Ele foi um dos protagonistas na geração de 1978, comandando o ataque dos Meninos da Vila, campeões paulistas. Neste sábado (4), no comando do volante de seu carro, dirige pelas ruas de Santos ouvindo e contando histórias, trabalhando como motorista de aplicativo. A rotina, diz Juary Jorge dos Santos Filho, ex-camisa 9 do Peixe, tem funcionado como uma terapia para se livrar da depressão. “As pessoas acham que depressão é brincadeira, mas é uma doença carnal e espiritual. Acordava às 10 horas e ia dormir às 3 horas, não levantava da sala para nada, nem para comer. Graças a Deus, que me deu um caminho na vida, minha esposa falou: ‘Tu não gosta de dirigir, de conversar com as pessoas? Sai de casa, vai fazer Uber, vai fazer alguma coisa da vida. Aí eu comecei a fazer e gostei”, conta Juary. Os primeiros sintomas de depressão, diz ele, surgiram no início do ano. “Eu não sorria, não brincava mais, vivia só de cara feia, não me reconhecia. Há muitos anos eu me preparei para parar de jogar futebol, para me afastar de futebol, mas não conseguia. Essa depressão foi uma forma de Deus dizer para mim: ‘Juary, não te quero mais no futebol, te quero de outra maneira’”. O último trabalho de Juary no futebol foi nas categorias de base do Alvinegro, posto que deixou no final de 2020. Há dois meses, ele seguiu o conselho da esposa. De passageiro em passageiro, de corrida em corrida, Juary reencontrou o jeito moleque de ser, de estar de bem com a vida. “Hoje, primeiro Deus. Depois isso, que me tirou da depressão, sem tomar remédio, nem ir ao médico. Você conhece muitas pessoas, troca ideia com todo mundo. Você pega de tudo, gente mal-humorada, bem-humorada. Os teus problemas ficam lá no fundo, você divide os problemas dos outros, é a coisa mais linda do mundo. O cara tem que ser bom mesmo para ser motorista de aplicativo”. “Você não é o Juary?” Juary diz que é raro, mas às vezes alguém o reconhece dos velhos tempos da bola. “Uma senhora me disse: ‘Eu gostava muito de você, vocês são os verdadeiros meninos da Vila’. E eu falei para ela que o tempo passa, o tempo voa, e a gente continua aí. Para mim é uma terapia, porque eu me reencontrei”, diz ele, que não trabalha em jornadas extensas. “Quando dá vontade, eu saio (para fazer corridas)”. Apesar de fincar o pé no presente, Juary não esconde o orgulho de ter o nome marcado na história do Alvinegro. “Não tem presente sem passado. Aquela molecada de 1978/79 deixou uma marca. O que vem depois é a continuação daquilo que fizemos. Porque, querendo ou não, aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga”. O centroavante, que comemorava gols com dancinhas ao redor da bandeirinha de escanteio, enfatizou a importância de outras gerações que vieram depois e entraram para a galeria de heróis santistas, como Giovanni, Robinho, Diego, Elano e Neymar. Mas frisou que não se pode viver apenas do passado. “Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso. Eu tenho orgulho daquilo que eu fiz, dos momentos que passei no clube, da alegria que nós demos para o torcedor. Foi uma coisa maravilhosa, que a gente não esquece nunca”. Reconhecimento Apesar de nascido em São João de Meriti-RJ, Juary é quase um santista nato. E não apenas pelo time de coração, dividido com o Flamengo. “Eu devo muito ao Santos, que me deu a oportunidade de conquistar tudo o que conquistei. Tenho um amor muito grande ao Santos, eu amo a Cidade. Estou há 53 anos em Santos, vim para cá com 14, completei 67 anos (em junho). Morei fora uns anos, mas sempre tive casa aqui”. Como todo alvinegro que se preze, Juary anda desanimado com o Santos. Para o ex-atacante, o clube vem repetindo os mesmos erros que levaram o time à Série B do Campeonato Brasileiro, em 2023. “Eu vejo um momento conturbado. Parece que nós não aprendemos com os erros. Nós estamos correndo risco, vamos brigar de novo para nos salvar (no Brasileirão). Não vai ser o primeiro ano, vem acontecendo de uns anos para cá, já estivemos na Série B”. Entre os problemas apontados para o momento ruim do Alvinegro é a falta de planejamento. “Não adianta inchar o elenco. Você pode ter um elenco de qualidade com poucos jogadores, a preço baixo. Se eu não estiver errado, a folha de pagamento do Santos é uma das maiores do Brasileirão. Aí alguns dizem que não deveria ter trazido o Neymar. Poxa, se com o Neymar está difícil, imagine sem ele. É complicado”. Ápice Além de marcar o seu nome no Peixe, com o título paulista de 1978, quando também foi o artilheiro do campeonato, com 29 gols, Juary defendeu o Universidad Guadalajara, do México, além de Avellino, Inter de Milão, Ascoli e Cremonese, na Itália. O ápice na carreira foi no Porto, quando marcou o gol do título da Liga dos Campeões da Europa, na vitória por 2 a 1, na final contra o Bayern de Munique, na temporada 1986/87. No mesmo ano, seria campeão no Mundial de Clubes pela equipe portuguesa.