[[legacy_image_325808]] Acusado, por meio de cartas com denúncias de assédio moral e sexual, o ex-treinador das Sereias da Vila, Kleiton Lima, resolveu falar. Com exclusividade para A Tribuna, ele rebateu as acusações que acabaram culminando com a saída dele do clube, em setembro do ano passado. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Morando em Itanhaém, o treinador diz que as portas do futebol se fecharam para ele, enquanto alega ter sido acusado sem provas, no que ele chama de “orquestração” de um grupo de jogadoras. No entanto, ele não soube apontar, nominalmente, quais atletas queriam sua saída do Peixe. Entre as queixas colocadas nas cartas, escritas à mão e de forma anônima, as jogadoras alegam situações de assédio moral e assédio sexual, como, por exemplo, "toques indevidos". Foi proposta, de acordo com a defesa de Lima, “a instauração de inquérito policial para investigação dos fatos. Em referido inquérito policial instaurado pelo meu cliente, testemunhas já foram ouvidas entre elas: o coordenador Geral de Futebol do Santos F.C., Alexandre Gallo, que afirmou em sede policial que a supostas denúncias através das cartas anônimas não procedem. Além dele, também depuseram a então coordenadora de Futebol Feminino, Aline Xavier, e algumas atletas”. A principal queixa de Lima recai a Luciana Ortega, jogadora do Santos que teria assumido, segundo o técnico, a autoria de uma das cartas. Nela, relataria uma situação de assédio sexual, onde o treinador teria olhado para suas nádegas de forma lasciva. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informa que “o caso foi investigado e relatado por meio de inquérito policial pelo 2º DP de Santos, e encaminhado ao fórum nesta terça-feira (9) para análise do Poder Judiciário, não tendo retornado até o momento. O laudo referente a grafia da vítima não foi conclusivo”. Também confirma que não há nenhum boletim de ocorrência contra o treinador. Procurado, o Santos afirma, em nota, que o caso, por ter ocorrido no ano passado, ainda durante a gestão do presidente Andres Rueda, será devidamente analisado pela atual direção do clube, podendo gerar uma futura manifestação. A defesa da atleta afirma que “(...) reafirmamos nosso respeito pelo processo legal e confiamos que a verdade prevalecerá. Ela nega a autoria de qualquer carta, logo, não há qualquer BO contra ele”. Confira trechos da entrevista com Kleiton Lima sobre as acusações: As causas “Fui alvo de uma conspiração, onde parte do grupo, insatisfeito com o meu trabalho, escreveu cartas anônimas, com falsas narrativas e, de alguma forma, vazaram propositalmente, de dentro do Santos para a imprensa. Com certeza para eu perder meu emprego, manchar minha carreira vitoriosa de muitas conquistas, tudo de forma covarde e asquerosa, afetando minha imagem e reputação. (...) Depois dessas cartas, que forma divulgadas pela imprensa, nunca teve nenhuma acusação na polícia contra mim. Não há nenhum BO. Porque, se houvesse, teriam que provar essas narrativas. Como as narrativas são falsas, elas não fizeram nenhuma denúncia na esfera da lei. Pelo contrário, fui eu quem abri inquérito policial, para descobrir quem escreveu as cartas e poder me defender. Elas se esconderam atrás do anonimato, e eu tentando buscar quem são as supostas autoras, para provar que é tudo mentira. Se eu tivesse alguma coisa que pudesse me cumprimentar, fugiria da justiça e das leis”. Mudanças no clube Mudamos a preparação física (de 2022 para 2023), num cenário com muito mais exigência. Para alguns atletas, treinos complementares. Teve uma mudança de horário no treino. Além daquilo: quando cheguei em 2022, o elenco já estava montado. Quando vou para 2023, faço algumas trocas de atletas. E, quando faz isso, e alguns atletas vêm dos que você escolheu, existe a expectativa por um avanço. Esse tipo de exigência, dizia que tínhamos que desbancar os grandes favoritos. Foi essa a exigência no treino, de acerto... Algumas jogadoras perderam posição porque não conseguiam atingir o que eu pedia, e ficavam bronqueadas”. As cartas “Essas cartas, a princípio, tinham sido escritas para a diretoria, de forma anônima. Elas foram juntadas, e foram encaminhadas para a Aline (Xavier, coordenadora) e nominada ao presidente Andres Rueda. Na hierarquia, ela era abaixo do Gallo (Alexandre Gallo, coordenador de futebol profissional). A Aline fez uma reunião com as meninas, questionando essas alegações, essas narrativas. Ela estava presente em todos os treinos. Foi minha atleta, sabe meu jeito de trabalhar. Sabe minha exigência, meus protocolos de treino. Quando chegaram essas cartas pra ela, ela teve uma reunião com as meninas, falando que essas cartas não condiziam com aquilo que ela estava vendo. Elas viram que nada ia acontecer, e então pediram uma reunião com o presidente. Mas o presidente passou pro Gallo resolver. Ele as ouviu e, também conhecendo meu caráter e meu trabalho, foi desconstruindo as narrativas, dizendo que tudo que estava sendo falado por elas eram de cargas normais, para atingir metas no futebol. (...) Por exemplo: falar que a menina está acima do peso, cobrar um treino a parte, um percentual pra que atingisse no percentual físico. E aí, ele endossou meu trabalho. Ele me falou: “Kleiton, segue o trabalho”. Nessa reunião, foi dito que a carta tinha um teor criminal. Eles perguntaram “quem escreveu essa carta, porque ela é grave, tem acusação sexual” E aí, a Ortega disse que foi ela que escreveu, porque se sentiu assim. Assumiu diante deles. Elas tinham pedido pro Gallo que queriam apenas a minha saída. Mas a diretoria achou, por bem, demitir todo mundo. Queriam minha cabeça”. A saída do clube “Quando fiquei sabendo tudo o que aconteceu, a diretoria do Santos me chamou. A princípio, era a minha manutenção, não ia acontecer nada. O Gallo mesmo, na reunião diante das atletas, ele expos que as cobranças eram normais, naturais do futebol. Mas com a situação delas, ou alguém de dentro do clube, deixando vazar, aí ficou insustentável. Não tinha ambiente nenhum. Eles conversaram comigo, “é melhor você pôr o cargo à disposição”, e foi isso que aconteceu. Não tinha mais ambiente com elas nem sabia quem tinha escrito as cartas. E aí, eles me demitiram”. Relação com a atleta “Ela é uma atleta que eu quem indiquei para contratação. É uma jovem, canhota, alta, zagueira, de um perfil diferente do futebol brasileiro, com qualidade técnica razoável. Até porque ela servia tanto parao profissional e tinha idade para o sub-20, passamos esse nome pra diretoria, e ela acabou vindo. É de família panamenha, e eu acreditava que poderia ser uma atleta jovem que despontaria aqui. Só que, assim que chegou, foi morar na Vila Belmiro. Mas ela deu uma deslumbrada. Perdeu o foco. Eu e a Aline tínhamos algumas reclamações dela, sobre comportamento, fazendo lives dentro do alojamento 23 horas, meia noite, com uniforme do Santos. Chamamos a atenção dela por conta de comportamento, e com toda delicadeza, falei isso pra ela. Não melhorou no aspecto técnico, pelo contrário e fisicamente foi piorando, ganhou percentual de gordura (...) Tive uma conversa com o pai dela, que veio ao Brasil, com ela e o preparador físico, para expor a situação, falando que era uma atleta que eu tinha expectativa, mas que estava desfocada. Depois dessa reunião, não houve melhora. Então, a colocamos apenas no sub-20. Ela treinava com o profissional e descia pra jogar no sub-20, para ver se melhorava a condição. Houve um distanciamento na relação, e, quando veio essas narrativas, dessas cartas apócrifas, que surpreende porque ela assume essa carta, dizendo essa coisa do pastel. A história do pastel “Estávamos (diretoria e comissão técnica) em reunião no terceiro andar da Vila Belmiro. Era uma quinta-feira, em março de 2023. Tem uma feira na esquina da Vila (Rua Pedro Alvares Cabral), e, bem na esquina da Vila, fica uma barraca de pastel. Nesse dia, acabou a reunião, e era aniversário da Aline Xavier. Ela convida a gente para descer lá, já que estava perto do horário do treino, para comer um pastel com ela na feira, tomar uma garapa e irem todos para o CT. Fui junto com toda a Comissão Técnica, saímos do elevador e fomos caminhando. Quando chegamos à feira, ela estava presente. Não me lembro quem mais estava, se havia outras atletas, ou atletas do masculino, porque ela tinha muita relação com os meninos da base. Lembro que, na conversa, chegando próximo à barraca, eu a vi e foi conversado entre nós da comissão: “Pô, a Ortega tá aqui comendo pastel, cara! Ela não poderia estar comendo pastel. Ela está fazendo treinamento especial para perder peso”. Mas eu não me dirigi a ela. Não iria a uma feira me dirigir como treinador a ela. Alguém falou algo pra ela, e disse que fui eu. Ela se levanta da feira e, quando saiu andando, olhei pra ela- não só eu, mas todo mundo, com uma cara de “não era para ela estar ali”. Todo mundo deu uma olhada de repreensão, normal, de profissionais que estão cuidando do estado físico dela. E a narrativa diz que esse olhar foi direcionado pra bunda dela e, por conta disso, se sentiu assediada sexualmente. Contusão proposital “Eu sou um treinador que sempre quer contar com todas as atletas à disposição. Qualquer treinador é assim. Algumas situações de atletas que não tinham nenhuma lesão grave, que a gente tinha relatos q de que não eram lesões comprometedoras, eu falava, chegava na atleta “Não dá pra você treinar? Tem jogo importante, ‘vamo pra cima’, precisamos de você”; Algumas vezes, fiz uma certa investida em alguma atleta, pedindo para que, se tivesse condições de treino, treinar. Foi só isso. Nunca falei que atleta se machucava propositalmente para ficar no DM. Isso eu nunca falei”. Toques inadequados “(...) É uma narrativa absurda. Nunca fiz nada, a minha vida inteira. Mas, o que são toques indevidos? Parece que são toques maliciosos. Quando ela escreve essa narrativa, induz a pessoa a pensar isso. Nunca fiz nenhum troque desse feitio em nenhuma atleta, pelo contrário. Agora, sempre teve uma situação de abraço no vestiário, mas naquele sentido. É cosia do futebol, normal. E não era só eu, mas todo mundo. Você tem, antes de subir pro campo, acaba, na hora do grito de guerra, todo mundo se abraça, dá um chacoalho “vamos pra cima, vamos jogar”. Sempre motivei, sempre fiz isso a minha vida inteira. Nunca tive nenhum momento em que fiquei sozinho com alguma delas. Sempre que tinha alguma cosia, eu colocava um preparador físico, um analista de desempenho, a própria Xavi (Aline Xavier). Se havia uma reunião em que precisava conversar com alguma atleta de forma mais direta, chamava a Xavi junto”. Roupas inadequadas, mostrando genitais ou sem cueca “Eu usava a roupa do clube. Primeiro: a gente é obrigado, assina o contrato e tem essas obrigações formais para atender. Todos os treinos, a roupa era mesma, o uniforme era o mesmo para mim e para todos. Eu sou uma pessoa que, pelo contrário, às vezes estava um sol violento e eu não costumava dar treino de bermuda. Eu, em 90% dos treinos, mesmo em dias de extremo calor, usava calça. Além do mais, usava os bolsos da minha calça para deixar o caderninho tático, de posições, que uso particular, o apito no outro. Se você vir no Flickr do Santos, todo dia tinha fotos. (...) Roupa inadequada? É a roupa do clube. Sou um cara de 1m72, não tenho nenhum órgão avantajado. É normal. Se pôr qualquer roupa, por ser uma pessoa de porte mediano. Conheço o ambiente do futebol feminino. Respeito elas como elas são, da maneira que se vestem. Tem umas que usam top, outras não... Nunca desrespeitei ninguém. E nunca levei para esse lado”. As suspeitas “Não consigo (definir quem foi). Até porque minha relação com grande parte do elenco, 95%, era bem suave. Por isso que me assustou. A única coisa que posso me apegar é que, realmente, estavam muito tempo sem resultados, e houve uma mudança de protocolo, com muita exigência, muita cobrança, dentro de um lado muito profissional que eu sempre fui”.