[[legacy_image_211379]] Calmo, de fala mansa, mas muito esclarecido em relação ao futebol - fruto de toda a sua vivência como atleta e treinador de base - Orlando Ribeiro, de 55 anos, tem, aos poucos, implantado a sua filosofia no Santos na sua primeira oportunidade como técnico de um time principal. A novidade, porém, não assusta em nada o treinador, que, em entrevista para A Tribuna, revela que sempre se preparou à espera do atual momento e conta como tem lidado com as dificuldades encontradas nas primeiras semanas à frente do Peixe. Como foi a transição entre a carreira de jogador para a de treinador? Ser técnico sempre fez parte dos seus planos? Sou formado como jogador na base do Juventus. Cheguei no clube com 11 anos para jogar futebol e a ideia era sair com 19 ou 20 anos, porque não tive a oportunidade de chegar aos profissionais. Ao sair, fui estudar Educação Física. Quando me formei, recebi um convite para voltar a atuar profissionalmente. Enquanto estava na faculdade segui jogando futebol pelo Montenegro, de Osasco, para pagar os estudos. E foi em um dos desses jogos que os professores José de Souza Teixeira e Major Vieira me viram e me chamaram para defender o Ituano. Então, costumo dizer que até tentei sair do futebol, mas não saí. Voltei já formado e continuei como atleta profissional por mais 16 anos. Aí acho que demorei um pouco para parar. Me aposentei com 37 anos. Quando finalmente tive essa percepção, fui trabalhar em escolas franqueadas, clubes sociais, e com isso fui conhecendo todas as esferas do futebol. Trabalhei como avaliador de jogadores, depois como técnico no sub-14, sub-15, sub-17, e sub-20. Em março deste ano tive a oportunidade de vir para o Santos, no sub-20, e há duas semanas pude chegar ao profissional. A sua oportunidade como treinador do profissional demorou para chegar? Apesar do longo período nas categorias de base, a minha ideia era chegar aos profissionais mesmo. Mas sempre penso que tudo tem a sua hora e a gente precisa estar preparado. Hoje estou preparado para a oportunidade que recebi. Durante esses anos não tentei forçar nada em nenhum dos clubes em que estive, mas não fiquei sem me preparar. Esperei a minha hora. Diante de tudo isso, a ansiedade diminuiu. Deixei as coisas acontecerem naturalmente,. Em quais treinadores você se inspirava? Gosto dos atuais treinadores, mas como sou um pouco mais antigo, vou falar alguns nomes do passado, como o por exemplo o professor José de Souza Teixeira e o Cilinho, ambos falecidos. Gostava dos treinos e da organização deles. O Cilinho era muito inteligente para preparar as atividades e desenvolver as estratégias. Outro que me inspirou bastante foi o Vagner Benazzi, que sempre me ajudou. Foi um treinador que sempre trabalhou na segunda divisão, mas tinha uma determinação para colocar a equipe com coragem em campo. E isso eu tiro um pouco dele. Trabalhei com o Arthur Neto, que é muito bom estrategista. À exceção do Cilinho, são alguns treinadores não muito conhecidos do público, mas que são as minhas referências, porque foram profissionais com que trabalhei e convivi. Eu poderia falar de Guardiola e Klopp, mas não tive essa convivência. Prefiro falar de quem participou da minha formação e da carreira. Como é para você, que tem um longa carreira como treinador de base, cuidar a cabeça de um jovem como o Lucas Barbosa, por exemplo, que em janeiro era destaque na Copinha, a torcida pedia oportunidade, mas hoje, por conta de alguns jogos ruins, sofre críticas? Primeiro, ele tem que saber que está no Santos. O Santos é uma equipe que vai estar sempre brigando, que é considerada favorita em qualquer campeonato. Então, a pressão vai existir sempre. Não adianta eu falar no sub-15, sub-17 que eles vão chegar no profissional, vai ser tudo tranquilo e o torcedor vai ficar sempre sossegado. Que esse torcedor não quer saber de vitórias. Ele tem que estar preparado também para essa pressão e essas situações. Nesse último jogo nós não podíamos perder. Era uma pressão que eles (jogadores) tinham que estar acostumados a receber, porque eles estão jogando no Santos. Falando especificamente do Barbosa, temos conversado com ele sobre isso. Na minha opinião, ele tem reagido bem, tanto que entrou e foi importante no segundo gol. Ao mesmo tempo, me coloco no lugar deles. Aí entra que eu passei por esse momento também. E como é cuidar do mental de um atleta como o Madson, que não é mais um jovem, mas também sofre com as críticas da torcida? Aqui no Santos faço parte de um dos vários setores do clube. Todos mundo aqui participa da formação da equipe. Isso vai da psicologia até a nutrição. Todos os setores ajudam quem está precisando. O Madson teve algumas dificuldades contra o Palmeiras, principalmente na parte ofensiva, e a gente já vinha com o Nathan numa boa evolução nos treinamentos. Diante disso, entendemos que era a hora de darmos a oportunidade para o Nathan. Mas isso não significa que não temos que dar mais chances para o Madson. Apesar de não se tratar de um garoto, todos precisam de ajuda, de uma conversa, uma orientação, e com ele não é diferente. Se vai aparecer uma nova oportunidade, vai depender do próprio Madson. Nesse momento, além dele temos o Nathan e o Auro. Pode ser que demore um pouco mais para receber essa nova oportunidade, mas o futebol é redondo. Tudo muda rápido. [[legacy_image_211380]] Apesar de se colocar no lugar dos atletas em relação às críticas, na sua época não existiam as redes sociais. O que você pensa sobre elas e como procura orientar os jogadores sobre isso? Eu realmente tenho esse choque de gerações. Na minha época não tinha nem telefone em casa, por exemplo. Então era mais fácil. Mas eles precisam se adaptar. É o mundo em que eles vivem hoje. Como eu lido com eles, de 20 anos, eu tenho que imaginar o que está passando na cabeça deles. E não tem como retroceder. Deixar eles sem telefone, sem redes sociais, não vai ser possível. Eles precisam aprender a conviver com isso. Hoje todo mundo tem celular, então os atletas precisam saber que isso vai ser bom, desde que saibam usar. Se as redes sociais não estão favoráveis, é melhor não ver. Se está com dificuldade para se concentrar por conta do que estão falando por lá, não veja. Isso já ajuda, pois se não tiver discernimento para filtrar as coisas, as redes sociais atrapalham. Depois da vitória sobre o Athletico-PR, você comentou que uma das coisas que vinha pedindo para o Vinícius Zanocelo em campo era para que fizesse o simples. O que é o futebol simples? Sempre falo que o futebol é simples, mas é difícil. O simples é ele prestar atenção, principalmente, na organização da equipe. Eu prezo muito pelo posicionamento. Você tendo um bom posicionamento, você consegue atacar bem, e mesmo atacando, consegue defender. Mas isso requer foco, sincronismo entre eles. Na minha ideia, é muito simples você buscar um posicionamento correto dentro de campo. Se você estiver prestando atenção no seu companheiro, você vai ver, provavelmente, onde ele vai. Aí é só você, também, ter aquele posicionamento para não ficar em cima dele. Futebol é um cobertor curto. Você vai defender sua área, mas vai faltar um pouco na área adversária porque o campo é muito grande. Depois, você vai conseguir pressionar no ataque, mas vai deixar sua área exposta. Então, você tem que sempre estar bem posicionado. Não tem como jogar 90 minutos sem errar, sem tentar. Se uma equipe não está tentando fazer às vezes o mais difícil, ela não está preocupada em ganhar. Está preocupada apenas em entrar em campo e fazer o básico. O Santos é time grande. O Santos não pode se preocupar só com o básico. Tem que se preocupar em ser protagonista. Mas você com 55 anos e toda a experiência no futebol consegue ver essa simplicidade com mais facilidade do que o Zanocelo, que tem 21, concorda? Concordo! Por isso que passamos sempre vídeos. Conversamos individualmente e mostramos. Temos uma certa vivência. Então, conseguimos, com aquilo que vivenciamos, mostrar para que eles acreditem no que falamos. Porque já vivenciei aquilo e lá atrás alguém falou para mim. Então, de repente, minha função no Santos é mais para orientá-los e deixar que o potencial deles aflore. No sub-20 eu tinha um certo comportamento. No profissional, já tenho um outro. Tenho atletas formados, de seleções. No sub-20 é uma maneira de abordar e no profissional é outra. O Santos é um clube que tem a questão do DNA ofensivo. Nessas semanas, a maior parte da torcida não tem a real visão do que o Orlando pensa como jogo. Quais são suas ideias de jogo para o time do Santos? Vai ficar mais fácil se pegarem as equipes que ajudei a formar do que só falar. A primeira ideia é jogar à frente, no ataque. Eu acredito que é melhor você atacar para poder defender do que você já entrar em campo para defender e não atacar. Então, tudo que a gente pede, mesmo sendo muito arriscado, é treinado. Se é treinado, eles têm capacidade para fazer. As equipes que dirijo, que gosto de ver jogar, são as equipes que jogam para frente. Mas temos, vamos dizer, bom senso e juízo. Não vamos somente atacar. Qual foi o principal diagnóstico que fez do elenco quando chegou e o que precisou trabalhar? Primeiro, o emocional. Um time grande com dois jogos sem vitórias é difícil. Depois, nós já assistíamos a alguns jogos do Santos. Tínhamos algumas ideias, imaginávamos algumas coisas. A primeira reação, situação que tínhamos que corrigir era emocional. Dos atletas e o meu também. É a primeira vez que estamos dirigindo uma equipe profissional. Foi uma situação dupla. Ansiedade deles e minha também. [[legacy_image_211381]] Qual foi a sensação de conquistar a primeira vitória como treinador do time principal na Vila Belmiro? Nesse caso entra também a situação do Santos. A equipe estava num momento difícil em termos de resultados. Então, quando o árbitro encerrou a partida foi um alívio. Nós precisávamos dos três pontos. E essa semana a gente precisava ter um pouco mais de tranquilidade para enfrentar o Internacional. Agora vamos pensar em outras etapas. A vitória sobre o Athletico-PR também emocionou, de certa forma, o Ângelo, que comemorou a atuação, mas vinha com dificuldades para ter uma sequência ou atuar por 90 minutos, o que ocorreu diante do Furacão. O que você fez para conseguir esse rendimento dele? Foi pouca conversa. Foi mais a atitude dele. Vi ele falando que foi uma das melhores partidas que fez nos profissionais, mas ele pode ter certeza que vai render muito mais. Talvez ele não saiba ainda, não tenha a real noção do potencial que tem, mas tenho certeza que vai render muito mais. O Orlando Ribeiro tem uma formação fixa ou vai mudando o esquema de acordo com o adversário? A formação que mais me agrada é o 3-4-3. Uma saída com três, não necessariamente com um zagueiro. De maneira bem simples seria essa a resposta. Porém, podemos mudar para 4-4-2 principalmente na fase defensiva. No entanto, prefiro parar por aqui para não entregar todo o jogo e facilitar a vida dos treinadores adversários (risos). O torcedor do Santos se acostumou a ver a braçadeira de capitão com o João Paulo. O Lisca, enquanto esteve aqui, tentou fazer um rodízio. Já no jogo com o Athletico, Carlos Sánchez foi o capitão. O Santos do Orlando também terá um rodízio? Tenho vivido uma situação de cada vez. Essa, no entanto, foi resolvida entre os próprios jogadores. O João Paulo deu a ideia de o Sánchez ser o capitão, o grupo aceitou e eu não participei. O João simplesmente me comunicou. Penso que, se continuar dessa maneira, vai ser bom, porque temos outras situações para resolver que realmente vão tirar o nosso sono. O que tira o Orlando do sério no futebol? Ter medo de jogar, não arriscar. Eu não gosto que o atleta não arrisque porque eu acho que ele não vai evoluir. Para os (jogadores) que estão como opção, eu sempre estou ali orientando. Falando como tentar corrigir. Se aquele que está jogando não conseguir corrigir, vai ter oportunidade para o outro. E o outro tem que estar atento. Se eu colocar ele e ele fizer a mesma coisa, não vai adiantar nada. Eu arrisco bastante. O que me tira do sério é não arriscar. Achar que está bom. O torcedor vem ao estádio para ver um jogo bonito, para frente.