[[legacy_image_292013]] Na galeria de troféus do Memorial das Conquistas, a taça do Campeonato Paulista de 1973 talvez seja a que guarda a estória mais inusitada entre os títulos do Alvinegro. Há exatos 50 anos, a divisão do título daquele ano com a Portuguesa de Desportos entrou para a história do esporte por um fato insólito: o erro cometido por Armando Marques na contagem de pênaltis. O equívoco, segundo um dos auxiliares do árbitro, fez com que a International Board, órgão que regulamenta as regras do futebol, mudasse a norma. Depois de um empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, o que se viu na sequência é contado por alguns personagens que participaram da decisão no Morumbi, naquele 26 de agosto de 1973. “A regra na época era diferente da atual. Obrigava, independentemente do marcador, que fossem cobradas as cinco execuções (de cada time). Eu podia estar ganhando de 3 a 0, 4 a 0 e era obrigado a fazer as cinco cobranças. Isso nunca foi levantado pela imprensa nesses 50 anos por desconhecimento da regra”, afirma Emídio Marques de Mesquita, de 79 anos, um dos bandeirinhas do jogo. Ao lado do também bandeira José de Assis Aragão, ele formou o trio de arbitragem conduzido por Armando Marques. Durante as cobranças, Mesquita ficou no meio-campo, ao lado dos demais jogadores, enquanto Aragão estava na linha de fundo e Armando Marques controlava os cobradores. 'Lado errado'“Na minha opinião foi escolhido o lado (do gol) errado, porque ali estava toda a imprensa e o acesso dos túneis. Deveria ser do outro lado, pra dificultar o que aconteceu”, aponta Mesquita. Após o Santos converter duas das três cobranças e a Portuguesa perder as três primeiras, Armando teria se equivocado com a comemoração dos jogadores santistas e encerrado a decisão. O juiz esqueceu, porém, que com mais duas cobranças para cada lado, a Lusa poderia empatar o duelo. “Imediatamente quando terminou o lance (o terceiro pênalti desperdiçado pela Lusa), ele (Marques) entrou no túnel com o Aragão. Eles não me esperaram. Eu levei um tempo para ir do meio-campo até o vestiário e quando entrei, falei para o Armando que estavam faltando cobranças. E ele disse ‘não tá faltando nada!’ Ele estava convicto de que estava certo, levado pelo impulso dos jogadores do Santos, que saíram comemorando”, relata. De acordo com Mesquita, o delegado do jogo, Francisco Nunes, lhe deu razão. “Foi aí que caiu a ficha do Armando, que tinha se precipitado e finalizado antes da hora. Nesse interim foi-se buscar as equipes e a Portuguesa já não estava mais no estádio. O treinador Otto Glória tirou o time de campo, porque sabia da regra. Como iria reiniciar o jogo se o time não estivesse no estádio?”. [[legacy_image_292014]] A inusitada decisãoComo o Campeonato Brasileiro começaria três dias depois e não haveria tempo para a realização de outro jogo, a divisão do título teria sido tomada, segundo Mesquita, numa conversa nos vestiários do Morumbi entre o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), José Ermírio de Morais Filho, o superintendente da FPF, Álvaro Paes Leme, e os presidentes Vasco Faé, do Santos, e Oswaldo Teixeira Duarte, da Lusa. A insólita decisão seria evitada, frisa o ex-bandeirinha, se a regra tivesse sido cumprida. “O fator berrante do erro é porque, independente do resultado, era obrigado a cobrar os cinco tiros livres da marca penal. (A decisão) Surpreendeu, porque era um negócio inédito, não havia na história do futebol mundial um título dividido. O ineditismo desse lance foi o que levou a International Board a mudar a regra”, garante Mesquita. Apesar do erro de Armando Marques, o ex-auxiliar alivia o peso sobre o companheiro de apito, falecido em 2014, que ficou marcado pelo episódio. “Ele estava tenso no jogo, errou querendo acertar. Não houve dolo, houve um erro de um ser humano que qualquer um pode cometer”, aponta Mesquita sobre o episódio, sempre lembrado também por ser a última conquista de Pelé no Santos. [[legacy_image_292015]] "Nem nos demos conta'Segundo o ex-atacante Edu, os santistas não se deram conta do erro de Armando Marques, quando Wilsinho mandou a terceira cobrança da Portuguesa no travessão (as duas primeiras, de Isidoro e Calegari, haviam sido defendidas por Cejas) e o árbitro encerrou a decisão. Zé Carlos havia perdido a primeira cobrança e Carlos Alberto Torres e o próprio Edu converteram pelo Santos. “O Cejas saiu comemorando (após a cobrança de Wilsinho no travessão), mas faltavam mais duas penalidades pra cada, né? Na hora a gente tá eufórico, nós ficamos comemorando e nem nos demos conta. O Armando não podia errar nunca essa contagem.”, diz o ex-ponta-esquerda. Apesar disso, Edu duvida que a Lusa chegasse à igualdade se as cobranças fossem adiante. “Dificilmente eles iriam conseguir (empatar), porque faltava, não lembro se era o Léo ou o Brecha. E o último era o Pelé, então tava tudo pra nós (risos)”. Recordando a saída às pressas da delegação lusitana do Morumbi, Edu discordou da taça dividida. “A Portuguesa saiu rapidinho, não foi nem pro vestiário. Já foram pro ônibus e foram embora. O Otto Glória era treinador deles, superexperiente, o primeiro título que eles tiveram (risos). Nós ficamos comemorando porque fomos campeões, né? Nós estávamos em campo, não fugimos (risos)”, brinca. Antes da divisão da conquista de 1973, a Lusa, na verdade, também havia sido campeã paulista em 1935 e 1936, pela Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea). Nos mesmos anos, Santos e Palestra Itália (atual Palmeiras) foram os campeões pela Liga Paulista de Futebol (LPF). [[legacy_image_292016]] 'Esqueceu a tabuada'Para o ex-atacante Basílio, da Lusa, Armando Marques “esqueceu a tabuada e a matemática”. O jogo, porém, poderia ter sido definido com bola rolando. “Tivemos dois gols anulados, um estava impedido, o outro não. Ele (Armando Marques) arrumou impedimento não sei onde. Depois ficou por conta da contabilidade dele, que esqueceu a tabuada”, ironiza. Basílio confirma que quando os jogadores santistas comemoraram o terceiro pênalti desperdiçado pela Portuguesa, o juiz encerrou a final. “Quando ele (Marques) deu por encerrado, eu vi o Pelé comemorando. O Santos tinha vantagem, mas faltavam mais dois”. O ex-atacante também relembrou a estratégia do técnico da Lusa. “O Otto Glória, malandro, retirou o time mais rápido junto com os diretores. Eles saíram do campo, foram direto pro ônibus. Eu fui um dos últimos a sair, tava cumprimentando o pessoal do Santos, falando com o Brecha. Nisso um diretor da Portuguesa me disse ‘vamos embora!’” Segundo Basílio, ele foi em direção ao vestiário, mas o diretor o chamou para o ônibus. “Quando olho pra trás, o Armando Marcos chegava dizendo ‘Volta, volta”. Só que eu não tinha chuteira, não tinha meia, não tinha camisa, só estava de calção. O diretor falou pra gente ir embora, que era erro de direito e nós poderíamos reivindicar. Aí fui pro ônibus”. Sobre a ‘provocação’ de Edu, do Santos ser o campeão de fato, Basílio retrucou. “Acho que o Edu tá certo quando fala desse negócio de divisão, mas manda ele procurar na Federação Paulista. Querendo ou não, pode ir na Federação que vocês vão ver que está lá (risos). A gente vai fazer o quê? Quem manda no futebol são eles”, disse Basílio, que seria campeão com o santista no Corinthians, em 1977.