O design permite que as peças se integrem às estruturas urbanas já existentes, como em píeres (Divulgação/Chris Chen) Em um cenário onde as cidades do litoral de São Paulo enfrentam os desafios da erosão costeira, do avanço do mar e das mudanças climáticas, uma inovação australiana surge como uma possibilidade para a proteção ambiental e a preservação da biodiversidade marinha: as living seawalls, ou ‘muralhas vivas’. Essas estruturas ecológicas, que combinam concreto com habitats para organismos marinhos, têm ganhado destaque em Sydney e podem ser a solução para regiões como a Baixada Santista, onde o equilíbrio entre urbanização e preservação costeira se torna cada vez mais urgente. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! As living seawalls foram criadas pela University of New South Wales (UNSW), com um projeto desenvolvido pelo Sydney Institute of Marine Science e liderado por uma equipe de pesquisadores, incluindo a brasileira Mariana Mayer-Pinto, bióloga formada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e há duas décadas vivendo na Austrália. Estruturas como paredões, estacas, pontões e marinas são construídas para diversos propósitos, como proteção da costa e atividades recreativas, mas não têm a complexidade necessária para um ambiente marinho. As estruturas, testadas em Sydney, foram projetadas com superfícies texturizadas inspiradas no design do ambiente marinho, para servir como habitat para organismos como moluscos e algas, contribuindo para a proteção das costas, contra a erosão e para o aumento da biodiversidade marinha. O sucesso das living seawalls em Sydney gerou interesse global, e outras cidades começaram a adotar a tecnologia ou se inspirar nela para implementar soluções semelhantes em suas próprias costas. As peças têm desenhos diversos e são fixadas nos paredões já existentes (Divulgação/Chris Chen) Ecoengenharia O projeto das living seawall foi apresentado esta semana no fórum Café & Inovação Azul - Ecoengenharia Azul: Soluções Inovadoras para Cidades Costeiras Sustentáveis, uma iniciativa da Unifesp-Baixada Santista e do Sebrae-Baixada Santista. Mariana Mayer-Pinto explicou que o projeto já tem seis anos em regiões estuarinas da Austrália e que os resultados têm sido positivos na proteção das áreas costeiras como píeres e costões de cidades e também no retorno de espécies marinhas que já não existiam nessas áreas. “Sabemos que estruturas serão cada vez mais necessárias nas cidades costeiras, mas com a ecoengenharia é possível termos estruturas com menos impacto ambiental e mais amigável à fauna marinha. Trocamos a infraestrutura cinza, feita apenas de concreto, por elementos naturais que também protegem e preservam os ecossistemas marinhos”. No Brasil, já há uma linha de pesquisa para reproduzir os living seawalls com materiais semelhantes ou outros que também desempenhem a mesma função. Rafael Pileggi, pesquisador e professor da Poli-USP, participou do fórum em Santos e disse que o Centro de Competência em Inovação e Complexidade Sistêmica (CCICS), ligado à universidade, vem pesquisando materiais alternativos ao cimento para ser usado na construção civil. “Sabemos que a indústria cimenteira é responsável por 8% das emissões de gases de efeito estufa no planeta”, disse. Na Austrália, as estruturas são feitas com materiais diversos com cascas e ostras trituradas. “Precisamos pesquisar os melhores materiais para a costa brasileira, porque há diferença de fauna, de condição da água, acidez e temperatura”. Na Baía de Sydney, após 2 anos, as living seawalls abrigavam pelo menos 36% mais espécies, com mais de 85 tipos de invertebrados, algas e peixes (Divulgação/Chris Chen) Projeto-piloto Ronaldo Christofoletti, professor, pesquisador e membro do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-Baixada Santista), organizador do encontro realizado quarta-feira, entende que o projeto bem-sucedido na Austrália pode ser aplicado nas cidades costeiras de São Paulo, incluindo Baixada Santista, que tem 150 quilômetros de orla ou regiões estuarinas próprias para um projeto-piloto. “Esse é o papel da universidade, tanto aqui no Brasil como fora, e soluções inovadoras desenvolvidas por pesquisadores de outras instituições podem servir de modelo para problemas que também temos aqui”, diz. Christofoletti também coordena o programa Maré de Ciência na Unifesp, que visa promover a cultura oceânica e a interface entre ciência, políticas públicas e sociedade. Ele é presidente do Grupo de Especialistas em Cultura Oceânica da Unesco. Em parceria com a Poli-USP, a Unifesp quer difundir a ideia de que o projeto-piloto para as living seawalls seja desenvolvido na Baixada Santista, mas, para isso, precisa da parceria com autoridades locais. Autoridade portuária Sidnei Aranha, superintendente de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho da Autoridade Portuária de Santos, diz que não restam dúvidas sobre a eficiência do sistema criado pelos pesquisadores australianos. “Isso nos traz muito interesse, sim, e estamos dispostos a encontrar uma área para o projeto experimental”. Ele cita, como exemplo, a área do Parque Valongo, recentemente urbanizada, com um trecho extenso de cais no Canal de Piaçaguera. “A longo prazo, imagino que muitas espécies marinhas possam reaparecer, aumentando a nossa biodiversidade”. Além disso, acredita que a instalação dessas estruturas possa ser, no futuro, obrigatória para qualquer novo projeto na área do porto. Aranha, que já foi secretário de Meio Ambiente de Guarujá, acredita que esse tipo de iniciativa valoriza a Ciência e a produção acadêmica na busca por soluções para os problemas enfrentados pelas cidades. “Este ano, temos planos de colocar em andamento muitos estudos e pesquisas ambientais. Temos um grande desafio pela frente na área de mudanças climáticas, e o porto precisa dar sua contribuição”, diz. Antes/Depois: As living seawalls em Plymouth, Inglaterra, são estruturas inovadoras projetadas para aumentar a biodiversidade marinha ao longo das áreas costeiras urbanizadas (Divulgação/Chris Chen) As living seawalls em Plymouth, Inglaterra, são estruturas inovadoras projetadas para aumentar a biodiversidade marinha ao longo das áreas costeiras urbanizadas. As estruturas feitas com painéis diversos, especialmente desenvolvidos, foram fixadas ao longo do muro de contenção próximo ao memorial dos Degraus Mayflower, na margem do Plymouth Sound National Marine Park. A instalação cobriu uma área de 12 metros por 2 metros e foi concluída em agosto de 2023. Dezoito meses depois, se transformaram em novos habitats para uma variedade de flora e fauna marinha, como limos, anêmonas, algas, esponjas e outras espécies comuns da costa.