Pepe, ídolo eterno do Peixe, relembra momentos memoráveis e causos que adora contar sobre os ex-companheiros (Alexsander Ferraz/AT) Além de um dos maiores ídolos do Santos, José Macia, o Pepe, é um grande contador de estórias. Irreverente e carismático, o Canhão da Vila, que comemora 90 anos nesta terça (25), colecionou títulos pelo Alvinegro e passagens hilárias com os companheiros do inesquecível esquadrão santista da década de 1960. Detalhista, ele anotou, ao longo dos 15 anos em que defendeu o Peixe, seu único time como jogador profissional, os dados de todos os jogos em atuou em três cadernos, hoje verdadeiras peças de museu. “Eu tinha mania de anotar no caderninho. Pior era quando jogava na Inglaterra, na França. Eu falava com o repórter pra conseguir um jornal pra eu levar e colocar (as informações) no meu caderno. Tem uns três cadernos, tem que tomar muito cuidado, se cair, explode!”, brinca Pepe. Nos cadernos, o ponta-esquerda anotou os jogos desde que chegou ao infantil do Peixe, em 1951. “Olha como é que ele está, coitadinho, eu marcava tudo. Naquela época tinha amador antes de chegar no profissional, o pau comia mais, com os jogadores de 18, 19 anos. O cara era bom no amador, ia pro profissional. O Pelé, do juvenil, foi logo pro profissional. Eu ainda passei no amador, levei umas bordoadas, mas fui bastante feliz, só joguei no Santos”, diz Pepe, com orgulho. Nas valiosas peças, anotações de 750 jogos pelo Peixe, com 505 vitórias, 118 empates e 127 derrotas. Foram “apenas” 1.230 gols de saldo no balanço final. “Eu anotei até o fim da minha carreira como profissional, em 1969. Dá saudade ver isso aqui, tanta gente já foi embora, meu Deus do céu, muita coisa boa”, emociona-se o Canhão da Vila. Tamanha dedicação valeria a Pepe o título de primeiro historiador do Alvinegro. “O Santos, às vezes, me pedia os cadernos pra tirar alguma dúvida”, conta. Abaixo, alguns causos que o ídolo eterno santista, que imortalizou a camisa 11, adora contar e recontar. A “dama” do Dorval Várias estórias divertidas, e preferidas, de Pepe envolvem os ex-companheiros de Santos. Como a vez, numa viagem à Europa, em que Dorval teria se encantado com uma moça numa boate, durante uma noite de folga. “Eu não dançava nada e o Dorval gostava de dançar. E estava ele lá dançando de rosto colado. Aí parou a música e a dama do Dorval entrou no WC masculino. Chamei o Dorval e disse pra ele: ‘Você tá fazendo papel de bobo, você tá dançando com um homem! A tua dama acabou de entrar no WC masculino, está te enganando’. E ele falou: ‘Não tem problema nenhum, ela pensa que eu sou o Pelé, tá elas por elas (gargalhando)”. Coutinho X Pelé A mania de Coutinho, de jogar com as meias arriadas, gerou, segundo Pepe, o seguinte diálogo entre o atacante e o técnico Lula. “Coutinho, você não põe caneleira e joga de meia arriada, vai acabar se machucando”, cobrou Lula. “Todo jogo à noite, aqui na Vila (Belmiro), porque a iluminação não é boa, toda cagada quem faz sou eu, todo gol bonito é Pelé’, retrucou Coutinho. O telegrama do Mengálvio Segundo Pepe, Mengálvio, certa vez, queria fazer uma surpresa para a família, na volta de uma das várias excursões que o Santos fez à Europa, e mandou um telegrama. “Querida família, chegarei de surpresa dia 15, duas horas da tarde, voo 617, Varig, Congonhas”, narrou Pepe, rindo. “Porra, que surpresa é essa? (risos). “E o Mengálvio falava pra mim: Você inventa, Pepe!” (risos). A namorada peruana Uma das estórias favoritas de Pepe tem o próprio como personagem. Antes de conhecer e casar com dona Lélia, sua companheira de vida, o Canhão da Vila tinha uma namorada em Lima, no Peru. Sempre que o Santos ia jogar por lá, Lupi o esperava, mas o último encontro não terminou lá muito bem. “Assim que chegava em Lima, ela me esperava no aeroporto. Anos depois, quando voltamos ao Peru, a maioria dos jogadores usava chapeuzinho verde com uma peninha. E eu, educadamente, tirei o chapéu ao vê-la. E ela falou: ‘Pepito, como te encontro bem’. E os caras comentaram que ela disse: ‘Nossa, que lástima, depois te telefono. E nunca mais telefonou (risos). Eu tava calvo!”, conta Pepe, que anteriormente tinha "vasta cabeleira”. O presidente Athié Jorge Coury, Pepe e Carlos Alberto Torres, na despedida do Canhão da Vila dos campos, em 1969 (Cândido Gonzalez/AT) Vitória épica, com táxi e busão na volta para casa Em 1958, um embate entre Santos e Palmeiras, no Pacaembu, em São Paulo, terminou com vitória santista por 7 a 6. Num jogo inesquecível e cheio de viradas, Pepe marcou três gols. “Era um jogo do (Torneio) Rio-São Paulo. Com 20 minutos de jogo, 2 a 2. Aí fizemos 5 a 2 e fomos pro vestiário. O Ciro Costa estava preparando o bicho, pagava depois do jogo, mas o Palmeiras fez duas alterações e virou pra 6 a 5. No final, viramos pra 7 a 6”, conta Pepe. Na volta para Santos, assim como na ida, a delegação alvinegra se dividia em vários grupos, porque o Alvinegro não tinha ônibus. “O Santos viajava com carros de praça, eram cinco ou seis motoristas, sempre os mesmos, e cada um levava quatro jogadores. Eu desci na Praça dos Andradas e, como morava em São Vicente e os carros iam pra Vila Belmiro, eu peguei um ônibus. Os caras falavam pra mim: 'Pô, Pepe, como você é pão duro, vai de ônibus'". Na viagem para São Vicente, um cidadão sentou ao lado do Canhão da Vila. "Ele ficou me olhando, três horas da manhã. ‘Posso lhe fazer uma pergunta? O senhor, por acaso, não é o Pepe, do Santos?’, perguntou. Sou, eu disse. ‘Vocês não jogaram com o Palmeiras essa noite?’. Jogamos, ganhamos de 7 a 6. ‘Não pode, 7 a 6?’, duvidou ele. Ele não acreditou em mim, mas falei: Compra o jornal amanhã, que você vai ver que é verdade (risos). O primeiro carro a gente nunca esquece Pepe era o único jogador naquele fantástico time do Santos de Pelé que não tinha carro. Fato que fez com que a torcida decidisse fazer uma vaquinha para dar um automóvel ao ídolo. “Todo mundo tinha carro. Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Zito, Clodoaldo... e eu ia de ônibus. Aí a torcida comprou o carro e me deu, sensacional. Me deram a chave, homenagem lá na Vila Belmiro, me entregam o carro, aí o Pepe vai e buuuuum, no primeiro poste!. O carro foi pra oficina (risos)”, recorda.