[[legacy_image_263364]] Quando Palmeiras e Corinthians entrarem em campo neste sábado apenas palmeirenses ocuparão as cadeiras do Allianz Parque. É assim há sete anos no Estado de São Paulo: não existe torcida visitante em clássicos. Foi num dérbi, em 2016, que torcedores rivais dividiram pela última vez um estádio de futebol em São Paulo. Após uma série de eventos violentos entre palmeirenses e corintianos no dia 3 de abril daquele ano, que resultaram em dezenas de feridos e um morto, o Ministério Público (MP-SP), em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) e a Federação Paulista de Futebol (FPF), definiu que as principais rivalidades de São Paulo passariam a ser disputadas com torcida única do mandante. O argumento principal das autoridades era diminuir a violência ligada ao futebol. "Nenhuma medida será mágica, mas acreditamos que esse conjunto será efetivo", afirmou o então secretário de segurança pública Alexandre de Moraes, atualmente ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). A ideia era manter a determinação de forma preventiva até o fim de 2016. Mais de sete anos se passaram e ela segue válida no Estado. "Quando o estádio era dividido meio a meio, levar um gol te derrubava em dobro. Porque você sofria pelo gol tomado e, dois segundos depois, sofria pela comemoração da torcida adversária atravessando o campo e ocupando o estádio inteiro. Isso não existe mais", relembra o palmeirense Fábio Felice, de 33 anos, que frequenta estádios desde os anos 1990 e foi um dos 21.219 torcedores pagantes presentes no Pacaembu no dérbi entre Palmeiras e Corinthians, pelo Paulistão de 2016, o último clássico com duas torcidas dividindo o mesmo palco. O QUE DIZEM OS DADOS SOBRE VIOLÊNCIAMas, afinal, Alexandre de Moraes estava certo? A determinação de que apenas uma torcida pudesse frequentar as arquibancadas diminuiu os conflitos entre torcedores? "A torcida única teve alguma eficácia nos estádios e em áreas próximas, mas não no conjunto das cidades. Nos últimos anos, os conflitos migraram dos estádios e áreas adjacentes para outros pontos", avalia o sociólogo Mauricio Murad, da Universidade Salgado de Oliveira (Universo/RJ), que estuda a violência no futebol há mais de três décadas. Levantamento feito por Murad em sua pesquisa de mestrado mostra que o Brasil atingiu um pico de 159 eventos violentos relacionados ao futebol durante o ano de 2019. Portanto após a adoção da torcida única no Estado de São Paulo, que representa grande parte das ocorrências: cerca de 28% do total desde 2014. "Mais de 90% dos conflitos são fora e bem longe dos estádios. Em horários e até em dias distantes dos jogos", pontua o sociólogo Por outro lado, a Secretaria de Segurança Pública do Estado afirma que o modelo de torcida única resultou em queda de 93% no número de ocorrências nos estádios, entre maio de 2019 e fevereiro de 2020, na comparação com o mesmo período de 2015 e 2016. E aponta ainda dois dados que ajudam a entender bem porque a medida segue respeitada (apesar de não ser aprovada) pelos clubes e bem avaliada pelas forças de segurança: 29% foi o aumento do público presente nos estádios e 36% foi a queda no efetivo militar dentro dos estádios (além de 15% na área externa e 48% nas escoltas policiais) numa comparação entre os 56 jogos anteriores à medida e os 56 jogos realizados com o modelo em vigor. Para Raquel Sousa, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em policiamento e segurança em eventos esportivos, há um problema que transcende o futebol. "Grande parte dos policiais que atuam na segurança dos eventos esportivos no Brasil é lotada nos Batalhões de Policiamento de Choque, pautados em ações reativas", ela avalia. "O policial atua em um jogo hoje, mas no restante da semana ele trabalha exercendo outras funções completamente distintas. Em geral, não há instruções específicas para lidar com as torcidas " CRIME QUE ORIGINOU TORCIDA ÚNICA SEGUE SEM SOLUÇÃOJosé Sinval Batista de Carvalho tinha 53 anos quando morreu. Evangélico, pai de uma filha, baiano de nascimento e morador da zona leste de São Paulo. Não acompanhava futebol, mas seu rosto se tornou o símbolo da adoção da torcida única pelas forças de segurança. Sinval foi morto com um tiro no coração na manhã do clássico entre Palmeiras e Corinthians em 3 de abril de 2016. Era por volta de 10h e ele transitava pela Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, também chamada de Praça do Forró, no bairro de São Miguel Paulista. Lugar e hora errados para ele, já que cerca de 200 torcedores palmeirenses e corintianos se encontraram no local e iniciaram um enorme conflito. Até hoje, não há um responsável pelo disparo que matou Sinval. "Eu me sinto revoltada. Indignada. A Justiça brasileira é lenta. Se nós fôssemos pessoas ricas, influentes, possivelmente teriam resolvido. Mas somos pessoas simples, da periferia", afirma a advogada Selma Carvalho, irmã de Sinval, ao Estadão. O caso tramita na 4ª Vara do Fórum Criminal da Barra Funda, mas ainda em fase de diligências e audiências de testemunhas. Selma aponta que a pandemia, com sessões online e menor tempo de expediente dos magistrados atrasaram ainda mais o processo nos últimos três anos. A morte de Sinval provocou não só a adoção da torcida única no Estado como a Operação Cartão Vermelho, na semana seguinte. A Polícia Civil de São Paulo cumpriu 98 mandados judiciais, entre prisões e buscas, nas sedes das torcidas Gaviões da Fiel e Pavilhão 9, do Corinthians, e Mancha Alviverde, do Palmeiras. Foi a primeira vez que batidas policiais ocorreram ao mesmo tempo nestas torcidas. Sinval era entregador de água e deixou uma filha menor de idade com a ex-mulher. "Meu irmão era religioso. Evangélico. Um cara da paz, um homem alegre, sossegado. Meus filhos, sobrinhos dele, até hoje lembram das brincadeiras que o Sinval fazia. Ele nem sabe por que morreu", diz Selma, emocionada. "É muito difícil. Me sinto impotente e acho muito difícil que se faça justiça nesse caso." A morte de Sinval ocorreu a 32 km do local do jogo entre Palmeiras e Corinthians. E cerca de 6 horas antes de a bola rolar. "É um modelo que sinaliza que essas violências brutais não são do futebol, embora ocorram entre torcedores. São infiltrados que usam o nome das torcidas organizadas, mapeiam as cidades e constroem verdadeiros territórios de guerra, em especial nas periferias", avalia Murad. Uma simples pesquisa no site do Estadão mostra que, mesmo após 2016, casos de briga generalizada entre torcedores continuam acontecendo. Quase sempre distantes dos locais das partidas.