Desde que retornou à Vila, Neymar só disputou metade dos jogos que o Santos fez no período (Raul Baretta/Santos FC) Neymar retornou ao Santos no dia 31 de janeiro de 2025, com uma grande festa na Vila Belmiro e muita expectativa do torcedor para que, em casa, ele reencontrasse o futebol que o tornou um dos jogadores mais cobiçados do mundo. Passados 14 meses, porém, o desempenho do astro em campo é frustrante e o custo muito alto, para um clube que vem há anos acumulando uma dívida impagável. Desde a volta, o camisa 10 só participou de 50% dos jogos do Peixe no período, o que, computado apenas os salários, equivale a quase R\$ 1,8 milhão por partida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A idolatria que a maioria dos santistas ainda nutre pelo craque vem sendo ofuscada pela impossibilidade de Neymar mostrar, em campo, que ainda pode jogar em alto nível. O histórico de lesões e os poucos jogos por temporada, principalmente a partir de 2023, sinalizavam que o Menino da Vila precisaria de tempo para tentar reviver os melhores momentos. Cenário visto desde o ano passado. Dos 54 jogos que o Santos fez em 2025, Neymar disputou 28, 20 no Brasileirão, sete no Paulistão e um na Copa do Brasil. Com 11 gols e quatro assistências, ele foi o vice-artilheiro do time, atrás de Guilherme, então o jogador do elenco mais cobrado pelos torcedores, que balançou as redes 14 vezes em 33 partidas. Durante o ano passado, Neymar sofreu três lesões musculares, que o deixaram fora de ação durante 119 dias. Ou seja, quatro dos 11 meses em que esteve no Peixe. Com 2.065 minutos jogados, a média foi 73,7 minutos em cada um dos 28 confrontos. Ainda que com atuações discretas, o camisa 10 teve participação decisiva na reta final do Brasileirão, quando, apesar de sentir dores no joelho esquerdo, jogou no sacrifício e marcou gols importantes, contra Sport e Juventude, para afugentar o risco de rebaixamento. Início ruim em 2026 Submetido a uma artroscopia no menisco do joelho esquerdo no final de dezembro, Neymar estreou nesta temporada no dia 15 de fevereiro, um mês e meio após o primeiro jogo do Santos em 2026, na goleada de 6 a 0 sobre o Velo Clube, no Estadual, na Vila. Desde então, ele já foi poupado ou ficou fora por suspensão em quatro partidas. Neymar só atuou em seis dos 20 confrontos do Alvinegro este ano. Marcou três gols e deu três assistências. Foram duas partidas no Paulistão e quatro no Brasileirão, onde levou três cartões amarelos, deixando-o fora contra o Flamengo, no domingo passado, duelo importante para alguém que ainda almeja jogar a Copa do Mundo. Com 494 minutos em campo, a média por jogo em 2026 aumentou para 82,3 minutos. No total, desde o retorno à Vila, Neymar atuou em 34 das 68 partidas que o Peixe disputou no período, exatamente 50%. O alto custo Neymar O ousado projeto de trazer o maior ídolo recente do clube de volta era uma aposta de que Neymar seria o líder de uma equipe vencedora. Na prática, no entanto, o Santos tem sido o mesmo dos últimos cinco anos: um fracasso. No ano passado, com três técnicos, o time caiu na semifinal do Paulistão, foi eliminado pelo modesto CRB na terceira fase da Copa do Brasil e lutou contra o rebaixamento até a última rodada do Brasileirão. O ano mal começou e a equipe continua na mesma marcha. Eliminado nas quartas de final do Estadual, trocou de treinador após início ruim na Série A. Com Cuca e sem Neymar, ainda à beira da zona do rebaixamento do Brasileirão, perdeu para o humilde Deportivo Cuenca, na estreia da Copa Sul-Americana. A empreitada não derrapa apenas no fracasso esportivo. O custo de ter Neymar é muito elevado para um clube que segue à deriva, sem gestão profissional e responsabilidade financeira há, pelo menos, uma década. Manter a estrela em Santos exige um cofre cheio, coisa que não se encontra na Vila, nem no CT Rei Pelé. No contrato assinado para os primeiros cinco meses, de fevereiro a junho de 2025, o salário de Neymar era de R\$ 4,1 milhões. Na renovação, a partir de julho do ano passado, R\$ 4,5 milhões mensais. Somados os vencimentos do astro, de fevereiro de 2025 a março deste ano, ele recebeu R\$ 61 milhões de salários em carteira. O valor, dividido em 34 jogos, corresponde a R\$ 1,794 milhão por partida. Dívida milionária Além dos salários, o Santos se comprometeu a pagar US\$ 15 milhões (cerca de R\$ 85 milhões à época) pelos direitos de imagem de Neymar na assinatura do primeiro contrato. A dívida, atualizada em R\$ 90,5 milhões, já foi renegociada duas vezes. Na primeira, em junho do ano passado, o clube alongou o prazo para pagamento até dezembro, último mês da gestão do presidente Marcelo Teixeira. Mas um controverso aditamento contratual, assinado no final de 2025 entre Santos e NR Sports, empresa do pai do jogador, dividiu o débito em 48 pagamentos, que vão até o final de 2029. Como garantia de pagamento, o clube incluiu o CT Meninos da Vila no acordo, que só prevê o parcelamento alongado caso o atual mandatário seja reeleito em dezembro. Do contrário, o saldo devedor deve ser pago à vista. As cláusulas geraram protesto de torcedores e reação de alguns conselheiros, que contestam a validade do documento. Uma, entre várias alegações, é que a inclusão de patrimônio do clube teria que ser aprovada pelo Conselho Deliberativo, o que não aconteceu. Contas e contrato controversos Na semana passada, o Conselho Deliberativo, onde a gestão tem maioria quase absoluta, aprovou as contas de 2025, apesar do déficit de quase R\$ 80 milhões e dívida de quase R\$ 1 bilhão. A dívida dos direitos de imagem de Neymar, não lançada no relatório, aliviou o déficit, ação apontada como manobra por alguns conselheiros. O Santos, por sua vez, divulgou a maior receita de sua história, ao alcançar R\$ 678,5 milhões de receita no ano passado. Credita o resultado ao retorno à Série A e a volta de Neymar. E capitalizou o resultado, comparando-o a 2023, último ano da gestão de Andres Rueda, quando o Peixe foi rebaixado e teve receita de R\$ 407 milhões. Se a arrecadação, de fato, aumentou expressivamente, muito em razão dos contratos de patrocínio assinados após a chegada de Neymar, também é verdade que, em 2025, a NR Sports ficava com 75% do valor dos novos acordos, restando 25% ao Alvinegro. O clube, por sua vez, viu entrar mais dinheiro no caixa, mas não pagou os direitos de imagem do astro, inflando ainda mais a sua já bilionária dívida. Sobra ousadia, mas falta alegria.