Rodolfo Rodríguez destaca carinho e respeito pelo Santos (Alexsander Ferraz/AT) Ele é o goleiro estrangeiro que mais vezes vestiu a camisa número 1 do Santos. Campeão paulista de 1984, o uruguaio Rodolfo Rodríguez entrou para a galeria de heróis alvinegros. Sempre que vem ao Brasil, o ex-arqueiro de 69 anos visita a Cidade, onde revê amigos e é reverenciado pelos torcedores. Ao longo de quatro anos e 255 partidas (três a mais do que o argentino Cejas), Rodolfo só fica atrás do zagueiro argentino Ramos Delgado, com 321 jogos, entre os gringos que defenderam o Alvinegro, segundo dados do Centro de Memória do Santos. Campeão da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes com o Nacional de Montevidéu, o goleiro foi campeão do Mundialito de 1981 e da Copa América de 1983 pela seleção uruguaia, ambos conquistados sobre o Brasil. Para os santistas, porém, Rodolfo Rodríguez sempre será lembrado pelo título estadual sobre o Corinthians, na vitória por 1 a 0, gol de Serginho Chulapa, no dia 2 de dezembro de 1984, no Morumbi. Outro motivo de orgulho é a sequência histórica de defesas dele, contra o América, de São José do Rio Preto, na Vila Belmiro, em 14 de julho de 1984, motivo pelo qual ele veio ao Brasil, desta vez para participar da gravação de uma matéria especial para a TV Globo. O senhor parou de jogar na temporada de 1994. Não trabalhou mais no futebol? Quando parei, já tinha decidido isso, porque o que gostava no futebol era jogar. Joguei durante 22 anos em times de história. No Nacional, no Santos, na seleção uruguaia. Então, conhecia bastante o futebol e não tinha nenhuma área do esporte, que não fosse jogar, que eu gostasse. Nunca recebeu propostas para trabalhar dentro ou fora de campo? Ninguém me procura porque já sabe o que eu penso. Nem continuar como técnico, treinador de goleiro, diretor, empresário. Aliás, empresário, menos ainda. Às vezes, um amigo fala que tem um jogador. Eu não trabalho nisso. Esse negócio de recomendar um empresário é fácil. Eu posso dar o nome de um cara que vive disso, você conversa com ele, se acerta com ele. Para mim, nada. Se você consegue vender jogador, vai ser milionário, você curte. Eu, nada. O senhor assistiu ao jogo entre Santos e Corinthians, na semifinal do Paulistão? Se sim, o que achou da atuação do Peixe? O primeiro tempo foi equilibrado, o Corinthians não fez muito, mas marcou o gol. O Santos foi até um pouquinho melhor, porque o Corinthians também não foi muito ambicioso. Agora, quando vem o segundo gol do Corinthians, o jogo muda. O Corinthians apertou o Santos, que ficou sem recurso, não tinha como virar o jogo. O Neymar fez muita falta? Eu pensei que até os últimos 15, 20 minutos, ele entraria. Se tem o Neymar, os caras ficam preocupados, precisam colocar dois em cima dele. Como o jogo estava 2 a 1, eu botava (em campo). Só se ele estivesse muito contundido, aí não. O Santos não escalou o Neymar, em razão do incômodo que ele sentia na coxa, mas o manteve no banco. Achou válida a ideia? Se você pensar na preocupação do técnico rival, de que ele possa entrar, é válido. Se ele não está nem no banco, o cara não esquenta a cabeça, mas com ele no banco, você fica de olho para ver se entra ou não entra. As maiores conquistas de sua carreira foram com o Nacional, mas o título paulista do Santos em 1984 é muito valorizado. Foi importante para o senhor também? Sim, principalmente depois que você conhece o futebol brasileiro e a rivalidade entre santistas e corintianos, isso valoriza mais ainda o título. Fazia seis anos que o Santos não era campeão. Logo o Santos, que estava acostumado a ser campeão seguidamente. E, antigamente, o pessoal dava mais importância ao Paulista do que ao Brasileiro. Agora mudou. Era o meu primeiro ano no clube. Naquele tempo, tinha o Torneio Início, que faziam num domingo, o dia todo no Morumbi, e fomos campeões. Comecei com o pé direito. Com quem o senhor tem mais contato daquele time de 1984? Nós temos um grupo de WhatsApp com Zé Sérgio, Humberto, Lino, Coruja (Paulo Robson), Davi, Márcio, Toninho Carlos... E o Serginho Chulapa? Chulapa não, Chulapa é doido, não deve saber mexer no telefone (risos). Tenho um grande carinho por ele, gente boa demais. O senhor sempre vem a Santos, tem identidade com o santista? Sempre que eu posso, quando estou de passagem por São Paulo, venho a Santos, adoro a Cidade. Em qualquer lugar do mundo onde eu esteja, quando encontro um santista. até mesmo no Uruguai, eu sinto esse carinho recíproco. Eu tenho um sentimento de agradecimento muito grande, um respeito pela história do Santos, isso é fundamental. O pessoal também sabe que eu dei tudo ao clube. E amo a cidade de Santos, vejo-a crescer, está diferente. Mas é como a Vila (Belmiro), muda alguma coisa, mas o espírito no entorno é o mesmo. O Santos tem um projeto para transformar a Vila Belmiro numa arena. A ideia te agrada? Pessoalmente não, eu tenho que pensar que o mundo vai evoluindo, mas a história que tem a Vila Belmiro... É como o Maracanã. Jogar no Maracanã há 30 anos era uma coisa, jogar agora é outra. Pessoal que vai jogar no Maracanã não respeita como antigamente respeitava. Eu lembro de entrar em campo e olhar a arquibancada lá em cima. Agora todo mundo fica sentadinho. No Maracanã, você não é visitante, mesmo que tenha muita torcida do time, você está longe, não é o Maracanã que eu vi. E a Vila é a mesma coisa. Se mudar, fica linda, como ficou o estádio do Palmeiras. O Morumbi mudou alguma coisa, mas ficou o espírito do Morumbi. Eu, com tudo o que vivi, com toda a história do clube, com todos os craques que passaram, não sei quanto a mudar tudo. Vamos ser realistas, vai ser difícil encher o estádio jogando um Paulistão, a não ser um clássico, mesmo porque o Santos tem muitos torcedores em São Paulo e não vão vir 15 mil, 20 mil para todo jogo. Na Vila, o senhor protagonizou uma das maiores sequências de defesas na história do futebol, que marcou a sua carreira. Marcou muito, tanto que a matéria que me trouxe ao Brasil, para fazer com o pessoal da Globo, é sobre as jogadas que marcaram a história. Sempre falo que se tivesse que fazer um filme e uma sequência assim, teria que fazer 20 ou 30 vezes porque é difícil. Mas tinha que acontecer, o gramado estava ruim, atrapalhou a mim, mas também atrapalhou os caras. São coisas que acontecem uma vez na vida e é muito difícil ocorrer de novo. O futebol moderno exige que o goleiro jogue com os pés. Ficou muito mais difícil ser goleiro? tenho visto treinamento de goleiro. Os caras treinam tanto a parte técnica, embaixo do gol, como com os pés. No meu tempo não existia isso, é difícil fazer as duas coisas bem, dá trabalho, tem que estar pensando muito. O cara tem que defender, tem que sair jogando, bater bem na bola, dominá-la. Treina isso, mas está perdendo tempo de treinar outra coisa, como saída de gol. Quem são os melhores goleiros do mundo atualmente? Gosto muito do Oblak, do Atlético de Madrid, e do Ter Stegen (Barcelona). E entre os brasileiros? Gosto do Alisson (Liverpool) e do Weverton, do Palmeiras. Como avalia o Gabriel Brazão e o João Paulo, do Santos? O João Paulo teve uma fase muito boa, mas se contundiu. O Brazão não tinha visto, observei contra o Corinthians. É um cara novo e não é fácil deixar o João Paulo no banco. Trata-se de um goleiro arrojado, teria que ver mais jogos para falar sobre ele, mas achei que tem futuro e potencial. A Fifa vai testar, no Mundial de Clubes, a regra que limita em oito segundos a posse de bola do goleiro com as mãos. O que o senhor pensa disso? Perfeito, eu daria seis segundos, agiliza o jogo. Os caras ficam quanto tempo querem com a bola. Outro negócio que precisa mudar é o impedimento, o jogador tem que estar totalmente impedido, acho bom. Agora sempre fica a dúvida, se estava inteiro, se estava um pé. O uso do VAR melhorou o futebol? Acho que não melhorou de acordo com todo o investimento que tem, de aparelho, de mobilizar quatro árbitros. Não melhorou tanto, era para não ter mais polêmica. Na reta final das Eliminatórias da Copa 2026, como vê as seleções sul-americanas? O Uruguai já fez jogo bom, teve jogo ruim, mas ganhou da Argentina jogando bem. Ganhou do Brasil. Tem bons jogadores, mas o (Marcelo) Bielsa ainda não encontrou o time ideal. O Brasil também está à procura do time ideal. A Argentina já tem, com jogadores que há muito tempo atuam juntos. Colômbia e Equador são times chatos. Quais seleções são favoritas na Copa 2026? A Argentina. O Messi já não tem a mesma dinâmica, mas a cabeça é a mesma. E eles têm garra, são comprometidos, sabem o que têm que fazer. A Argentina chega com força para a Copa. Na Europa, a Espanha. A França está mais ou menos e a Inglaterra nunca chega. Para o Brasil não está fácil, pois ainda não tem uma seleção.