Em um singelo sobrado na Rua do Comércio, chegava ao mundo um dos mais criativos e sensíveis poetas que Santos já revelou: Fábio Montenegro (Vanessa Rodrigues/AT ) Santos, terça-feira, 26 de maio de 1891. Aquela era para ser apenas mais uma manhã comum de outono na terra santista — brisa leve, céu encoberto, a cidade ainda despertando entre o rumor do porto e o canto dos bem-te-vis. Mas algo sutil e irreversível acontecia naquele dia: em um singelo sobrado na Rua do Comércio, chegava ao mundo um dos mais criativos e sensíveis poetas que Santos já revelou: Fábio Montenegro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Dizem que, quando um poeta nasce, o mundo ganha um novo par de olhos — e as palavras, um novo modo de respirar. Assim, em um instante silencioso, sem fanfarras ou anúncios, a poesia encontrava em Santos um novo corpo por onde florescer. Fábio Montenegro era um dos seis filhos do casal Fábio Máximo de Carvalho Montenegro e Christina Ayres Montenegro, mas tornou-se órfão de pai muito cedo, o que o obrigou a trabalhar desde jovem para garantir a própria subsistência, limitando seus estudos ao antigo curso primário. Essa condição, porém, só ressaltou ainda mais seu talento nato e seu domínio da língua portuguesa — que usava com apuro dentro dos cânones da poesia parnasiana, muitas vezes resvalando num preciosismo consciente, em busca da forma ideal de dizer. Começou na labuta como comerciante, atuando em funções modestas. Pouco mais tarde, obteve um cargo de escriturário na Companhia Docas de Santos, ao mesmo tempo em que atuava como revisor noturno no jornal A Tribuna — atividade que lhe garantia uma renda complementar e permitiu a publicação de seus primeiros poemas. Em 1915, casou-se com Anastácia de Souza Barros, com quem teve dois filhos: Fábio e Zélia. Dividia, então, seu tempo entre o trabalho burocrático, as noites de revisão, as responsabilidades familiares — e, acima de tudo, com a poesia, sua paixão permanente. Poesias e vida social O sucesso de seus escritos em A Tribuna o levou a colaborar com outras publicações como as revistas A Fita, A Nota, A Pena, Flama e Via Láctea, além do jornal Verso, fundado em 1907, composto só por versos, inclusive nos anúncios. Sua popularidade, entretanto, só chegaria em 1914, quando venceu os Jogos Florais promovidos pelo Liceu Feminino Santista. Mas a consagração definitiva viria em maio de 1920, quando apresentou-se no Elite Club, em Santos, com o livro Jornada Lírica, sua primeira obra literária reunida. A sessão de lançamento foi um sucesso estrondoso, com poemas lidos pelo jornalista José Simões Coelho e uma poesia inédita declamada pela poetisa Adalzira Bittencourt. Fábio Montenegro, poeta humilde e tímido era, enfim, aclamado. Encanto natural Fábio Montenegro tinha o dom raro de encantar o cotidiano com visões surpreendentes e ritmo harmonioso. Sua obra unia simplicidade e sofisticação, transitando com igual naturalidade entre o coloquial e o erudito. Era capaz de escrever com palavras raras como áscuas, prónuba ou tábido, e ao mesmo tempo declamar com ternura versos singelos sobre a filha Zélia: “...ando cheio de amor por minha filha!; Nos seus olhos de noite sem luar; intensamente, com fulgores, brilha; o meu olhar...” A natureza era um de seus temas mais recorrentes. Em versos vibrantes, exaltava a primavera como promessa: “...na primavera, como em nossa vida; como em nossas saudades dolorosas; a terra estua em selva, enternecida; para o parto dos lírios e das rosas.” Ou descrevia o amanhecer com imagens quase pictóricas: "...a alva neblina é um longo véu. Contudo; reverberando pelo campo afora: espadas de ouro, como num escudo: verde, o sol rasga a túnica da aurora”. No poema No Monte Serrat, observava Santos do alto e capturava a paz crepuscular com lirismo melancólico: “Só, do alto deste monte, orlado pela bruma; sigo um sonho no espaço...: ...Santos, embaixo, dorme, imersa em trevas; como uma cidade morta entre milhões de círios.” Na obra A Guerra, revelava seu horror diante da Primeira Guerra Mundial, com uso expressivo do polissíndeto: “eis fragor estúpido da guerra: é a luta, é a sanha, é tudo que esbarronda; e calca, e atroa, e estruge, e assombra, e aterra; extermina, e excrucia, e mata e estronda! Morte prematura Mas Montenegro não teria tempo para desfrutar plenamente do próprio êxito. Apenas três meses após o lançamento de Jornada Lírica, seu coração cessava de bater. Na madrugada de 21 de agosto de 1920, por volta das 2 horas, sentiu-se mal e pediu que a família se reunisse ao seu redor — como se pressentisse o fim. Morreu pouco depois, vítima de uma síncope cardíaca, aos 29 anos. A notícia ganhou destaque na primeira página de A Tribuna, que lamentou a perda do “tão alegre e cordial moço”. Ainda naquele dia, foi sepultado no Cemitério do Paquetá, em um cortejo acompanhado por amigos e admiradores. Dois anos depois, em 1922, a cidade de Santos homenageava sua memória com a inauguração de um busto esculpido por Leão Veloso, inicialmente instalado na Praça dos Andradas e, mais tarde, transferido para os jardins da praia, próximo ao Aquário Municipal, onde permanece até hoje. Também foi dado seu nome a uma rua no Bairro Gonzaga. Sucesso póstumo Em 1925, a coletânea Flâmulas (obra póstuma) reuniu 33 de seus poemas, cuidadosamente selecionados por Agenor Silveira, Álvaro Augusto Lopes, Jayme Franco e Mariano Laet Gomes. O prefácio foi escrito por Galeão Coutinho. O livro foi recebido com entusiasmo em todo o País. O Jornal do Brasil o celebrou como “obra de mais um grande literato”, e Osório Duque Estrada (o autor do Hino Nacional), em A Tribuna, destacou: “É realmente admirável, mas o que nela me pareceu ainda mais extraordinário foi a perfeição que lhe notei em todos os seus aspectos, a ponto de lhe não haver surpreendido um único deslize de métrica, de linguagem ou, sequer, de pontuação...”. Legado Ao lado de nomes como Martins Fontes, Paulo Gonçalves e Vicente de Carvalho, Fábio Montenegro é reconhecido como um dos grandes poetas da terra santista. Sua memória resiste — não apenas nos bustos, nas ruas ou nos arquivos — mas, sobretudo, no sopro de seus versos, que continuam a ecoar como um lenço branco que enxuga o tempo. Em um de seus poemas, ele exprime com clareza a consciência da permanência: “...descansará depois, feliz da sua glória; herói, em cada prélio, ardeu numa esperança; poeta, em cada canção, sagrou uma vitória.” Sim, sua vitória foi o tempo — o tempo que passou e confirmou que, embora breve em vida, Fábio Montenegro permaneceu imortal na memória poética de Santos. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR