Pepe com os cadernos em que anotou os 750 jogos que fez pelo Peixe: "Dá saudade ver isso, tanta gente já foi embora!" (Alexsander Ferraz/AT) Ele é tão santista que nasceu na mesma rua onde, 23 anos antes, um grupo se reuniu para fundar o Santos Futebol Clube. No mesmo ano, 1935, em que o Alvinegro ganhou o primeiro título de sua história. É, segundo ele próprio, o “maior artilheiro” do Peixe, porque “Pelé não é desse planeta, é de Saturno”. As bombas que maltratavam goleiros, além de estufar as redes 405 vezes pelo Alvinegro, lhe garantiram uma marca registrada: “Canhão da Vila”. Palmas para José Macia, o Pepe, que completa 90 anos nesta terça (25). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nascido numa segunda-feira de Carnaval, na antiga Rua do Rosário, atual João Pessoa, no Centro de Santos, Pepe nunca ligou para a festa mais popular do Brasil, mas se fosse do samba, seria o porta-bandeira da simpatia e carisma. Com o bom-humor habitual, memória afiada e muitos causos na ponta da língua, o atacante, que imortalizou a camisa 11, recebeu a reportagem de A Tribuna em sua casa para um bate-papo, recheado de boas estórias, risadas e pitadas de saudade de um tempo memorável na história do futebol mundial. Ainda criança, a família de Pepe foi morar em São Vicente, onde ele, o mais novo de três filhos homens, passava os dias jogando bola no “areião da Avenida Antônio Emmerich”. Destaque nos times amadores vicentinos, Pepe foi levado por um amigo, Cobrinha, para fazer um teste no Santos. “O Lula (técnico) gostou do meu jeito de jogar e falou ‘tô precisando de ponta esquerda’. E me colocou na ponta. Cheguei em casa todo contente, porque não precisava mais pagar ingresso pra assistir jogo do Santos, eu ia com a minha carteirinha”, recorda. O pai de Pepe não gostou da escolha, queria que o filho o ajudasse no negócio da família. “A carreira de jogador era sacrificante, viajava muito, levava pontapé. Em princípio, ele queria que eu seguisse na Mercearia Central, mas depois aceitou”. Sorte do Santos. E dos santistas. Começava ali a trajetória mais vitoriosa de um jogador do clube. Nos 15 anos vestindo a camisa alvinegra, a única que Pepe usou em toda a carreira como jogador profissional, foram 25 títulos. O primeiro título, com a marca de Pepe Destaque na base, Pepe virou titular do Peixe aos 20 anos. E foi protagonista do segundo título da história do Alvinegro, o Campeonato Paulista de 1955. Num jogo que ele considera como um dos mais importantes da carreira. “O jogo contra o Taubaté tava um a um, caminhando pro empate. Aí eu fiz o segundo, ali no gol de entrada (da Vila Belmiro), pegando um tirambaço de fora da área, aos 34 do segundo tempo. O Santos foi campeão depois de vinte anos, foi uma festa incrível. Eu cheguei em São Vicente, me levaram de táxi, e na rua me colocaram nos ombros”, conta. A conquista era um prenúncio do que estava por vir. No ano seguinte, desembarcou na Vila um garoto negro trazido por Valdemar de Brito. “Eu tava no barbeiro, na época era o Espanhol, o Didi veio depois, na frente do campo do Santos. Tava cortando a vasta cabeleira que eu tinha na época e o Valdemar de Brito chegou dizendo: ‘eu trouxe um garoto, vocês vão gostar, hein!’. Pelé me deu um aperto de mão que quase quebrou minha mão (risos)”. Bastaram alguns treinos para que se constatasse que o tal garoto era diferenciado. “Treinando contra Elvio, Ivan, Ramiro... Formiga, que era um baita zagueiro, mas tinha dificuldade pra marcar ele. Eu gostava da meia esquerda, mas foi bom jogar na ponta (risos). Tinha o Zito, o Pagão e no ano seguinte chegou o Coutinho. Aí foi uma carreira linda e aquele time maravilhoso”, diz Pepe, com sorriso largo. O inesquecível bicampeonato mundial O jogo da vida de Pepe foi a segunda partida contra o Milan, na decisão do Mundial Interclubes de 1963. O Santos havia perdido o jogo de ida por 4 a 2, na Itália, e recebeu os italianos no Maracanã. Desfalcado de Zito, Pelé e Calvet, Lula surpreendeu e deixou Pepe no banco, o que irritou o Canhão da Vila. “Tivemos um coletivo no Maracanã e eu fui reserva. Poxa, ele (Lula) vai me tirar na decisão? Colocou o Batista, que veio do Noroeste. Não apelei, fiquei guardando”, recorda Pepe, que entrou mordido na etapa final, quando o Santos perdia por 2 a 0. “Eu entrei um pouco furioso e o canhão funcionou mais, mediram 122 km por hora (risos)”, diz Pepe, que marcou dois gols de falta. Almir e Lima também balançaram a rede e o Peixe venceu por 4 a 2, levando a decisão para um terceiro jogo. Com um gol de Dalmo, de pênalti, o Santos venceu por 1 a 0 e foi bicampeão mundial. Frustração na seleção Se Pepe conquistou todos os títulos possíveis pelo Alvinegro, na seleção amargou a maior frustração da carreira. Com 40 jogos e 21 gols pelo Brasil, o ponta-esquerda fez parte dos dois esquadrões do Brasil que conquistaram as Copas de 1958 e 1962. Lesões às vésperas dos Mundiais, porém, o deixaram fora de ação. “Fiz uma campanha boa na seleção, mas nas duas Copas perdi a posição pro Zagallo, por contusão. Em 1958, com o (Vicente) Feola e em 1962, com o Aimoré (Moreira), treinadores que gostavam do meu futebol. Machuquei com gravidade, uma distensão e uma torção no tornozelo. Ficou essa frustração de não ter jogado uma Copa do Mundo. Graças a Deus consegui realizar o sonho de ser bicampeão mundial pelo Santos”. Para alguém que atuou ao lado de alguns dos maiores jogadores da história do futebol mundial, é difícil ver a seleção no estágio atual. A saída precoce para o exterior e a falta de vínculo com a amarelinha, na visão de Pepe, contribuem para o mau momento. “(Os jogadores) Não criam vínculo como criávamos antigamente, talvez já não exista mais aquele detalhe de amor à camisa. Gostam, mas lá (no exterior) paga muito mais. Não vou dizer que estão errados, pensam no futuro deles e da família, mas a gente segurou até o Pelé. Todo ano vinha convite da Espanha pra mim: Barcelona, Valencia, La Coruña, mas eu não fazia força pra sair, porque gostava de jogar no Santos. E o Santos também não me vendia” A volta do Neymar Para compensar a fase ruim da seleção, a volta de Neymar ao Santos deixou Pepe animado. Hoje camisa 10 do Peixe, Neymar fez história na primeira passagem pelo clube com a 11, imortalizada pelo Canhão da Vila. “Fiquei muito contente. O pai do Neymar já esteve aqui uma vez e falou que era um grande admirador meu. Neymar é um cara bacana e jogava com a 11, caía mais pelo lado esquerdo. Agora ele tá com a 10, eu avalizo a 10 pra ele, assino embaixo!”. Talento indiscutível, Neymar teria lugar naquele fantástico time santista da década de 1960? “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe... o Lula ia arrumar um lugar pro Neymar. De volante, chegando. Mas e o Zito? (risos)”, brinca Pepe, o único branco do ataque. “Eu era o único cara-pálida. Pensava comigo: acho que o Lula tá querendo fazer cinco crioulos, mas o problema é que eu fazia muito gol”, diverte-se Pepe. Segredo da longevidade Se o hino santista pontua que “nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem”, chegar aos 90 anos esbanjando saúde é privilégio para poucos. Além da alimentação regrada, salvo a tentação por doces, e do alto astral diário, Pepe conta o segredo da longevidade. “Minha mãe já cuidava muito bem de mim. Quando casei, dona Lélia deu sequência, minha sogra também. Graças a Deus, até pelo que eu plantei, não sou antipático pra corintiano, são-paulino, palmeirense. Procurei ser sempre um cara correto, de bom papo”. Apesar do respeito dos torcedores rivais, Pepe confessa o gosto especial que tinha pelas vitórias sobre os adversários. “Era bom ganhar do trio de ferro, mas mais do Corinthians. Fiz muito gol neles cobrando falta, mas quando os corintianos viam o Pelé, ficavam muito preocupados (risos)”.