[[legacy_image_91739]] Na última vez em que você fez uma escolha errada sua ação foi movida pela emoção do momento? Se respondeu sim, saiba que pertence a uma gama enorme de pessoas que age de forma impulsiva nas diversas áreas da vida e colhe resultados não muito animadores. A boa notícia é que dá para desenvolver autocontrole diante das situações mais adversas e obter benefícios em vários campos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Saber controlar a mente é como malhar na academia. Com treinamento e disciplina desenvolve-se força. Se, ao conhecer e exercitar o corpo, os músculos ficam tonificados e visíveis, malhar a mente focando em autoconhecimento tem efeito parecido: ganhamos mais equilíbrio emocional, força para viver e, consequentemente, felicidade. Pesquisas, como a publicada no Journal of Personality por quatro universidades norte-americanas (Universidades de Chicago, Minnesota, Illinois e do Estado da Flórida), mostram que pessoas com as chamadas “mentes fortes”, mais disciplinadas e autocontroladas, são, de fato, mais felizes. Segundo os autores do estudo, publicado em 2013, isso ocorre porque esses indivíduos tendem a evitar situações tentadoras e conseguem lidar melhor com objetivos conflitantes. Por exemplo, diante de um doce, eles conseguem ponderar a melhor opção entre o prazer de comer o alimento e o ganho de peso que vem junto. De acordo com os dados da pesquisa, que analisou 414 adultos na primeira etapa do estudo, 208 adultos na segunda etapa e 234 na terceira, pessoas que se saíram melhor em testes de autocontrole são as mesmas que relataram melhor satisfação com suas vidas e mais episódios de bom humor. Para os autores, os resultados não estão ligados ao fato de esses indivíduos serem mais capazes de resistir a tentações, mas sim ao fato de que eles se expõem a menos situações tentadoras ou conflituosas, pois têm maior conhecimento sobre si mesmos. E quando estão diante de situações problemáticas inevitáveis, sabem lidar melhor com elas. Isso acaba resultando em menos emoções negativas. FiltrosAo ser questionada sobre a importância de controlar os impulsos, a mentoring, palestrante e facilitadora em Desenvolvimento Humano, Daniele Costa, propôs mudar a pergunta. “O certo é perguntar por que é importante nos conhecermos antes de fazer qualquer escolha? Muitas vezes, sob emoções e crenças inconscientes somos levados a fazer escolhas que não necessariamente vão expandir ou criar mudanças na nossa realidade”, reflete. Segundo ela, as pessoas têm a tendência a julgar o que é certo ou errado usando filtros do que já conhecem, pontos de vista que foram acolhendo no decorrer da vida. Porém, quando temos conhecimento a respeito das nossas emoções ou quando percebemos quando somos levados a agir sob gatilhos de crenças e memórias, conseguimos modular os efeitos dessas emoções e fazer escolhas mais conscientes. “Ou seja, eu tiro a minha mente emocional do caminho e percebo o que de fato aquela realidade está me apresentando e como posso agir da melhor forma naquele momento”, explica. Quando agimos sob impulso ou sob o efeito de emoções inconscientes, tendemos a não enxergar a realidade tal qual ela se apresenta e revivemos cenários de traumas e dramas vividos anteriormente, o que nos impede de tomar decisões ou fazer escolhas de forma mais inteligente para cada momento. Esse processo Daniele chama de pegadinha da mente. “Ela nos prega uma peça. A mente literalmente mente”, resume. Leila Navarro, palestrante, escritora e especialista em Medicina Comportamental lembra que os impulsos podem ser bons ou ruins, mas a dificuldade de controlar nossos instintos mais primitivos geralmente traz mais ônus do que bônus. “Quando a razão fica de lado e a emoção domina de forma descontrolada, não temos mais o leme da nossa vida. Tomamos decisões que podem agredir nosso corpo e nossa saúde. Também podemos fazer coisas horríveis até a quem amamos, como por exemplo, falarmos sem pensar coisas que ferem e magoam”. ImpulsosSaber controlar os impulsos é fundamental para governar a própria vida, ser dono de si mesmo e evitar sofrimentos. Isso porque pessoas com essa competência geralmente têm menos arrependimentos. “Não ficam reféns das situações, se tornam livres para agir, em vez de apenas reagir aos acontecimentos”, enfatiza. Não por acaso, o autocontrole se tornou uma das características mais desejáveis para os líderes. “Sem essa habilidade, as explosões emocionais em situações estressantes passam a dominar. O ponto chave é o autoconhecimento”, diz Leila. Então, como é possível afinal “malhar” a mente para que ela se fortaleça? Para a Daniele Costa fica mais fácil chegar lá ao entendermos primeiramente que a mente é formada puramente por pensamentos, que por sua vez impactam nos nossos sentimentos e emoções. “Se temos a consciência que os pensamentos são impulsos elétricos e que duram um átimo de segundo, entendemos que eles passam como nuvens, que vêm e vão. Como observadores podemos então identificar esses pensamentos e perceber quando se tratam de nuvens carregadas ou apenas nuvens leves. Classificando-os, podemos sim ter controle sobre eles, impactando positivamente nos nossos sentimentos e emoções”. Buscar a experiência do mindfulness pode ajudar. Por meio dessa ferramenta muito usada por adeptos da meditação, alcançamos um estado de presença total como observadores da mente. Dessa forma, somos capazes de identificar o que é nosso e também o que não somos nós. Tudo o que não nos serve identificamos e deixamos passar. “Após um período de treino com essa mentalidade, como observadores dos pensamentos, sentimentos e emoções, é possível, sim, controlar o que se apresenta e não ser levado pelas mentiras da mente. Os grandes CEOS e executivos do mundo corporativo já entenderam que o segredo do sucesso está no autoconhecimento e o desenvolvimento da inteligência emocional”, ressalta a mentoring em Desenvolvimento Humano. Como mentora, Daniele sempre recomenda alguma atividade que venha trazer estado de presença, diversão, leveza e relaxamento. Essas coisas podem vir por meio de uma atividade física, da própria meditação, da yoga, ao ouvir música, pintar ou qualquer outra terapia ocupacional ou integrativa. “O mais importante é trazer o individuo para o momento presente e reeducá-lo a aproveitar a jornada. A ansiedade e impulsividade tem a ver muito com pessoas que estão focadas no futuro e esquecem de aproveitar o momento, mesmo qualquer preocupação que tenham tem a ver com algo que estão ansiando para o futuro e querem resolver agora. E esquecem que a vida acontece no presente e que há uma jornada disponível”. Para Daniele, as pessoas devem tentar se conectar com algo que as induza a momentos de “flow”, aquele momento em que o indivíduo está tão inteiro no que se está fazendo que é invadido por paz, calma e tranquilidade. Autogerenciamento Você certamente já ouviu a famosa frase: “nossa mente pode ser a nossa maior aliada ou o nossa pior inimiga”. Para Leila Navarro, pode parecer clichê, mas é a mais pura verdade. “Se você não controla a sua mente, alguém vai controlar você. Então é melhor assumir a tarefa de se autogerenciar. Para manter clareza e força mental ela recomenda exercícios de respiração e de concentração. “Concentre-se na situação exata na qual você se encontra e que de fato pode atuar. Ao fazê-lo, os pensamentos o seguirão. Nunca esqueça: o agora é o palco onde podemos agir. O passado já foi e o futuro é um lugar onde você nunca agirá”. Segundo as especialistas, existem pessoas que nascem com maior propensão a desenvolver autocontrole. No entanto, essa competência emocional é algo que todos podem alcançar. Os mais espontâneos e ‘sincerões’ podem estar se perguntando: ‘Ser uma pessoa extremamente controlada emocionalmente pode zerar a naturalidade e acabar atrapalhando relacionamentos afetivos e profissionais? Existe a hora em que devemos seguir mais a intuição, nos jogar no inesperado e pagar pra ver?’ Para Leila Navarro a resposta é não. Controle da mente tem a ver com equilíbrio e não com espontaneidade. É um erro confundir impulsividade com liberdade. “Ser livre é agir acima das emoções. Se eu me rendo à raiva, por exemplo, ela me domina e me obriga a reagir. Se a controlo, tenho lucidez para tomar as ações necessárias e que serão benéficas a mim e aos demais. A espontaneidade é justamente estar consciente do momento presente, permitindo-se sentir sempre, mas reagir somente se for o melhor a ser feito”. Ou seja: é ter o controle para “se jogar”, se for o caso, mas da maneira mais assertiva possível.