[[legacy_image_322579]] Edson Cholbi do Nascimento, o Edinho, vive os últimos tempos cultivando dois sentimentos: a saudade do pai, o Rei Pelé, que morreu há um ano, em 29 de dezembro do ano passado, e a gratidão pelo carinho global demonstrado diante da perda do maior jogador de futebol de todos os tempos. Em conversa com A Tribuna, Edinho volta no tempo, conta algumas impressões daqueles dias derradeiros e de luto, e revela uma intenção: perpetuar o legado do pai de uma forma palpável. Confira! Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O que ficou marcado daqueles dias de novembro/dezembro de Pelé já internado e com diversas homenagens e orações, mesmo em meio à Copa do Mundo? Olha, o que ficou marcado pra mim foi a experiência de perder um pai. É uma experiência única na vida de qualquer pessoa: um pai, uma mãe... Eu, graças a Deus, ainda tenho minha mãe. É um momento único na vida da gente, mas que acontece de formas diferentes. Às vezes, é de repente, inesperado. Às vezes, é um processo, como foi comigo e com a nossa família. Uma coisa ou outra muda a sua forma de ver a vida a partir dessa conscientização. E acho que é isso que ficou. Talvez o início de uma transformação de como eu enxergo a vida. Acho que todo mundo que perde um pai, independentemente do momento da vida, passa por um período de reflexão. E é isso que me marcou, é com isso que eu fico mais hoje, lembrando, refletindo. Esse é o sentimento: foi o início de um processo de transformação de perspectiva de como eu vejo a minha vida. Qual foi a importância da união da família naqueles dias complicados? Foi outra experiência incrível essa união que houve dos irmãos e sobrinhos, de toda a família. E foi fundamental, porque é um apoio, uma estrutura de apoio, com muita lucidez, com muita harmonia. Literalmente, a gente traçou um plano de ação, para estar sempre presente ali no hospital e atender eventuais demandas, com cada um conciliando os seus compromissos e suas vidas. Então, criamos um sistema onde um rendia o outro, e o máximo que dava estávamos juntos. Mas, no mínimo, um sempre estava e isso confortava os outros. Assim, garantimos a nossa presença permanente ao lado dele (Pelé), mesmo dessa forma rotativa, mas sempre tendo no mínimo um núcleo, uma estrutura do núcleo ali. É difícil colocar em palavras o tamanho da importância da união em torno daquele momento, o que estabeleceu uma conexão eterna entre nós. Não é fácil acompanhar a despedida, aos poucos, de um ente querido. Como foi aquele dia 29 de dezembro? Havia uma percepção, embora não fosse algo desejado, de que Pelé, enfim, descansaria? Nunca é fácil perder um pai, uma mãe, seja de forma repentina ou como foi o nosso caso: de uma forma mais prevista, através de um quadro de enfermidade grave, que, em todo sentido, já apontava para um caminho inevitável. Então, não é fácil, mas é da natureza. A gente precisa entender e faz parte da nossa experiência humana. Foi e é necessário compreender esse fato, a existência desse fato. E é isso o que a gente fez. Só fica um sentimento de gratidão por uma vida tão rica, tão importante, e pela nossa oportunidade de fazer parte dela, de alguma forma. É ainda mais difícil quando inverte, quando um filho vai antes de um pai, quando foge muito da forma natural das coisas. Mas foi um processo e, de verdade, nos últimos momentos, a condição dele era muito triste. Então, acabou sendo um alívio, uma paz. Saber que ele não estava mais sentindo dor, não estava mais sofrendo. É uma mistura (de sentimentos) e eu acho que é muito pessoal isso, cada um de nós lida com esse tipo de coisa de uma forma. Como foram aqueles dias entre a morte do Rei e o funeral?Nos dias entre a morte e o velório na Vila Belmiro, e sendo colocado onde ia descansar de forma permanente, eu fiquei com ele (Pelé) o tempo todo. Fui buscar em São Paulo, no hospital, e desci, dormi com ele na Vila. Então, a minha família estava em São Paulo e, com certeza, se uniram todos. Mas eu fiquei sozinho com ele esse tempo todo. Na verdade, eu não assisti à televisão, não vi nada – hoje, pra lembrar, eu me confundo, não sei se foi antes ou depois do velório, eventuais homenagens... Mas só agradeço. Ele (Pelé) era amado, reverenciado. Hoje, vivemos numa era de rede social, de vários veículos de comunicação. Então, muitas pessoas puderam se expressar, e eu só tenho a agradecer a todos. Mas foi um momento em que eu não estava muito ligado ao que acontecia no mundo. Estava muito comprometido ainda com o processo e a minha responsabilidade. Foi um momento muito sereno. E quanto ao velório? O número de pessoas que foram se despedir do seu pai te surpreendeu? O velório foi lindo demais. Uma coisa muito própria. E a dinâmica que foi criada ali, com muita propriedade, com a circulação das pessoas. E a possibilidade de permitir o máximo possível. Foram 24 horas de pessoas circulando. E se deixasse mais 24, teria fila para mais 24. Foi um absurdo, e natural também. Fiquei impressionado e, ao mesmo tempo, aquilo não me surpreendeu. Porque era o Pelé. E o Pelé foi único e é a terra dele, Santos. Embora tenham vindo pessoas do mundo inteiro, dentro do possível, era uma época, fim de ano, e Santos não tem aeroporto. Foi muito complicada a logística para vir a Santos. A maioria das pessoas era da cidade, de São Paulo... Foi incrível, maravilhoso. Foi mais uma forma de a família ter um suporte, tirar uma força... Canalizar mais ainda esse amor. Para nos ajudar a suportar, também, o momento. Um ano depois, qual é o sentimento que você e os demais familiares têm ao olhar para esses dias? E o que do Pelé querem levar adiante? Há planos e projetos para que o legado dele seja perpetuado? O sentimento que eu tenho, de olhar para esses dias, é de muita gratidão. De sentir, realmente, um orgulho muito grande de fazer parte dessa história. Para mim, pessoalmente, há um senso de responsabilidade muito grande de perceber hoje o que eu represento e o tamanho desse desafio. O tamanho dessa responsabilidade. Existe uma grande vontade, hoje, de construir algo que vai ficar para sempre. Uma coisa que vai perdurar, que vai ficar para minhas filhas, para os meus netos e para toda a humanidade. O Rei era uma grande inspiração e o seu legado, a sua história é eterna e deve ser preservada e contada. Porque os feitos dele são realmente quase super-humanos. Quero tornar esse legado uma coisa palpável, objetiva, que vá torná-lo uma lenda no dia a dia, por meio de sentimentos diários que as pessoas vão ter. De lembranças de sua grandeza, mas de uma forma prática. Que ele afete as vidas das pessoas, e isso é através de projetos, Hoje, eu tenho a grande felicidade de participar de um projeto que logo será divulgado, que realmente tem esse perfil. Uma coisa nobre, para melhorar as vidas das pessoas. Então, é dessa forma que eu pretendo perpetuar esse legado. Para os jovens do futuro terem essa estrela para se inspirar também e honrar essa história que ele escreveu.