[[legacy_image_266458]] O destino de Deivid Washington estava traçado desde quando ele deu os primeiros chutes numa bola em Itumbiara, no interior de Goiás. Pequenininho, o atacante começou a jogar numa escolinha que talvez, não por acaso, se chamava Rei Pelé. Apesar de não ter vínculo com o Santos, foi ali que teve início a conexão do garoto com o Alvinegro Praiano. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Antes de virar mais um Menino da Vila, porém, essa história teve um desvio de curso. O pai de Deivid, Francisco Carlos Eugênio, recebeu convite de um amigo para que o filho fizesse um teste no Grêmio. Corria o ano de 2014 e o garoto, com 8 anos, foi para a capital gaúcha com os pais e a irmã mais nova. Passou no primeiro dia da avaliação, jogando contra meninos dois, três anos mais velhos. Após a aprovação, a família decidiu que Deivid ficaria em Porto Alegre com a mãe, Lúcia Elaine dos Santos, e a irmã, Ana Júlia. O pai, que trabalhava com pulverização de lavouras, voltou para Goiás. Sem suportar a separação forçada por muito tempo e apostando no futuro do filho, ele vendeu a casa e a máquina agrícola, seu ganha-pão, e também partiu rumo ao Sul. Três anos se passaram na capital gaúcha, mas a adaptação foi difícil. “É totalmente diferente o clima, lá é muito frio, né? E na nossa cidade é muito quente. A adaptação foi indo aos poucos, o povo do Sul é muito fechado”, conta Francisco. Em campo, Deivid Washington já se destacava, mas alguma coisa estava fora da ordem. “Eu estava bem, só que no terceiro ano começou a ficar difícil pra nós financeiramente. E outro amigo do meu pai me chamou pra um teste no Santos, time que sempre gostei”, lembra o atacante. Era o destino, mais uma vez, batendo à porta de Deivid e da família. “Santos é mais tudo a ver com o nosso lado, é quente. O santista é bom de papo, conversa fácil”, constata o pai. “Todo menino sonha em vir pro Santos. Nós só fizemos uma curva, né?”, diz a mãe. Aos 11 anos, o à época ponta-esquerda foi aprovado no clube e virou, oficialmente, um Menino da Vila. “Às vezes me colocavam na ponta direita e eu não gostava. Mais para frente me colocaram de centroavante, eu odiava, só que aí fui pegando gosto, fazendo gol e hoje estou aí”, diz ele, com a mesma simplicidade com que assumiu a titularidade no ataque, em lugar de Marcos Leonardo, que está na seleção sub-20. Nas graças da torcida Se já era destaque na base, bastaram poucos minutos no time profissional para que Deivid caísse nas graças da torcida. A estreia foi nos acréscimos do jogo contra o Botafogo, em Ribeirão Preto, pela Copa do Brasil, no dia 12 de abril. No último dia 3, em Rosário, na Argentina, o atacante, que vai fazer 18 anos no dia 5 de junho, impressionou pela desenvoltura no primeiro jogo internacional como profissional, frente ao Newell’s Old Boys. Apesar da derrota santista por 1 a 0, ele quase marcou um golaço. “Eu estava meio desequilibrado, se estivesse com o corpo um pouco mais ajustado, tinha feito”, comenta, sobre o lance em que deixou dois zagueiros para trás e tocou por cima do goleiro. A bola saiu rente à trave. O estádio cheio, “campo minado argentino”, também não foi problema. “É bom jogar assim fora de casa. Mesmo com a torcida xingando”. Não demorou, no entanto, para o primeiro gol no profissional sair. Na quarta-feira passada, contra o Bahia, Deivid anotou logo aos 4 minutos, abrindo o caminho para a vitória por 3 a 0, pelo Brasileirão. “É uma emoção imensa, só tenho a agradecer a Deus e a minha família, que sempre me apoiou. Esse dia vai ficar marcado”, aponta o candidato a artilheiro do Peixe. Tão rápido como se livra dos marcadores, Deivid tem visto as coisas acontecerem em ritmo acelerado na sua vida. “Meses atrás eu estava na base, jogando sub-17, aí subi para o sub-20, Copinha... Conheci o Neymar na Vila! Não consegui nem conversar com o cara, fiquei congelado, só olhando (risos)”, fala, sobre o encontro no jogo contra o Audax Italiano, quando ganhou autógrafo do astro na camisa, guardada com zelo. A família também se impressiona como a vida deu uma guinada. “Parece que foi esses dias que a gente estava em Itumbiara vendo jogador do Santos na televisão. É um misto de ficar sem acreditar e muito grata a Deus por tudo estar dando certo. Apesar de muita dificuldade, nunca saiu da boca dele desistir. Se não era titular, às vezes não entrava, nunca chegou em casa, mesmo chateado, e falou que queria ir embora. Ele dizia: ‘quando voltar para o treino, vou dar mais de mim’. Sempre foi assim”, afirma, emocionada. [[legacy_image_266459]] Caminho aberto, plano traçado Com a confiança do técnico Odair Hellmann para substituir Marcos Leonardo, Deivid recebe apoio até do concorrente Bruno Mezenga, de 34 anos, o dobro de sua idade. “Ele passa muito ensinamento para nós, porque independente de todo mundo estar buscando seu espaço, estamos caminhando juntos”. Se Marcos Leonardo, sondado por clubes europeus, for negociado pelo Santos na janela de julho, a titularidade pode deixar de ser momentânea. Seria mais uma “conspiração” do destino para completar o roteiro, que começou a ser escrito nas peladas no interior goiano. E que tem o protagonista, que recusou proposta do Flamengo, antes de assinar o primeiro contrato profissional com o Peixe, em abril, no comando dessa história e do ataque santista. “Eu já tinha um planejamento desde os 11 anos, quando cheguei aqui. Sempre tive um carinho pelo Santos e falei que queria me tornar jogador profissional e ganhar um título aqui. É minha busca, se Deus quiser vai acontecer”, decreta o camisa 36.