[[legacy_image_234273]] Para uma entrevista rara com Pelé, nada melhor do que uma data com a mesma proporção. Era 29 de fevereiro, algo que acontece a cada quatro anos, de 2012. Por aproximadamente uma hora, os jornalistas de A Tribuna Anderson Firmino e Ted Sartori conversaram com o Rei do Futebol no escritório da empresa dele, no Centro de Santos. Trechos da entrevista foram incluídos em edição comemorativa do centenário do Santos, em 14 de abril daquele ano, publicada em revista lançada por A Tribuna. A majestade estava descontraída, algo que era comum. Leia abaixo a íntegra da entrevista dada pelo maior jogador de todos os tempos. (veja vídeo mais abaixo) Como foi seu primeiro dia em Santos? Viajamos de trem de Bauru até São Paulo. Chegando em São Paulo, o Valdemar de Brito (ex-jogador, na época) me trouxe para Santos. Desci na Estação da Luz, em São Paulo, e vim para o Gonzaga, que era a última parada do ônibus, onde o pessoal do Santos me pegaria. Lembro-me que aprendi na escola que a água do mar era salgada. Quando estávamos esperando o carro do Santos, onde tem o bonde exposto, eu desci, disfarcei e disse ao meu pai: 'Pai, vou beber água'. Vi o mar, meti a mão na água e pus na boca para ver se era salgada mesmo. Ninguém sabia quem eu era mesmo. Voltei, chegou o carro do Santos e fui para a Vila com o meu pai. Foi o dia em que eu tirei minha primeira fotografia. E daí também nasce uma história que só Deus pode explicar. No dia em que eu cheguei e que o Valdemar de Brito ia me apresentar, o Santos estava treinando, enquanto eu tinha vindo para fazer experiência no infantil ou no juvenil. Trouxeram a camisa preta e branca. O Valdemar de Brito me pediu para tirar a que eu vestia. Coloquei a camisa por cima da calça branca, encostei no alambrado e foi feita a foto. Nem conhecia o pessoal. Depois veio o Lula (técnico do Santos). Dezoito anos depois, minha despedida do Santos foi no jogo contra a Ponte Preta (em 1974, na Vila Belmiro) e com a camisa preta e branca. Ninguém tinha sacado isso. Saquei pela foto. A propósito, de qual você gosta mais: da branca ou da listrada? Gosto mais da branca. Eu me sentia melhor, mais confiante e era mais bonito ver o Santos com a branca. Nem nós jogadores sabíamos que a listrada era a número 1 naquela época. Para nós era a número 2. E a quantidade de camisas não era a mesma de hoje... Se a gente trocasse a camisa com um jogador ou desse para o torcedor, tínhamos que pagar. Para uma viagem de 15, 20 dias, havia dois jogos de camisas. Como as coisas mudam. Às vezes eu saía correndo de campo assim que acabava o jogo. Afinal, se me tiram a camisa eu tinha que pagar (risos). Agora o cara marca um golzinho, faz um coração, fala 'mamãe' e aparece para o mundo inteiro. Você acha que o momento da sua chegada foi propício? O time estava se formando com uma juventude, um pouco mais velha que você, e tinha sido campeão em 1955. Aí tem a mão de Deus. É coisa que não dá para a gente explicar. Na época, eu me lembro que o Valdemar de Brito, que era o treinador do Bauru Atlético Clube, tinha trabalhado com o meu pai, que jogou no BAC, e eram amigos. E o Valdemar tinha amizade com o deputado Athié Jorge Coury. Aí falou com o meu pai: 'Vou levar o Pelé para treinar no Santos porque o time está dando oportunidade para garotos'. Nesse mesmo tempo, o Bangu começou a fazer um bom time, foi ao Interior fazer alguns jogos e levou alguns jogadores do Baquinho. Aí o Valdemar de Brito disse: 'O Pelezinho vai treinar no Santos porque o Athié é meu amigo'. Foi a mão de Deus mesmo que indicou o Santos, que estava começando a fazer uma estrutura boa, tinha sido campeão em 1955 e seria em 1956, com vários jogadores novos tendo oportunidade. O Santos, então, começou a se estabelecer e fazer frente ao Trio de Ferro (São Paulo, Corinthians e Palmeiras). Como você vê o seu papel para transformar o Santos em um time grande, com títulos e crescimento de torcida? Aí já foram com as vitórias. E aconteceu também um fato importantíssimo para o Santos. Quando teve o combinado Santos-Vasco, que foi jogar um torneio no Rio de Janeiro (em 1957), pouca gente fora de São Paulo conhecia o Santos. O fato de eu ter ido, assim como outros jogadores, fez com que muitos perguntassem: 'Quem é esse Pelezinho?' E muita gente confundia Pelé com Telê porque, naquela época, o Telê jogava no Fluminense. Eu ainda brincava: 'O Telê é o loirinho, o Pelé é o crioulo'. Todo mundo me chamava de Telê. Aí todo mundo ficou sabendo do Pelé depois daquele torneio e que nós éramos do Santos. Por coincidência, no mesmo mês (julho), o Silvio Pirillo formou a Seleção Brasileira e disse que ia levar vários garotos para a disputa da Copa Roca diante da Argentina. E me levou. Aí ficou Pelezinho do Santos, Pelé do Santos, para todo o Brasil. Pouca gente notou da importância de tudo isso, ocorrido em apenas seis meses. Você tinha a noção exata do seu papel para construir essa dimensão mundial do Santos? Do Santos, não. Na época, eu apenas queria ser igual ao meu pai, o Dondinho, que foi um grande jogador no Interior de São Paulo. Mas comecei a perceber nas viagens que, em todo lugar que a gente ia, ninguém sabia direito onde era o Brasil. Aí perguntavam para a gente. Comecei a tomar conhecimento do papel que o Santos estava fazendo para o País. Muitas vezes, repórteres na Europa achavam que o Brasil era a Argentina e a capital, Buenos Aires. Aí dizíamos que não tinha nada a ver. Ficava orgulhoso em dizer que era brasileiro. As excursões, muitas vezes longas, tiveram este papel, não? Fazíamos um jogo atrás do outro. Eram uns 100, 110 por ano por causa desses amistosos. Agora, jogam 70 e dizem que estão cansados. E as viagens eram bem mais desgastantes: aviões, chuteiras e todo o material esportivo eram bem mais complicados. O Santos é o time mais conhecido do Brasil fora do País. Essas viagens serviam para pagar os salários. Onde o time chegava, lotava. E havia uma cota com Pelé e outra sem. Era uma diferença de quase 50%. Como a camisa 10 caiu na sua mão? Se começar a fazer uma pesquisa na vida do Pelé, vai ter que conversar com Deus para saber de tudo (risos). Eu jogava no Baquinho com a número 8 pelo lado direito e do lado esquerdo jogava o 10, que era o Tiãozinho, muito parecido comigo. Nós éramos muito parecidos mesmo. Quando eu cheguei no Santos e comecei a treinar, não sei por qual razão eu comecei a treinar com a 10. Ainda era juvenil, infantil e entrou a 10. Mas, na Seleção Brasileira, veio a 10. E na Copa do Mundo também saiu o mesmo número. Coisas de sorteios que aconteceram, nada de especial. Não tem uma razão. A 10 passou a ser importante depois do Pelé. Todo mundo começou a querer esse número, mas com o tempo começou a ser um problema e a maioria não queria jogar com a 10. Como era jogar contra o Corinthians? Tinha um gosto especial? A semana era diferente? Todos os grandes jogos são diferentes dos jogos normais. Falei do Tiãozinho, o número 10 do Baquinho. Quando fizemos um jogo em São Paulo, na Rua Javari, do BAC, que era o campeão juvenil do Interior, contra o campeão juvenil de São Paulo, o Tiãozinho jogava com a 10. O Tiãozinho, segundo o meu tio e o pessoal de lá, foi treinar no Corinthians depois desse jogo, mas não ficou. O pessoal do Corinthians achava que era o Pelé. Então todo mundo dizia que eu tinha raiva do Corinthians porque tinha sido mandado embora do clube. E não tinha sido eu. Tinha sido o 10 do BAC, que era o Tiãozinho. E você ainda estreou no Santos contra o Corinthians, mas o de Santo André, já extinto, e fez gol... E teve uma outra coisa: o time de botão que eu tinha em Bauru era do Corinthians. Minha tia Maria, irmã do meu pai, era enfermeira e trabalhava em São Paulo. Quando ela ia até Bauru, sempre levava brinquedos. Numa dessas vezes, ela levou um jogo de botão do Palmeiras e um do Corinthians, com botões de plástico bonitos, goleiro, redinha e duas caixinhas. Meu irmão Zoca gostava do Palmeiras e já pegou. Então eu jogava com o do Corinthians. Por sinal, o Zoca sempre foi melhor que eu no botão. Eu ficava louco que não conseguia ganhar dele. No campo, o Santos passou essa fase de ganhar do Corinthians. Foi o time que eu marquei mais gols (50). Para mim, jogar contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo, não importava quem era: o negócio era meter gol e ganhar. Qual você considera o título ou o momento mais marcante, se é que existe um só? São vários importantes. É difícil falar de um, mas o que ganhamos contra o Benfica foi importantíssimo para mim. Foi minha melhor atuação. O estádio estava lotado. Outro jogo importantíssimo internacional foi quando ganhamos do Boca (Juniors), na Bombonera (em Buenos Aires). Até hoje é complicado. Foi a primeira vez que eu vi: o estádio parecia um túmulo quando fizemos o segundo gol e, quando acabou o jogo, estava um silêncio, o maior que eu vi. Lembro-me que, quando eu fiz o gol, eu comecei a pular. Geralmente, alguém batia palmas quando eu fazia gol em qualquer lugar, mas lá ninguém fez nada. Só os jogadores vinham pular em mim. Um silêncio. Falei: 'Caramba, não tem nenhum torcedor do Santos aqui!' (risos). Também foi importante quando paramos a guerra na África. E foi o Santos, não a Seleção Brasileira. E, por causa do Pelé, eles pararam a guerra, fomos, jogamos, saímos, infelizmente depois continuou. Como foi o seu dia da despedida do Santos contra a Ponte Preta? No dia da minha despedida e os que antecederam, eu já estava muito preparado. É o que dizia meu pai: 'Olha, é melhor você parar bem, no máximo da sua carreira do que você parar quando estiver mal'. Como eu tinha sido artilheiro e o Santos campeão (paulista de 1973), achei que o ano seguinte seria o de parar. Não foi difícil justamente porque eu estava preparado. Uma coisa engraçada: o milésimo gol me deu mais ansiedade nas vésperas do que nas despedidas. É mesmo? Jogamos duas partidas, uma na Paraíba e outra na Bahia. Na Paraíba, machucou o goleiro e eu fui para a meta. Aí os caras falavam que foi armação e não sei mais o quê. Para mim, eu faria o gol em qualquer lugar, mas não fiz. Da Paraíba fomos para a Bahia. E em todo lugar em que a gente ia, falavam que ia sair o milésimo gol. E isso foi me deixando mais ansioso e mais nervoso. E eu com medo, mas ia sair um dia. O mais engraçado foi o que aconteceu na Bahia. Nunca vi isso na minha vida. Tabelei, passei pelo beque, mais ou menos no bico da área, já dentro da área, pelo lado direito, o goleiro saiu, passei por ele, o beque veio e salvou o gol. Levou a maior vaia da torcida. Nunca vi isso na minha vida. Ia ser a maior festa. Até fiquei meio confuso: o torcedor tinha dado bronca nele porque não tinha saído o milésimo gol na Bahia. É só no Brasil mesmo. Aí fomos para o Rio enfrentar o Vasco, no Maracanã. Era a mesma coisa do ‘será que sai?’. E saiu, de pênalti. Foram uns 15 dias de ansiedade, mas na despedida estava bem seguro. Eu sofri depois que eu parei. Nos primeiros seis meses, ia direto no Santos. Minha sorte é que fui para o Cosmos e continuei um pouco. Deu para ir quebrando isso. O jornalista Armando Nogueira, inclusive, disse que foi bom o milésimo gol ter sido de pênalti porque todo mundo parou e viu...Isso surgiu porque eu mesmo disse: foi bonito, mas lamentei um pouco que tivesse sido o milésimo gol de pênalti. Poderia ter sido de bicicleta ou em uma jogada como o gol de placa (em 1961, no mesmo Maracanã, contra o Fluminense), em que vim driblando desde o setor defensivo. Aí depois eu li essa crônica do Armando Nogueira: parou porque Deus queria que todo mundo visse. Pô, você vê como às vezes se é injusto, ingrato: você tem um prêmio e ainda acha que poderia ser melhor. Tem que agradecer a Deus sempre. [[legacy_youtube_mLNjsTkBfAk]]