A coquetelaria vive um momento de virada: mais técnica, mais consciente e com consumidores cada vez mais atentos ao que bebem. Essa é a leitura do mixologista Alex Mesquita, que esteve em Santos, no litoral de São Paulo, para conduzir a masterclass gratuita. O bar como negócio, realizada no Hideout Fizz. Com quase 30 anos de profissão, ele observa uma mudança clara no comportamento do público e na forma como os bares precisam se posicionar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “O cliente está mais seletivo. Ele quer saber o que está consumindo e busca qualidade”, afirma. Segundo ele, esse olhar mais crítico se fortaleceu após episódios recentes envolvendo bebidas adulteradas. “A falsificação sempre existiu, mas veio à tona porque estava desenfreada. O consumidor percebeu e passou a observar mais.” Para Mesquita, essa transformação está alinhada a um estilo de vida mais consciente. “Veio tudo junto: cuidar da saúde, beber menos, fazer atividade física, escolher melhor o que consumir”. Nesse cenário, a coquetelaria sem álcool cresce de forma acelerada, mas com um novo patamar de exigência. “Coquetel sem álcool não é soda com gelo. É entregar complexidade, aroma, textura, boa taça, gelo adequado e apresentação impecável. O bar que não pensar nisso vai perder espaço.” Ele ressalta que o álcool não é uma necessidade fisiológica, mas um elemento social. “É um momento entre amigos, um estado de prazer. A gente consegue manter esse prazer com equilíbrio e técnica.” Tendências Atrás do balcão, algumas mudanças. O gin perde parte do protagonismo que teve nos últimos anos, enquanto o vermute mantém presença constante nas cartas. Mais do que ingredientes, porém, o mixologista destaca a valorização das famílias clássicas de coquetéis — como Fizz, Collins, Highball e Spritz — como ferramenta para ajudar o cliente a compreender sabores e estilos. “Muitas cartas mostram receitas bonitas, mas sem conceito. Quando explicamos a família do drinque, o cliente entende melhor a experiência.” Para ele, esse entendimento amplia a experiência sensorial e cria conexão com o público. Mesquita defende uma hospitalidade equilibrada, sem exageros. “O cliente quer sabor equilibrado e hospitalidade genuína. Informação demais e discursos longos cansam.” Segundo ele, o atendimento deve ser atento, mas natural. “Se o garçom aparece a cada dois minutos perguntando se está tudo bem, na terceira vez o cliente já quer ir embora.” Apesar da evolução técnica da coquetelaria nacional, ele acredita que o Brasil ainda precisa consolidar sua identidade líquida. “Com seis biomas e uma diversidade enorme de frutas, ervas e ingredientes únicos, o país ainda explora pouco seu potencial”. Identidade Para o mixologista, a valorização da cachaça e dos insumos nativos é fundamental para construir uma assinatura brasileira no copo. “Como vou apresentar gin na Europa se tenho a cachaça que eles não têm?” Ele acrescenta que a nova geração desempenha papel essencial nesse processo. “A coquetelaria evoluiu muito e os jovens estão chegando com outra mentalidade.” Formado pela Universidade do Cocktail de Buenos Aires, Alex Mesquita construiu uma trajetória sólida e respeitada, com passagens por casas emblemáticas como o Paris Bar e o Tan Tan Noodle Bar — este último incluído, em 2021, na lista do The World’s 50 Best Bars. Ao longo da carreira, acumulou cinco prêmios de Melhor Bartender do Rio de Janeiro (Veja Rio), dois de Melhor Bartender do Brasil (Prazeres da Mesa), entre outros. Atualmente, é diretor criativo de coquetéis do Elena, no Jardim Botânico (RJ), listado entre os 500 melhores bares do mundo pelo Top 500 Bars. Também atua como Head de Bares da rede Bourbon Hotéis. Na sua passagem por Santos, assumiu o balcão do Hideout Speakeasy como guest bartender, apresentando drinques autorais e interagindo com o público em uma experiência intimista que traduziu sua filosofia: técnica refinada, sabor equilibrado e hospitalidade genuína.