exige que outra pessoa tenha o mesmo cuidado e amor pela marca. Isso não é simples.” A Nevada é, talvez, a pizza mais emblemática da Big Pizza (Alexsander Ferraz/AT) A pizza que virou símbolo A Nevada é, talvez, a pizza mais emblemática da Big Pizza. Feita com banana e chocolate branco gratinado, ela nasceu de um encontro improvável. “Foi o irmão do dono do forno que comentou com a gente”, lembra Zé. “Ele falou da combinação e a gente saiu correndo para testar.” O resultado não veio de primeira. “A gente testava, ficava feia, queimava, não dava certo. Mesmo assim, dava para os clientes provarem”, conta. A estratégia funcionou. A pizza foi ajustada até chegar ao ponto ideal e virou fenômeno. “A gente acabou popularizando a pizza doce desse jeito. Hoje todo mundo faz”, diz Lucas. O sucesso é tão grande que impacta até a operação. “São cerca de duas toneladas de banana por semana”, completa. Essência que não muda Mesmo com números grandes, estrutura robusta e planos de expansão, a essência segue a mesma. “A gente começou sem saber se ia dar certo. Ficava esperando o telefone tocar”, lembra Rose. Mas, no fundo, a Big Pizza ainda carrega aquela mesma imagem do começo: uma família trabalhando junta, testando receitas, ouvindo clientes e fazendo da cozinha um lugar de encontro. Uma história que prova que, mais do que receita, o sucesso tem sabor de persistência.