Pelé tinha 15 anos e estreava no profissional pelo Santos quando marcou o primeiro gol da carreira (Arquivo A Tribuna) Em 7 de setembro de 1822, foi proclamada a Independência do Brasil. Após 134 anos, em 1956, na mesma data, um reinado em plena República teve início, mas com a bola nos pés: o de Pelé. O futuro Rei do Futebol marcou o primeiro de seus 1.281 gols, sendo 1.091 pelo Santos. Em campo, estavam o Peixe e o extinto Corinthians de Santo André no Estádio Américo Guazelli, demolido há mais de 40 anos na cidade do ABC paulista. No placar, 7 a 1 para o Santos, com direito a aplausos dos torcedores, sentados em arquibancadas ainda de madeira, e cumprimentos dos derrotados. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Era um simples amistoso, agendado em 31 de agosto, e que a tradicional coluna Mosaico Esportivo, de A Tribuna, divulgou sem pompa no dia seguinte. "Apresentar-se-á o campeão paulista com a sua equipe titular, integrada de todos os seus valores, já que o clube de Santo André condicionou ao amistoso essa exigência, a qual o campeão de técnica e da disciplina deu o seu 'concordo'", dizia parte da nota. O acordo não pôde ser cumprido por inteiro. Três grandes jogadores não viajaram, por contusões: Formiga, Pagão e Pepe. Curiosamente, o nome de Pelé não constava na lista de relacionados, publicada em A Tribuna. Vasconcelos, sim, estava. Era o craque da meia-esquerda. Mas Del Vecchio começou atuando. Dois que o então Gasolina teria de bater na briga por posição. O município do ABC paulista incluiu o amistoso entre os eventos do feriado cívico. Nada melhor do que a presença do então atual campeão paulista para abrilhantar as comemorações. Ninguém imaginava, porém, é que seriam sete gritos de gol do visitante, talvez mais potentes do que o de Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga, na Capital. Emoção de Pelé A emoção de Pelé ocasionou um equívoco bem curioso antes de a bola rolar. "Por ser Dia da Independência, tocaram o Hino Nacional. Estava ao lado do Pelé e vi que ele colocou a mão no coração, mas do lado direito dele, não do esquerdo. Começamos a rir’’, contou Raimundinho, em 2006, para A Tribuna, menos de um ano antes de morrer, em 18 de junho de 2007. Raimundinho tem parte fundamental nesta história. E daqui a pouco ele irá aparecer novamente. No jogo, em um "gramado duro, cheio de saliências e imperfeições", segundo descreveu Ary Fortes, repórter de A Tribuna, o Santos não encontrou dificuldades para se impor. A goleada já havia se desenhado no primeiro tempo, com Álvaro, Del Vecchio e dois de Alfredinho, que abriu o placar aos 30 minutos. O que interessava era o jogo em Jaú, contra o XV, dois dias depois, pelo Paulistão — vencido pelo Alvinegro por 3 a 1. Modificações na etapa final O técnico Lula aproveitou para fazer modificações na etapa final, assim como o treinador do Corinthians de Santo André. Foram nove no total, sendo seis do Santos. Enquanto isso, o placar do Estádio Américo Guazelli não parava de ser ampliado. Del Vecchio continuou o massacre aos 16. Zaluar já substituía Antoninho na meta e estava prestes a escrever seu nome nos compêndios esportivos. Como retornava de contusão, Del Vecchio aguentou até quando conseguiu e com dois gols na contabilidade. Era a chance de Pelé. "O Lula chegou para mim e perguntou se eu estava com medo. Respondi que tinha confiança, porque já havia treinado. E entrei", contou o Rei do Futebol, em 2006, para A Tribuna - ele morreu em 29 de dezembro de 2022. O primeiro gol Não demorou para o garoto de 15 anos comemorar pela primeira vez com a camisa santista. O lance ocorreu aos 36 minutos, a sexta bola na rede da goleada. "Ação Raimundinho-Tite com lançamento já na área a Pelé. Em meio de vários defensores contrários, atirou Pelé com sucesso, passando a pelota sob o corpo do guardião Zaluar", assim escreveu Ary Fortes, em A Tribuna. Mesmo depois de tantas décadas, o autor do passe, Raimundinho, não tinha esquecido da festa de Pelé. "Ele ficou eufórico. Imagine: tinha vindo do juvenil e feito gol entre os profissionais", relembrou, em 2006, para A Tribuna. O futuro Rei do Futebol correu para abraçar o treinador e os companheiros, mas queria avisar imediatamente o pai, Dondinho, o que só conseguiu no dia seguinte. "Foi um chute normal, mas é uma lembrança diferente por ter sido o primeiro de minha carreira e vestindo a camisa de um grande time", simplificou o Atleta do Século, também em 2006, para A Tribuna. Vilmar ainda descontou para o Corinthians de Santo André e Jair Rosa Pinto, aos 44, fechou a goleada em cobrança de falta — sofrida justamente por Pelé: 7 a 1. Restou a Zaluar capitalizar o feito: confeccionou um cartão que carregava sempre consigo, com uma frase que indicava ter sido ele o primeiro goleiro a sofrer uma bola na rede do futuro Rei do Futebol. "Ele ainda chegou perto de mim, passou a mão na minha cabeça e disse: 'Levanta, Zaluar'", contou, um ano antes de sua morte, ocorrida em 1995. Por sinal, um gesto característico repetido por Pelé ao longo de sua carreira de tantos gritos... de gols.