[[legacy_image_259961]] Cumprindo o último ano de mandato e reafirmando que não disputará a reeleição, em dezembro, o presidente Andres Rueda conversou com exclusividade com A Tribuna. Avaliando a gestão, o dirigente reconheceu se arrepender pela contratação de Edu Dracena para o cargo de executivo de futebol e pela demissão do técnico Fábio Carille, após desentendimentos entre os dois profissionais. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Fora das quatro linhas, Rueda negou ser centralizador e voltou a defender o saneamento das contas, mesmo que isso tenha causado dois anos de péssimo desempenho da equipe em campo e um grande desgaste junto à torcida. O senhor já disse que não será candidato à reeleição. A chapa também não tem um candidato e daqui para frente vai começar um "tiroteio político" que infelizmente sempre existiu na vida do clube... Esse "tiroteio político" é o que levou o Santos ficar nessa situação. A gente tem memória curta, né? Hoje, a gente, ainda bem, fala muito em resultados, futebol, contratações. Dois anos atrás o nosso problema era transfer ban, dolo, não pagamento, conta bloqueada, Fifa bloqueada. A gente conseguiu mudar esse patamar, essa imagem. O Santos voltou a ter credibilidade no mercado. Essa credibilidade tem que ser mantida, qualquer que seja a gestão que vai assumir. O senhor falou muito sobre a falta de credibilidade do clube quando assumiu. Mas na sua gestão, o senhor também teve gastos contestados em relação a contratação de reforços, mau desempenho do time, que pelo terceiro ano consecutivo ficou fora do mata-mata do Paulista. Isso também não afeta a credibilidade do clube? Existe aí muita desinformação plantada, até porque você no ano político. A gente primou muito por ter uma responsabilidade financeira, a gente pode até ser criticado se uma ou outra contratação foi boa, deu resultado e não deu. Isso faz parte do futebol, ninguém tem uma varinha mágica pra saber que você vai trazer e o jogador vai performar. Agora, em nenhum momento, qualquer contratação foi feita além da possibilidade da capacidade financeira do clube, que nos gerou contas impossíveis de ser pagas. A maioria dos jogadores que vieram foram empréstimos sem custos ou, quando tinham custo, baixinho e salários condizentes. Hoje se fala muito: 'o melhor jogador do Santos é o Dodi'. Uma contratação que veio sem custo. O futebol não é uma ciência exata, você vai acertar em jogadores e errar em outros. Agora o importante, sabendo que é assim, é não deixar dívidas impagáveis, não é ter contrato com altíssimos salários. Não gosto nem de citar, mas tem casos como a gente teve, o Cueva, o Leandro Damião, isso é maléfico pro clube, isso acaba com a credibilidade. O próprio Soteldo na primeira passagem. O Soteldo foi trazido dessa vez por empréstimo, já negociado o prazo e todas as condições de sua compra, dentro das condições que o Santos tem pra pagar. O senhor disse recentemente que o Santos vai comprar o Soteldo. O negócio está confirmado? O fato de comprar ou não comprar o Soteldo vai ser uma decisão puramente técnica. As condições de compra já estão definidas, o quanto e de que maneira, o prazo é super elástico. Qual é o prazo e o valor do Soteldo? São quatro milhões de dólares, pagando um milhão por ano, por 50% do passe dele (direitos federativos). Eu exerço (a opção de compra) na metade do ano e a primeira vai pagar em setembro. Por que setembro? A gente tem todo um planejamento por trâs, porque é após a janela de julho, que a gente imagina que vai ter mais receita. Algum jogador a gente vai ter que vender, não adianta mentir pra torcida, até pela própria demanda do mercado. Só que agora a situação financeira, não digo que tá confortável não, porque só a gente sabe o que tá penando pra conseguir sobreviver, mas todos os acordos que a gente fez, tá honrando. Eu tenho algumas pendências, tem uma que é brava que a gente não conseguiu regularizar. Qual é, presidente? É do Krasnodar (clube da Rússia que vendeu o meia Cueva ao Santos na gestão de José Carlos Peres). Mas o Santos ganhou na Fifa... (uma ação contra a equipe mexicana Pachuca, que assinou contrato com o peruano, ainda vinculado ao Santos). Ganhou um pedacinho, ganhou na Fifa, entrou um pouquinho de dinheiro. Mas usei o dinheiro no dia a dia do clube. Tem um negócio que dá orgulho, a gente está aqui há dois anos e quatro meses, em nenhum mês atrasou um dia salário, nem de funcionários, nem de jogadores. Mas eu tenho que pagar tudo pro Krasnodar. Quanto é a dívida com o Krasnodar? Três ou quatro milhões de dólares que já deveriam ter sido pagos. Alguns jogadores na sua gestão custaram caro não, presidente? Angulo, por exemplo, que tinha um salário alto. Depende do que você acha caro. Ele veio custo zero, salário alto você tinha que colocar salário, imagem e luvas. Agora, quando ele foi contratado, foi um pedido da comissão técnica, da diretoria esportiva, ele veio como se fosse um jogador que iria resolver o nosso problema. A gente fez um esforço pra trazer ele, mas não ficou barba. Não deu, não deu, tchau. O Zanocelo foi um negócio que não deu certo? Não, é um negócio que vai dar certo. Zanocelo tem um potencial enorme, provavelmente ele vai estar na seleção olímpica, tem 21 anos e um contrato longo com o Santos. As condições de compra dele foram ótimas, parceladas em 15 vezes. Apesar de o clube ter um Comitê de Gestão, há críticas de que o senhor é centralizador. Um exemplo recente é o da semana passada, em que o Falcão, coordenador de futebol, disse que os reforços do Água Santa (Gabriel Inocêncio, Luan Dias e Bruno Mezenga) foram apresentados pelo senhor a ele e a comissão técnica aprovou. Não teria que ser o contrário, presidente? O caminho normal de toda a contratação é esse aí. A comissão técnica vê a posição que ela precisa, a área esportiva junto com o scout indica um jogador e a gente viabiliza financeiramente. No caso do Água Santa, foi uma operação de oportunidade. Foi uma ligação minha junto com o presidente, que a gente tem um aproximação muito grande lá com o Paulo (Korek Farias), do Água Santa, e eu vi que existia a possibilidade da gente trazer pela parte financeira. A gente sofreu muito nessa janela, tentou trazer jogadores de altíssimo nível, só que a gente teve um problema e as pessoas esquecem. Eu tive o dinheiro da venda do Kaiky bloqueado e a gente não conseguiu na janela vender nenhum jogador. Então, em português claro, não tinha dinheiro pra contratar. Como foram prospectados esses nomes do Água Santa? O senhor falou sobre os nomes ou o presidente do Água Santa indicou? Conversando com o Paulo, falei 'tem três jogadores aí em posições que interessam pro Santos, daria pra fazer algum tipo de negócio? Quem são? Esse, esse, esse'. Aí falei pra coordenação técnica e a comissão desportiva analisar e ver se interessa ou não interessa, foi o caminho normal. E se eles tivessem falado 'não interessa', não teriam sido contratados. Não existe nenhuma ação em nenhuma área que seja imposta pelo presidente. Desde indicação pra base, estou há dois anos e quatro meses e não indiquei um jogador pra fazer teste na base. Isso pra quem conhece futebol não existe. E contratação de jogadores, repito e afirmo, nenhum jogador, nem os bons, nem os que não deram certo, foram exclusividade da contratação da cabeça do presidente. Todos passaram pela comissão técnica, esportiva e no final, financeira. [[legacy_image_259962]] Nesses dois anos e quatro meses, o senhor tem arrependimentos? Por exemplo: a troca constante de técnicos, foram sete técnicos nesse período. Ou as várias mudanças no departamento de futebol? Sem dúvida, eu sempre deixei claro desde o início da gestão que a torcida tem o direito de reclamar à vontade, ela tem o direito de agir com a emoção, porque, primeiro, não foi ela que levou o clube ao caos que a gente encontrou, não foi ela que fez a dívida. Agora, a diretoria tinha a obrigação de estar sempre com a razão, não com a emoção, é o papel dela. Eu não vou mentir pra você. Por que a gente trocou tanto de técnico? O resultado não começava a vir, a pressão da torcida era enorme, o pessoal esquece agora, né? Não foi a diretoria que trocou, a torcida inteira queria 'fora Diniz!, fora Carille!" e talvez seja o grande erro de não ter bancado, independente da vontade da torcida. Algum técnico específico o senhor não gostaria de ter trocado? Um que me arrependo, sem dúvida, foi o Carille. Acho que deveria ter permanecido com ele. Eu tive várias situações, né? Tive um caso aí, não sei se é bom nominar, mas um caso específico do Carille, teve um problema entre ele e o gerente de futebol. O Edu Dracena? É, aí eu trocava um ou trocava o outro. Infelizmente eu fiz a opção errada, faz parte. Se o senhor pudesse voltar atrás, o senhor demitiria o Dracena? Não teria nem contratado. Por quê? Ele é uma excelente pessoa, gosto muito dele, é um ídolo nosso, mas ele ainda não estava preparado para assumir a função. Não foi um erro dele, foi erro nosso de avaliação. O Falcão também nunca exerceu esse cargo que ele está executando no Santos. Mas é completamente diferente. Uma coisa é você acreditar que a pessoa já está preparada e capacitada e você entrega a chave da casa. Foi o que aconteceu com o Dracena? Isso. Com o Falcão, o que eu queria na verdade? Queria, até que evitei chamar de diretor esportivo. Ele é coordenador de futebol, ele é um parceiro da direção, onde ele é responsável pela área esportiva, que tenho contato direto. Eu despacho aqui todo dia, eu dou expediente quase como um funcionário público, oito e meia da manhã, coisa que eu não fazia nem na minha empresa, mas é pra criar essa proximidade e esse sentido de corpo entre comissão técnica, jogadores, coordenação de futebol. Naquele dia que a torcida organizada invadiu o CT, o senhor chegou a temer por algo pior? Não, não. Não vou mentir, eu temi, porque a tropa de choque tava aqui (do lado de fora do CT Rei Pelé) e a primeira atuação minha foi falar com o comandante e dizer 'deixa que isso eu resolvo aqui'. Aí fui lá falar com os caras e naquela hora, o que você tem que fazer? Escutar, não é o momento de você começar a criar o embate. O Santos está preparando algumas surpresas para a festa dos 111 anos, nesta sexta (14). Pode contar alguma? Vai ser uma festividade muito boa, de congregação da nação santista. É a primeira depois da pandemia, vai ter muito samba e alegria. E esse time, vai dar samba também? O senhor disse que 2023 seria diferente, a torcida ficou bronqueada em mais um ano sem avançar no Paulista, não houve contratações de peso... A torcida não tem a obrigação de saber se a gente não recebeu o dinheiro do Kaiky. Eu não recebi o dinheiro pelo simples fato de que era um imposto de 2012 que o Santos não pagou. Aí o fisco espanhol tomou o dinheiro, é duro. O Santos só pode ter uma contratação mais parruda se conseguir vender jogadores. A gente pode ser hostilizado pela torcida, mas o comprometimento meu, maior, mais do que com a torcida, com o Conselho, com os sócios, é com o Santos Futebol Clube, a instituição. Nesse comprometimento, um dos fatos que levaram à quase quebra do clube foi o passo maior que a perna. Pra agradar a torcida ou pra tentar ser campeão, você fazer loucuras sabendo que não tem como pagar. Alguns clubes às vezes conseguiram resultados bons. Eu cito o Cruzeiro, conseguiram resultados bons, foram campeões de tudo, mas teve que vender praticamente de graça (para Ronaldo Fenômeno). O importante é a continuidade do clube, isso eu tenho certeza que essa responsabilidade financeira é obrigação da gestão. Qual é o maior legado que o senhor vai deixar ao Santos no final de seu mandato, em dezembro? A gente aumentou a régua, a próxima gestão não vai poder fazer o que as outras fizeram, vai ser fiscalizada de outra maneira. Ela vai ter que continuar sendo transparente. A gente botou pra fora, não digo 100%, da parte de dolo, das coisas obscuras que aconteciam no clube, e qualquer gestão que ganhar tem que continuar nessa linha, porque vai ter o Conselho, o Conselho Fiscal, que vão apertar. Tivemos duas contas aprovadas, fazia tempo que não acontecia isso no clube.