[[legacy_image_322350]] Há exatamente um ano, o mundo parou para chorar a morte de um Rei, o maior jogador de todos os tempos e um autêntico embaixador do Brasil para o mundo. Edson Arantes do Nascimento encerrava sua agonia no dia 29 de dezembro, após uma dura luta contra um câncer. E, pela magnitude do Atleta do Século, as despedidas não poderiam ser – e, de fato, não foram – simples. Quem atuou diretamente na preparação dos funerais de Pelé guarda lembranças e detalhes de uma jornada tão exaustiva quanto histórica. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mais de 230 mil pessoas passaram pelo gramado da Vila Belmiro, entre os dias 2 e 3 de janeiro, para se despedir de uma lenda do esporte – e um símbolo que se confunde com o próprio Santos Futebol Clube. O desejo de ser velado no estádio era dele. Mas a operação para viabilizar esse anseio real reuniu um exército de pessoas para dar conta de tantos detalhes e protocolos. [[legacy_image_322351]] “Nos procuraram em dezembro, antes do Natal. Deixaram tudo mais ou menos, porque não dá pra você organizar um velório desse do dia pro outro. E a gente tinha uma comissão. Trabalhou muita gente, patrimônio, segurança, administrativo, comunicação...Ninguém se sobressaiu. Foi um grupo grande, que tinha que cercar todas as partes”, conta o gerente de Comunicação do clube, Fábio Maradei. À época advogado da família de Pelé, Paulo Arantes conta que a ideia principal de um funeral na Vila Belmiro era realizar uma cerimônia à altura da representatividade do Pelé, em um período complicadopor conta das festas de final de ano. “O falecimento foi no dia 29 e o grande desafio era preparar todo o cerimonial pós festividades de ano novo. Seria inviável um cortejo na cidade em plena comemoração de Réveillon”, atesta. Tanto a família quanto o clube acompanhavam a evolução do quadro de saúde de Pelé. Uma semana antes, em 22 de dezembro, uma reunião com familiares indicava que a despedida estava próxima, e que a operação em torno do velório poderia ser viabilizada. “Nesse dia, foi a primeira reunião com a família, aonde vieram e falaram: vai ser a qualquer momento, e ele quer que seja na Vila Belmiro. A gente ia lançar o filme sobre o título brasileiro de 2002, que fazia 20 anos da conquista, e ficou tudo meio ofuscado”, reforça a coordenadora de Relações Públicas do clube, Isabel Luchesi. “A gente estava super feliz com o lançamento do filme e, de repente, uma reunião emergencial com a família do Pelé. Lembro direitinho que eu estava sentada no cinema, na poltrona, Já tinha feito a reunião e tal. E aí a dona Vera, esposa do coringa Lima, que é irmã da primeira mulher do Pelé, me mandou uma mensagem: 'Se prepara, porque ai ser a qualquer momento'. Não consegui mais prestar atenção no filme, foi horrível. mas foi ainda no dia 22 pra frente”, acrescenta. À medida em que os dias passavam, inclusive o Natal, a expectativa crescia, e a necessidade de desempenhar um trabalho respeitoso era o mantra da organização do clube. O vazamento de uma foto da montagem de estrutura, dias antes da confirmação da morte, foi absorvida pelos envolvidos. “A gente estava preocupado em atender à família. Não estava fazendo suspense, nem nada. A gente só estava preservando, para que não parecesse fazendo alguma coisa com uma pessoa viva”, afirma Maradei. “Tinha drones sobrevoando a Vila, caminhões no entorno. Não havia o que fazermos”, acrescenta o coordenador de Soluções, Denys Rodrigues. O dia 29. E os seguintesO boletim médico, divulgado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, informou que a morte aconteceu às 15h27 daquele dia 29 de dezembro, "em decorrência da falência de múltiplos órgãos, resultado da progressão do câncer de cólon associado à sua condição clínica prévia". De acordo com Paulo Arantes, o acompanhamento do estado de saúde era contínuo. “Desde que soubemos da equipe médica que o quadro era irreversível, a família já me procurou solicitando que procurasse o Santos. E me coloquei a disposição para atuar na organização desse cerimonial sem precedentes. Meu vínculo com Pelé era muito mais do que uma relação profissional, de advogado e cliente. Ele era meu amigo, meu compadre, padrinho do meu filho. Mas, nesse momento, tive que superar toda a tristeza da perda para dar lugar ao profissional que ficou responsável pela cerimônia”, pontua. Na Vila Belmiro, os cuidados com o velório na Vila Belmiro iam ganhando forma. “Nós trabalhamos muito com a Polícia, com todas as autoridades. Tivemos que nos preparar para coisas que a gente não tinha estrutura no clube, mas foi uma entrega de todos que se envolveram”, reforça Denys Rodrigues. Ele descreve que, sem o apoio de entes públicos, como a Prefeitura e a Polícia Militar, um velório de tamanhas dimensões não seria possível. O clube cancelou folgas e as férias de vários colaboradores foram afetadas. O número de profissionais do clube envolvidos no velório de Pelé dá a dimensão do desafio: Contando com os terceirizados, de segurança foram 282 profissionais; 50 bombeiros civis; 109 orientadores; 32 recepcionistas e 22 profissionais de limpeza. “O expediente era 24 horas, então esses grupos trabalharam intercalados, com 8 horas cada um. Na medida que não aconteceu entre os dias 24 e 25, a gente conseguiu evoluir o nosso expediente de atendimento. E aí nós fomos nos estruturando”. Maradei lembra que o credenciamento de imprensa foi feito em uma escola municipal próxima à Vila. “A gente teve uma missão, de atender ao Rei, pela última vez, na casa dele. A equipe toda ficou praticamente sem dormir. É, tinha que estar tudo pronto, né? A gente não podia era atrapalhar”, ressalta. A imprensa, sobretudo a internacional, compareceu em peso para a despedida de Pelé. Foram cadastrados 1.169 jornalistas de 21 países, entre eles Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Austrália, Ucrânia, Suíça, Turquia. República Tcheca, Romênia, Rússia, México e Japão. “Nós criamos uma estrutura, onde toda a arquibancada ficou exclusiva para a imprensa. E o credenciamento fora da Vila foi para não causar tumulto”. Chegam o corpo, os fãs, e as autoridadesO corpo de Pelé chegou à Vila por volta das 4 horas da manhã do dia 2. “O pessoal da Memorial preparou o vestiário da arbitragem pra receber o caixão dele. Aí tinha tudo: uma estrutura de refrigeração pra que ele pudesse permanecer durante todo aquele período. Para levar o corpo à tenda onde Pelé seria velado, o filho Edinho e o ex-jogador Zé Roberto. Na saída, o carro-maca que ajudou na condução ao carro do Corpo de Bombeiros, como em um desejo atendido. [[legacy_image_322352]] “Ele brincava que não havia carro-maca no tempo dele. O Jorge, responsável por esse serviço, se encarregou desse transporte. Estavam todos muito emotivos”, acrescenta o coordenador de Soluções do Peixe. Os vestiários do Profissional foram usados para a estrutura da Polícia Militar, assim como o ginásio. E, no entorno da Vila Belmiro, outros pontos estratégicos, como para a colocação de banheiros químicos. À espera da hora de entrar na Vila, filas iam se formando ao redor do estádio - e por diversas ruas. “Nos preparamos pra isso. Então, durante todo esse percurso, tínhamos orientadores nas ruas. À medida que a fila ia ganhando corpo, tínhamos orientadores sempre caminhando até o final para direcionar esse público. Essa equipe já se antecipava em algumas esquinas. As filas chegaram, por exemplo, ao Canal 2 com a praia, e na Rua Carvalho de Mendonça, a uma quadra da subida do Morro do Marapé”, recorda Denys Rodrigues. Em dado momento, a fila única foi multiplicada por três, para aumentar o número de pessoas que poderiam se despedir do Rei em menos tempo. Havia, ainda, preocupação com o forte calor. “Nós servíamos água na fila para as pessoas, principalmente os idosos. Dávamos atendimento diferenciados para esses idosos. Teve pessoas que nós pegamos o carrinho e vínhamos andando desde o fundo da Carvalho de Mendonça, quase com o morro, trazendo essas pessoas, preferencialmente pessoas que passaram mal. Nós chamamos até ambulância para que pudesse trazer até a Vila Belmiro. Teve atendimento especial para muita gente”, diz o profissional do clube. Enquanto isso, a chegada de autoridades, ex-jogadores e personalidades era administrada pelo Santos. Sempre com o aval da família, em especial o filho Edinho. “Nós sabíamos, que seria um grande desafio, e pedimos ajuda para o cerimonial da Prefeitura, pedindo para dividir com a gente, ficando responsável por deputados, senadores, governador, e a gente, pelas autoridades do futebol, FIFA, Conmebol, CBF, Federação Paulista, atletas e ex-atletas", pontua Isabel Luchesi. Cerca de 400 coroas de flores foram entregues na Vila, todas devidamente catalogadas. Ficou, então, definido que, na tenda central, que era onde ficaria o corpo, entrariam apenas pessoas autorizadas por Edinho. A família determinava quem poderia chegar próximo ao corpo. Como foram recebidas autoridades do Brasil inteiro e havia, por exemplo, vereadores de cidades que não eram próximos ao Pelé, formou-se outra fila. Então, uma fila para o público geral; a tenda para as pessoas autorizada pela família, que entravam pelo Memorial das Conquistas; e demais autoridades entravam pelo Salão de Mármore. Estiveram presentes o presidente da Fifa, Gianni Infantino; da Conmebol, Alejandro Dominguez; da CBF, Ednaldo Rodrigues, e da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos. Autoridades como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), o presidente Lula (PT), acompanhado da primeira-dama, Janja, também compareceram. Para a autoridade máxima do País, um esquema especial foi formatado. A Polícia Federal esteve mais de uma vez na Vila antes do presidente, para verificar os trajetos, por exemplo. “O presidente requer isso, até porque estava acabando de tomar posse e tudo, mas foi tudo muito tranquilo. A Polícia Federal e o Exército atuaram de forma bem discreta e bem eficiente: cobriram tudo e não teve muito problema. Eles só pediram para fechar alguns acessos”, relembra Fábio Maradei. Um momento especial do velório foi visto na madrugada do dia 3, quando um grupo das torcidas organizadas do Santos entrou no gramado e fez a sua reverência a Pelé. “A torcida fez contato conosco. Queriam ter o momento deles com o Pelé e não entrar no meio da multidão ali da fila. Então, primeiro conversamos com a família, que autorizou. Aí, os deslocamos lá pra Rua José de Alencar e fizemos o acesso deles pelo portão 20. Quando entraram no gramado, a família se emocionou, muitos choraram, o Edinho chorou, mas ali. Até o falecido Cosmo Damião (presidente de honra da Torcida Jovem) também chorou muito”. Entre os torcedores famosos, Supla e Mano Brown mostraram seu carinho por Pelé. O líder dos Racionais MCs ficou um bom tempo no local. Já o ex-locutor Osmar Santos emocionou, ao chegar à Vila a bordo de sua cadeira de rodas. Enquanto isso, o radialista Milton Neves e o apresentador e ex-jogador Neto choravam pelo Atleta do Século 20. Cortejo e a “ficha que cai”Ao fim de 24 horas de velório, a entrada de torcedores cessou na Vila. Era a hora de fecharem o caixão e prepará-lo para uma última volta pela Cidade que tanto amou. No carro do Corpo de Bombeiros, Denys Rodrigues acompanhava o trajeto que durou cerca de 4 horas. “Era um compromisso meu, garantir que tudo desse certo. Ali, eu chorei, e fui amparado por oficiais que acompanhavam o corpo". [[legacy_image_322353]] A parada em frente à casa de Dona Celeste, mãe de Pelé, no Canal 6, e o trajeto feito em velocidade mais lenta, de acordo com o caminhar dos torcedores que cercavam o carro dos Bombeiros, não saem da memória do profissional do Santos. A chegada ao cemitério Memorial marcou o fim de uma jornada exaustiva, mas histórica, para todos no clube. “A gente participou da história do esporte mundial. Não só do futebol. Pelé era um ícone pro mundo inteiro”, resume Fábio Maradei.