[[legacy_image_196294]] “Que atleta tem uma oportunidade de chegar a uma Olimpíada? Mesmo hoje, com o Brasil se desenvolvendo e com mais estrutura, ser um atleta olímpico ainda é algo muito difícil. Eu sou extremamente grato pela oportunidade de disputar os Jogos Olímpicos. Lutar por uma medalha, então, é algo mais mágico. A gente conta nos dedos aqueles que conseguiram chegar numa Olimpíada e disputar uma medalha. Ganhar um ouro? Meu Deus do céu! Às vezes, eu me pego relembrando aquele dia, principalmente quando estou com alguns amigos e a emoção é forte né?” Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Trinta anos depois, as lembranças de Barcelona continuam emocionando o ex-judoca Rogério Sampaio, campeão olímpico da categoria meio-leve em 1992. Era 1º de agosto quando Rogério derrubou os três primeiros adversários por ippon e chegou na semifinal contra o alemão Udo-Gunter Quellmalz, à época campeão do mundo e considerado o favorito da categoria meio-leve do judô. Foi um momento delicado em solo espanhol, porque enquanto esperava o combate, os pensamentos não deixavam Rogério em paz. “De um lado, havia tranquilidade porque venci os três primeiros judocas e, se eu perdesse, ainda teria como disputar uma medalha. Do outro lado, a preocupação com o adversário em si, considerado o melhor do mundo. Mas eu consegui me concentrar e fui para a luta semifinal”. Rogério enfrentou o judoca da Alemanha com muita personalidade, garra e eficiência. Depois daquela vitória contra o alemão, alguns estrangeiros podiam até continuar desconfiando do surpreendente judoca brasileiro, mas os amigos que estavam na Arena Palau Blaugrana ficavam cada vez mais confiantes no ouro. Especialmente, o técnico Paulo Wanderley (atual presidente do Comitê Olímpico do Brasil, o COB); Aurélio Miguel, campeão olímpico meio-pesado em 1988, em Seul; e Wagner Castropil, que era o judoca da categoria meio-médio da seleção brasileira em Barcelona. Na grande final, Rogério, mesmo com a prata garantida, manteve a estratégia e sua essência de um judô agressivo e envolvente. Lutou com a mesma técnica refinada e concentração, tendo inteligência para saber se defender nos momentos mais difíceis contra o húngaro Jozsef Csak. Obteve uma vitória emocionante. Surpresa? Sorte? Determinação? Cada um tem uma tese, mas a única certeza é que, naquele dia, ninguém derrotaria Rogério, que estava pronto para a consagração. O santista se emocionou ao final da luta e no pódio, ouvindo o Hino Nacional. Dali para frente, começava uma maratona ao lado dos amigos inseparáveis, Aurélio e Castropil, que foram conduzindo o medalhista de ouro para o exame antidoping, a entrevista coletiva, a Vila Olímpica e, depois, em uma caminhada em plena madrugada de Barcelona. Ali, entre uma comemoração e outra, houve a confraternização com atletas e torcedores brasileiros. Momentos que marcaram um dia tão intenso e inesquecível. [[legacy_image_196295]] Lutas fora do tatameSó quem acompanhou de perto a trajetória de Rogério Sampaio sabia bem das histórias que antecederam a conquista da medalha de ouro. Ele chegou na Olimpíada em ritmo menos intenso do que muitos adversários. Afinal, enquanto muitos rivais estavam num circuito europeu ou em treinamentos especiais, Rogério travava outra luta. A da moralização do judô. Junto com os amigos Aurélio Miguel e Wagner Castropil e o irmão Ricardo Sampaio, Rogério levantou uma bandeira. “Foi a bandeira de oposição contra a política do ex-presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Joaquim Mamede, algo que nos uniu muito. O nosso ciclo olímpico foi muito prejudicado por essa questão e ficamos praticamente três anos sem competir. No final, tudo deu certo”, relembra Castropil. Unidos, os judocas venceram aquela batalha e mudaram a história do judô brasileiro. Depois de vencer no campo político do esporte, Rogério enfrentaria o momento mais difícil da vida: a perda do irmão Ricardo Sampaio, melhor amigo e ídolo, em abril de 1991. Para enfrentar a dor da saudade, Rogério decidiu fazer o que mais gostava: treinar. Mais uma vez, a força veio do tatame e dos treinamentos. E ele treinava pelo irmão Ricardo, pelos pais Sidney e Neusa, pela irmã Valéria e pela própria sobrevivência. O resultado viria um ano e quatro meses depois, em uma das vitórias mais emocionantes do esporte brasileiro. Daquele garotinho que, aos 4 anos já treinava com o sensei Paulo Duarte. Um mestre da vida inteira que o orientou desde o início e ensinou o famoso golpe “o-so-to-ga-ri”, que nosso campeão usaria nas lutas históricas em Barcelona e que seria sua marca registrada. [[legacy_image_196296]] Depoimentos Aurélio Miguel - Judoca medalha de ouro na Olimpíada de Seul-1988 e ídolo de Rogério Sampaio“Foi uma Olimpíada da redenção. Do movimento nacional da renovação do judô. Um grupo de atletas, que brigava por melhores condições e transparência na administração da Confederação Brasileira de Judô. Os irmãos Sampaio faziam parte, assim como o Castropil, Paraguassu, João Brigante, Sérgio Pessoa, eu e outros atletas. Tudo para melhorar nossas condições. Foi uma felicidade muito grande três atletas desse grupo chegar em Barcelona: o Castropil, o Sampaio e eu. E tivemos a conquista do Sampaio, que para nós foi a conquista do nosso grupo, daquela luta que nós estávamos fazendo. O Sampaio vinha muito calado, porque ele estava perdendo muito peso nos dias antes da luta. Aí ele conseguiu se pesar dentro dos limites e isso foi bom, porque ele se pesou de manhã e começou a competir mais tarde. Fui lá aquecer com ele. Fiz o aquecimento e fiquei incentivando. Dizia que o penúltimo dia do torneio de judô era o dia da medalha, que foi assim comigo lá em Seul, em1988.Depois dele vencer as três primeiras lutas por ippon, foi para semifinal contra o alemão Quellmalzz, que era campeão mundial. Era muito forte, técnico e canhoteiro, assim como o Sampaio. Aí nós falamos para ele: a final é essa luta. Dê tudo e quando você se sentir cansado, se lembre que o outro está morto e bata de frente. Aí o Sampaio, numa luta muito dura, estratégica, teve superioridade e foi para a decisão. A gente tinha uma certa confiança que ele levaria o ouro, mas quando chegamos no aquecimento, veio todo mundo fazer festa. A experiência que eu tive quatro anos antes foi importante. Todos comemorando: medalha de prata está bom. Mas aí eu falei para o Sampaio: o que vale aqui é ouro. Você está muito próximo disso. Concentre-se e vá com tudo, porque você vai conseguir essa medalha de ouro. Foi uma felicidade muito grande. Depois, veio a final contra o judoca da Hungria. Nela, Rogério foi bem superior e a festa foi grande. Uma felicidade imensurável. A conquista era dele e nossa. Do Brasil. Foi um momento muito bonito, fantástico, maravilhoso”. Walter Carmona - Judoca medalha de bronze na Olimpíada de LosAngeles-1984 “Trinta anos da medalha de ouro do Rogério Sampaio. Que alegria que aquele jovem trouxe para todos os brasileiros. Eu lembro direito daquele moleque alto para a categoria dele, com pernas compridas, usando isso com os golpes de perna para vencer seus adversários magnificamente bem. O Rogério é um campeão, um cara de caráter maravilhoso, que hoje se dedica no Comitê Olímpico para que outros atletas tragam medalhas de ouro para o Brasil no esporte olímpico”. Paulo Wanderley - Técnico de Rogério Sampaio na conquista da medalha de ouro na Olimpíada de Barcelona-1992 e atual presidente do Comitê Olímpico do Brasil(COB). “Sábado,1 o de agosto de 1992, Arena Palau Blaugrana, em Barcelona. Rogério Sampaio campeão olímpico. Falar da emoção dessa data e desse acontecimento – eu como técnico e ele como atleta – é algo redundante para mim. Claro que foi uma grande emoção, mas o que temos que lembrar é que o Rogério, com seu título na Olimpíada de 1992,fez algo inédito até aqui. Faz sete edições consecutivas de Olimpíada que nenhum atleta (judoca) de toda a América consegue o título de campeão olímpico nessa categoria entre os homens. Só mesmo o Rogério Sampaio”. Danielle Zangrando - Disputou a Olimpíada de Atlanta-1996 e Atenas-2004. É namorada de Rogério Sampaio “Falar da conquista da medalha de ouro do Rogério é muito importante porque ela impactou, diretamente, na minha carreira. Eu acompanhei de perto, no mesmo dojô da Associação de Judô Paulo Duarte, o empenho e a dedicação daquele campeão e ídolo. Quando ele subiu no lugar mais alto do pódio, acendeu em mim uma chama de me tornar uma atleta olímpica. Anos depois, eu realizei esse sonho, emAtlanta-1996 eAtenas-2004. Eu sou muito grata por ter a companhia dele e por ele ser um exemplo de dedicação, empenho e resiliência, porque a vida de um atleta de alto rendimento exige tudo isso. Trata-se de um ídolo que depois se tornou um grande amigo, uma referência. E estar ao lado dele hoje, como namorada, também me faz ser grata, porque aprendo diretamente com ele não só as coisas do trabalho, no dia a dia, como também na nossa vida pessoal. Então, muito obrigada e parabéns”. Wagner Castropil - Judoca da categoria meio-pesado na Olimpíada deBarcelona-1992 “Uma das maiores emoções que eu tive na minha vida foi ver o Rogério ganhar amedalha de ouro em Barcelona e poder estar do lado, torcendo e participando de todo o processo. Porque o dia da luta é o grande final de uma trajetória, mas há uma preparação ao longo do ciclo olímpico em que a gente se envolve, treina, sofre e participa junto, até chegar aquele grande momento. A amizade como Rogério vende longa data. De bem antes, quando a gente começou, ainda júniores, viajando para um Campeonato Mundial, em1986, em Roma. E de lá para cá, nossa amizade só cresceu. Quando você treina, quando você está lá suando e se entregando para o teu limite... Eu vi o sofrimento do Rogério Sampaio para bater o peso exato na Olimpíada. De chegar lá. Era bastante sofrido para todos nós e para ele, em particular. O Rogério tinha que pesar 65 kg, o que para ele era desumano. Ele tinha que desidratar. Ficar sem comer alguns dias. Foi a primeira grande coisa que eu lembro desse processo todo. Ele ficou muito fechado, muito concentrado para poder entregar isso. Depois, quando se configurou a chave da competição e a gente foi vendo como ele estava naquele dia e como vinha lutando, fomos vendo o desenrolar da medalha. A luta mais importante foi contra o alemão. Quando ele passou, a gente já percebeu que tinha grande chances de medalha de ouro. Todo esse filme passou na nossa cabeça, na medida em que a gente foi vendo o andamento da competição e o desempenho dele ao longo das lutas. Aquele dia – 1 o de agosto de 1992 – foi um dos mais emocionantes daminha vida”. [[legacy_image_196297]]