[[legacy_image_288942]] O Santos pagou à Doyen Sports, de 2013 a 2019, R\$ 384.700.000,00. A cifra milionária foi levantada pelo Grupo de Avaliação de Riscos e Perdas, através da contratação de uma perícia contábil, e apresentada em reunião extraordinária do Conselho Deliberativo, na noite desta segunda-feira (14). Um dos cinco integrantes do Grupo de Avaliação de Riscos e Perdas, o conselheiro e promotor aposentado Marcelo Camargo Milani, apresentou os números aos cerca de 30 conselheiros presentes ao encontro, conduzido pelo primeiro vice-presidente do CD, Fábio Pierry. Alegando questões pessoais, o presidente do CD, Celso Jatene, não participou da reunião presencial e nem virtualmente, assim como o presidente Andres Rueda. A reunião também não foi transmitida, como de costume, aos sócios do clube. Segundo Milani, diante da omissão da atual gestão aos fatos apresentados no relatório, ele pediu o encaminhamento do documento à Comissão de Inquérito e Sindicância (CIS) do clube, que poderia instaurar procedimento de impedimento do presidente Andres Rueda. Negócios com a DoyenDe acordo com Milani, o grupo foi formado no início da gestão Rueda, em 2021, para levantar possíveis desvios de recursos cometidos por gestões passadas. No trabalho, chamou a atenção o montante pago a Doyen Sports. Segundo o relatório, o início da dívida começou com os 13 milhões de euros emprestados pela empresa, sediada em Malta, para a compra do atacante Leandro Damião junto ao Internacional, em 2013. O negócio foi concretizado na gestão de Odílio Rodrigues. Na transação, em que a empresa atuou como fiadora/garantidora, os 13 milhões de euros teriam que ser pagos da seguinte forma: 6 milhões de euros até 29 de dezembro de 2013; 3 milhões de euros até 15 de maio de 2014 e 4 milhões de euros até 15 de novembro de 2014. “No entanto, em 17 de janeiro de 2014, o Santos cedeu à Doyen todos os direitos econômicos do atleta Leandro Damião, sendo que, por incrível que pareça, nesse contrato o valor da remuneração mínima foi de 18 milhões de euros”, aponta o relatório. Em 13 de janeiro de 2015, Damião ingressou com reclamação trabalhista contra o Santos solicitando a rescisão indireta do contrato de trabalho por falta de pagamentos de direitos. No final do mesmo ano, o Tribunal Superior do Trabalho deu ganho de causa ao atleta. Informada do rompimento do contrato, a Doyen ajuizou ação de execução contra o clube, em março de 2016. A remuneração mínima, de acordo com o relatório, fixada em 18 milhões de euros, saltou para 27 milhões de euros com os “juros compensatórios”. Mais broncasO conselheiro apresentou uma série de outras negociações que o Santos fez com a Doyen, envolvendo o lateral Daniel Guedes, os meias Felipe Anderson e Lucas Lima e os atacantes Geuvânio e Gabigol, que geraram novas dívidas ao clube: 4,8 milhões de euros e R\$ 12 milhões. Um levantamento pericial contábil, realizado pelo grupo, demonstrou que “entre os anos de 2013 a 2019” a movimentação financeira pesquisada nos lançamentos e demonstrações contábeis dos contratos assinados com a Doyen atingiram R\$ 384.700.050,00”. Antes de Andres Rueda assumir o clube, em janeiro de 2021, aponta o relatório, foi firmado “um acordo para encerrar um processo no juízo arbitral eleito para dirimir os conflitos no contrato Santos e Doyen”. O clube teria que pagar 15 milhões de euros parceladamente à empresa. Na gestão do ex-presidente José Carlos Peres, a última parcela de 5 milhões de euros não foi paga, resultando numa dívida de 15 milhões de euros. Segundo Milani, o clube dispunha, à época, de dinheiro para pagar a parcela, pois havia negociado o atacante Rodrygo ao Real Madrid por 40 milhões de euros, em junho de 2018. [[legacy_image_288943]] Pagamentos fracionadosUm primeiro relatório, apresentado pelo Grupo de Avaliação de Riscos e Perdas ao presidente Andres Rueda, em novembro de 2021, já havia apontado prejuízo na venda de Rodrygo. Foi constatado pericialmente o fracionamento do recebimento das parcelas referentes à cessão dos direitos do atleta. A primeira parcela foi fracionada em 17 contratos de câmbio e a segunda parcela, em 10 contratos de câmbio. “Fizemos uma cobrança para a presidência (Rueda) que tomasse providências legais contra essa postura dos diretores; no entanto, nada foi feito”, destaca o relatório, que sugeria a cobrança do prejuízo aos membros do comitê gestor presidido por José Carlos Peres. O grupo solicitou ainda que Rueda formulasse representação junto a CBF para punição, por “violação ao código de ética da entidade contra os membros do Conselho Gestor da administração Peres”, mas nenhuma providência teria sido tomada. "Omissão deliberada"O relatório finaliza acusando a atual gestão de “omissão deliberada” e de continuar fazendo pagamentos à Doyen. Além disso, aponta que em outubro de 2021, a atual gestão lançou o token Meninos da Vila, após firmar contrato com a “Mercado Bitcoin Digital Assets, empresa de criptomoedas para monetização de ativos consistentes em utilizar do mecanismo de solidariedade”. Os 600 mil ativos totalizariam R\$ 30 milhões. “O que aconteceu com esse dinheiro? O atual presidente está comprometendo o clube, sendo que existem claros indícios de prejuízos. A base do clube já está comprometida com esse contrato”, cita o relatório. Diante do levantamento efetuado, o grupo solicitou que o documento “sirva de representação para o Conselho de Sindicância do clube instaurar procedimento de impedimento contra o atual presidente”. SaídasNa reunião do Conselho Deliberativo foi anunciada a saída de mais um membro do atual Comitê de Gestão (CG). Rafael Leal comunicou o desligamento alegando questões pessoais. Dessa maneira, o CG fica agora formado por apenas quatro integrantes: Andres Rueda, o vice-presidente José Carlos Ferreira, Dagoberto Oliva e Renato Hagopian. Outra baixa foi Nabil Khaznadar, membro da Comissão de Inquérito e Sindicância, que também pediu desligamento por motivos pessoais.