Seo Didi cortou por anos o cabelo do Rei Pelé, seu salão funcionava próximo à Vila Belmiro (Arquivo Pessoal) Santos amanheceu mais silenciosa nesta terça-feira (24). Faleceu, na madrugada, João Araújo, aos 87 anos, conhecido por todos como Seo Didi, o cabeleireiro que não apenas cuidou do visual de Pelé, mas também construiu uma história marcada por afeto, humildade e dedicação às pessoas. Ele morreu no Hospital Beneficência Portuguesa, após complicações decorrentes de duas cirurgias no intestino. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No velório, realizado na própria Beneficência Portuguesa, dezenas de familiares, amigos, clientes e admiradores passaram para se despedir. Sobre o caixão, um gesto carregado de simbolismo: a bandeira do Santos FC, clube do coração de Didi, com uma dedicatória especial do maior amigo que fez na vida: “Ao Didi, com um abração. Pelé”. Era mais do que uma homenagem, era a tradução de uma amizade que atravessou décadas. Conhecido pelo corte clássico feito exclusivamente com tesoura e pente, Seo Didi recusava a modernidade das máquinas. Seu ofício era artesanal, paciente, quase ritualístico. Cada cliente sentava-se não apenas para cortar o cabelo, mas para conversar, desabafar, rir e ouvir histórias que misturavam futebol, vida e memória. A filha Célia Araújo, muito emocionada, contou que o pai nunca se recuperou totalmente da morte de Pelé. “Depois que o Pelé se foi, meu pai se abateu muito. A saúde começou a piorar de um ano para cá. Ele estava cansado, mas sempre foi muito forte”, disse. Aposentado, Didi havia parado de atender no salão apenas no ano passado, após muita insistência da família por conta da diabetes. Internado desde o dia 12 de fevereiro, Didi passou por uma cirurgia e, uma semana depois, precisou de nova intervenção. Apesar de períodos de estabilidade, sofreu uma parada cardiorrespiratória na última madrugada e não resistiu. “A gente sente que ele descansou. Ele estava sereno”, afirmou Célia, entre lágrimas. Didi deixa a esposa Lia Araújo, os filhos Edson, Célia e Fábio, além de uma legião de “filhos de cadeira”, clientes que cresceram sob suas mãos firmes. A filha mais velha do cabeleireiro, Elza, morreu há 12 anos, vítima de doença. Muito abalados A despedida foi especialmente dolorosa para os filhos, que se mostraram profundamente abalados durante todo o velório. Em silêncio, visivelmente emocionados, eles receberam abraços, palavras de conforto e o carinho de dezenas de pessoas que reconheciam no pai não apenas o profissional ligado à história do futebol, mas um homem íntegro, afetuoso e presente. O sofrimento estampado no rosto da família traduzia a dimensão da perda de quem conviveu diariamente com um pai dedicado, simples e generoso. A esposa, Lia, preferiu ter a imagem do companheiro de décadas vivo e preferiu não comparecer ao velório. A nora Marilucia Cruz Feijó também prestou uma homenagem carregada de emoção. Segundo ela, Didi foi mais do que um sogro, foi um verdadeiro segundo pai. “Há 21 anos, eu morria de medo de abrir meu próprio estabelecimento e foi na simplicidade dele que encontrei coragem. Ele sempre me dizia para não trabalhar para terceiros, para acreditar em mim”, contou. Marilucia afirma que muito do que é hoje deve aos conselhos e ao apoio de Didi, especialmente por ter perdido o pai biológico há mais de 40 anos. “Ele me acolheu, me orientou e me deu força. Vou carregar isso para sempre”, disse, emocionada. Por décadas, Didi foi o barbeiro do Rei Pelé; à direita, bandeira do Santos com dedicatória do Rei do Futebol para o amigo (Reprodução e Fabiana Stelina/AT) Clientes amigos Cliente desde a infância, o comerciante Manuel G. Lousada, de 64 anos, resume o que Seo Didi representou para gerações de santistas. Ele contou que começou a cortar o cabelo com Didi ainda menino, levado pelo pai, e nunca mais deixou a cadeira do amigo. “Chegou um tempo em que eu nem ia mais para cortar cabelo, eu ia para conversar. Ele era meu amigo”, recordou. Segundo Manuel, o salão ao lado da Vila Belmiro era um espaço de encontros, histórias e paciência, especialmente quando jornalistas e turistas interrompiam o atendimento. “Ele nunca negou atenção a ninguém”, disse. Apaixonado pelo Santos FC, Didi falava do clube e de Pelé com brilho nos olhos. “Era um homem simples, bom de conversa, um professor da vida. A gente perde um amigo e Santos perde um pedaço da sua história”, completou. Outro cliente que traduziu bem quem era Seo Didi foi Thiago Fernandes, de 41 anos, que frequentou o salão ao longo de diferentes fases da vida. Ele contou que começou a ir de forma esporádica, ainda entre os 20 e 30 anos, e acabou se fidelizando não pela fama de ser o cabeleireiro de Pelé, mas pelo profissionalismo e pela forma como Didi acertava no corte. “Foi o corte que me conquistou”, resumiu. Com o tempo, veio a convivência e a percepção de que o pequeno salão era também um ponto turístico da cidade, repleto de fotos, recortes de jornais e curiosos que paravam para registrar a história viva ao lado da Vila Belmiro. Reservado, paciente e sempre respeitoso, Didi falava pouco e ouvia muito. “Ele era um bom ouvinte. A gente falava mais da nossa vida do que da dele”, lembrou Thiago, que se sentia acolhido a cada visita. Para o cliente, Seo Didi era mais do que um profissional habilidoso: “Ele era patrimônio afetivo de Santos, uma pessoa simples, competente e muito querida, do tipo que fazia a gente se sentir bem só por estar ali naquela cadeira”. Topete famoso do Rei Didi acompanhou a trajetória de Pelé desde a adolescência, em um salão simples próximo à Vila Belmiro. Criou o famoso topete do Rei do Futebol e, muitas vezes, foi buscado por motoristas para cortar o cabelo do amigo em casa. “Ele dizia que só o Didi sabia dar forma ao cabelo dele”, lembram clientes. O Santos FC lamentou oficialmente a morte do barbeiro, destacando que sua barbearia recebeu diversos craques ao longo da história. Já Pepe, o Canhão da Vila, escreveu que o espaço “nunca foi apenas um lugar de vaidade, mas de encontros, risadas e histórias que atravessaram gerações”. Reservado, avesso a holofotes, Didi preferia o anonimato. Trabalhou até idade avançada, atendendo poucos clientes por dia, mais por prazer do que por dinheiro. “Ele trabalhava para não ficar em casa. Para ele, aquilo era a vida”, resumiu um amigo. Seu corpo foi cremado na Memorial Necrópole Ecumênica, no Marapé, o mesmo local onde Pelé foi sepultado. Uma coincidência que emocionou familiares e amigos, como se a história dos dois seguisse entrelaçada até o fim. Mais do que o cabeleireiro do Rei, Seo Didi foi rei na simplicidade, no cuidado e no amor ao próximo. Sua cadeira agora está vazia, mas as histórias, os gestos e o carinho permanecem vivos na memória de Santos.