[[legacy_image_337544]] Um dos 14 reforços para a temporada, o volante João Schmidt se tornou, em pouco tempo, um dos 11 titulares do Santos, deixando o ex-capitão Tomás Rincón na reserva. À vontade, ele ganhou elogios até de Neymar, quando o craque esteve na Vila Belmiro assistindo ao clássico contra o Corinthians. Feliz, o volante, em entrevista exclusiva para A Tribuna, não se deixa enganar porque sabe que a principal meta está por vir: a volta à Série A. Você ficou quase sete anos jogando no exterior. Quais as principais diferenças que sentiu na volta ao futebol brasileiro? Tem algumas diferenças, acho que o Brasil cresceu bastante na parte tática. Acho que os treinadores, o futebol se preocupa mais com isso do que quando eu estava aqui. Eu senti um pouco a diferença dos campos, talvez pelo calor também, principalmente nesse Campeonato Paulista, mesmo que molhem os campos, seca rápido. Eu estava acostumado com o gramado bem molhado. Eu acho que na parte de calor de torcida, isso é um fator único aqui no Brasil. Claro que tem grandes clubes no mundo, na Europa, que o calor da torcida é muito grande também, mas o Brasil tem um negócio diferente, acho que quando o torcedor vai no estádio, a maneira que apoia, o fanatismo no Brasil é bem grande. Isso é algo que eu sentia falta. Você falou em gramados. No Japão você jogava mais na grama ou no gramado sintético? Era grama, lá não tem gramado sintético. Se você perguntar pra 95% dos jogadores, se não for 100%, todos vão falar que preferem a grama natural. Eu acho que essa é uma discussão que nem tinha que existir. Acho que a gente está um pouco atrasado nessa questão de discutir se a grama sintética é boa ou não. Tem alguma coisa que você ainda sente dificuldade nessa readaptação no futebol do Brasil? Todo lugar tem as suas peculiaridades. Acho que no Brasil muito se fala, principalmente quem vem de fora, ou o europeu analisando, que o futebol brasileiro é lento. Quando você está aqui, vê que não é desse jeito. Tem as dificuldades, é muito difícil o campeonato no Brasil, tanto regional como o Campeonato Brasileiro. Acho que os fatores campo, os fatores climáticos e o calendário ajudam o jogo a ser mais lento, porque como se joga muito no Brasil, é difícil o jogador sempre estar descansado pra jogar. Os campos do Brasil podiam ser melhores e isso favorece muito ao jogo não ser tão dinâmico, tão intenso. Na Europa é mais frio, o desgaste é menor, os campos são melhores, isso tudo acaba favorecendo. Você chegou quando o clube ainda vivia o peso da queda à Série B. Como foi a transformação desse ambiente após o bom início no Paulistão? Antes de vir pro Santos, a gente cria uma imagem na cabeça de como seria o cenário, como estaria o clube. E quando eu cheguei, não foi o que eu pensava. Acho que todo mundo estava motivado, feliz de estar no Santos. Como teve uma reformulação grande, não tinha muita gente que estava no ano passado. Então, por mais que esteja na segunda divisão, aquele sentimento do jogador que passou por aquele processo tinha pouco, acho que isso ajudou. Por mais que seja um pouco difícil, porque não tem muito entrosamento, ninguém se conhece, acho que foi um fator positivo também, porque chegou todo mundo motivado. Eu cheguei, claro que a gente queria isso na primeira divisão, mas foi um sentimento de estar no Santos, num grande clube. Bastaram nove jogos para o torcedor considerá-lo um dos titulares absolutos do time, numa posição que foi do Rincón, jogador muito respeitado pela torcida e capitão do time em 2023. Você achava que poderia cair tão cedo nas graças do torcedor? Vou ser sincero, a gente não se programa tanto assim, sabe? Eu recebi o convite do Santos, fiquei feliz e resolvi vir. Eu sabia que o Rincón era o capitão, que era importante aqui, que talvez eu ia ter que esperar a minha oportunidade pra entrar no time. E aconteceu que ele tinha se lesionado e aconteceu de eu começar jogando. Aí fui fazendo meu trabalho, é claro que o resultado do time ajuda muito, quando o time está ganhando aparece o individual. Acho que isso passa muito pelo momento do time. Acho que no futebol isso de titular absoluto não existe, a gente tem que provar a todo instante para estar sempre jogando. Viralizou aquele momento do jogo contra o Corinthians em que o Neymar elogia a sua atuação. Como você encarou um elogio vindo de um craque como o Neymar? Claro que eu fiquei muito feliz, isso não dá pra negar. Principalmente de um jogador como o Neymar, que faz uns anos é o principal jogador do nosso país. É um ídolo pra todo jogador, é um ídolo pra todo brasileiro, acredito. Eu fiquei muito feliz, só que eu sei que também não passa de um elogio, a gente tem que focar no trabalho, não pode deixar isso afetar o rendimento. Fico feliz, mas eu sei que tenho que manter os pés no chão, continuar fazendo o meu trabalho pra ajudar o Santos. A passagem do Neymar pela Vila naquele dia foi rápida, mas deu para trocar uma ideia com ele no vestiário? Ah, na verdade um papo não muito, né? Acaba que todo mundo quer dar uma tietada. A gente fica até um pouco com dó, porque ele não pode passar em nenhum lugar que todo mundo quer tirar foto. A gente se cumprimentou, ele deu parabéns pelo jogo, tirou uma foto, mas também não quis incomodar muito, porque não não deve ser fácil, ele não deve ter muitos minutos de paz. [[legacy_image_337545]] Quando você decidiu deixar o Japão, teve propostas de outros clubes. O que te fez escolher o Santos? Eu tive outras propostas, mas fique contente pelo interesse do Santos, porque me mostrou que eles queriam que eu viesse de verdade. A gente tem que saber fazer escolha onde você acha que pode ser importante. E é um clube gigante. Eu sou de São Paulo, tava muitos anos fora do país, seria importante isso, a minha família toda perto, então não tive muito o que pensar. Eu sabia que o Santos na Série B, talvez o momento mais difícil da história, mas também encarei como uma oportunidade. Uma oportunidade de ser mais um no grupo, que com certeza a gente possa voltar pra Série A. Quantos anos você jogou no São Paulo? Teve algum sentimento diferente ao enfrentar o seu ex-time naquele clássico no MorumBis (vitória por 1 a 0, no dia 14 de fevereiro)? Comecei com 12 anos e saí com 24. Claro que foi, querendo ou não bate uma nostalgia, eu vivi muitos anos naquele clube, né? Eu sou muito grato ao São Paulo por tudo que fez na minha vida e ter voltado ao Morumbi depois de anos jogando pelo Santos, sendo rival, é um sentimento diferente, mas é um sentimento gostoso também, passa muita coisa na cabeça. E ainda mais que a gente conseguiu uma vitória lá, uma importante vitória, foi muito bom. Santos não é uma cidade muito grande. Como tem sido o contato com os torcedores no dia a dia e a adaptação da sua família? A gente está gostando bastante de Santos. Por mais que eu seja de São Paulo, a gente não vinha tanto pra Santos pra passear, conhecia pouco. Estou gostando, é uma cidade muito gostosa. Confesso que ainda não deu pra conhecer muita coisa pela sequência de jogos, mas estou gostando bastante. Você tem duas filhas. Elas nasceram no Japão? Depois de cinco anos por lá, deu para aprender a língua japonesa? Uma nasceu em Portugal e outra no Japão. Eu aprendi o básico pra se comunicar dentro de campo ou às vezes pra ir num restaurante, pedir algumas coisas, Eu sei bem o básico, confesso, não consigo ter uma conversa longa não, mas pra me virar eu consigo. Voltando ao campo, o Santos é o único time classificado às quartas de final e a campanha tem empolgado o torcedor. E no elenco, qual é o espírito dentro do grupo em relação às chances de título no Paulistão? É claro que dá uma tranquilidade a mais saber que a gente está classificado, mas a gente vai subindo o sarrafo também. A gente sabe que pode alcançar a liderança total do campeonato, pra classificar em primeiro e isso é muito importante. Decidir em casa nas quartas e nas semifinais, isso é muito importante. O Carille já disse que Palmeiras e São Paulo estão à frente, por terem trabalhos consolidados. Dá pra tirar a diferença desses dois times até a semifinal, que é quando o Santos pode enfrentá-los? Acho que dá, futebol não dá pra prever muita coisa. Claro que a gente sabe que São Paulo e Palmeiras estão na frente principalmente pelo tempo de trabalho, por jogadores estarem mais tempo jogando juntos. A gente sabe muito da nossa realidade, mas tivemos três clássicos e ganhamos dois. A gente precisa competir, ir firme etapa por etapa pra ir chegando nas finais. O Carille tem dito que pode perder jogadores no meio do ano, na abertura da janela de transferências, e citou o seu nome. Houve alguma sondagem ou proposta? Às vezes eu ouço falar isso, mas é tudo muito recente, faz um mês e meio que estou no Santos e sinceramente não pensei nada disso ainda. Não recebi nenhuma proposta e meu foco é o Santos. Não tenho pensado nada fora disso, estou gostando muito do clube, gosto da cidade, estou feliz aqui. Se for pra ficar no clube por muitos anos, eu estaria muito feliz. É claro que no futebol muda tudo muito rápido, mas não recebi nenhuma proposta e na minha cabeça nem passa nada fora do Santos. Apesar da disputa do Paulistão, o objetivo do ano, claro, é a Série B, quando o time disputará com a obrigação de subir de novo à Série A. Essa obrigação pode ser um fardo para o time? É etapa por etapa. A gente sabe que a prioridade é a Série B, mas o calendário nos dá tranquilidade em saber que a gente consegue focar primeiramente só no Paulista. Depois a gente coloca toda atenção na Série B. É uma responsabilidade, só que que todo mundo que veio pra cá esse ano sabia disso. A gente sabia que a responsabilidade é subir ou faz uma limpa de novo em todos os jogadores. A gente sabe que pode colocar nosso nome na história do Santos, com a oportunidade de fazer um grande ano, ou, no futuro, se não cumprir com essa responsabilidade, a gente não sabe onde pode estar. Acredito que não seja um fardo, é só uma responsabilidade, mas que a gente está preparado pra isso