[[legacy_image_257557]] Há mais de 15 anos, eu me dedico a escrever sobre gastronomia. Acompanho de perto bares e restaurantes abrindo e fechando, bem como a criação de pratos e menus. Vi muita coisa mudar nesse cenário, mas, nos últimos anos, percebi uma transformação das casas e dos cardápios para atender especificamente ao público que escolhe o que vai comer pelas fotos que pode postar nas redes sociais. Agora, para abrir um estabelecimento de alimentação, não basta você criar um ambiente confortável e um menu bacana, é preciso que tudo seja fotogênico, ou seja, que induza o cliente a clicar e compartilhar. Eu posto, logo existo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Há muitas casas, hoje, pensadas para esse nicho, que só cresce. Geralmente, são bares ou restaurantes temáticos, nos quais drinques são coloridos, vêm em taças enfeitadas ou com atrativos que vão bem além do sabor. Tem coquetel que vem dentro de uma bola, outro apoiado em uma boia, os que trazem mensagem engraçadinha presa ao copo e ainda os de cores psicodélicas. É a afirmação de que a forma interessa mais do que o conteúdo. A decoração também precisa ter apelos fotográficos, como paredes cenográficas, neons e luzes especiais. Na Europa, há restaurantes que disponibilizam até kits gratuitos de fotografia – eles têm, entre outras coisas, um miniequipamento de iluminação, fonte de energia, lente do tipo olho de peixe e um bastão de selfie. Há, ainda, os que disponibilizam vestuário para que os registros fiquem ainda mais postáveis. Tempos modernos. Um empresário do ramo me disse, certa vez, que não é suficiente ter boa comida, boa bebida, bom atendimento. É preciso oferecer uma experiência. Acho que sempre foi assim, mas a experiência mudou. Agora, raramente alguém come imediatamente após o prato chegar à mesa. Antes, faz-se foto, vídeo, selfie. É o tempo da comida fria. Acho que a pandemia agudizou ainda mais essa necessidade de compartilhamento da vida e de experiências sociais intensas, com mais artifícios de entretenimento. E parece que não basta se divertir, tem que mostrar que está se divertindo. Para os empreendedores, essa necessidade de exposição é perfeita; afinal, cada vez mais só cresce quem aparece. Apesar de achar divertido receber à mesa um prato ou um coquetel cenográfico, ainda me considero à moda antiga. Quando estive em Portugal, que me parece ainda não ter aderido a essa febre, percebi que “comida raiz”, aquela sem frufru, mas com muita autenticidade e sabor pode, sim, render muitos cliques. Quem resiste a um vídeo de um lombo de bacalhau alto nadando no azeite e com as lascas soltando a cada garfada? Aliás, tenho comigo que a palavra-chave do sucesso será, em breve, a autenticidade. Não sei até quando essa fórmula de influencers postando conteúdos nitidamente pagos irá funcionar. Eu, particularmente, sempre fiquei com o pé atrás. É como na apresentação de um prato: a beleza, a forma sempre foi fundamental – a clássica escola francesa de gastronomia que o diga –, mas, no fim, o que importa é o conjunto. Se o conteúdo, ou seja, o sabor, não for arrebatador, não adianta uma boa maquiagem. Pode render umas postagens, mas não sustenta um álbum completo.