Andrea está às vésperas de estrear como técnica da seleção feminina de judô nos Jogos Olímpicos (Reprodução/ Instagram) Andrea Berti está pronta para mais um desafio. A primeira judoca da Baixada Santista a representar a região nos Jogos Olímpicos, em Barcelona-1992, vai repetir a dose como a primeira treinadora do Litoral a comandar a seleção brasileira olímpica feminina. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Andrea possui uma vida dedicada ao esporte e tem dimensão da responsabilidade de ser a treinadora do esporte que mais deu medalhas ao Brasil em Olimpíadas. São 24 até hoje (somando homens e mulheres), quatro de ouro, três de prata e 17 de bronze. Em Paris, Andrea vai dirigir a seleção feminina ao lado de Sarah Menezes, campeã olímpica da categoria ligeiro em Londres-2012. “Eu e a Sarah trabalhamos juntas, mas na hora das lutas cada uma comanda suas atletas”. Neste ciclo olímpico mais curto, Andrea e Sarah tiveram que trabalhar num calendário apertado. “A gente assumiu um ciclo mais curto – por causa da pandemia, os Jogos de Tóquio foram disputados em 2021, e não em 2020. Foi um ciclo bastante desafiador, mas fizemos tudo o que podíamos. Tiramos o melhor das atletas, apesar de todo o cansaço”. Determinada e comprometida com o trabalho, Andrea está otimista para os Jogos de Paris. Ela tem uma equipe forte e experiente com três medalhistas olímpicas: Rafaela Silva, ouro nos Jogos do Rio-2016, Mayra Aguiar, que ganhou bronze em Londres-2012, Rio-2016 e Tóquio-2021, e Ketlelyn Quadros, bronze em Pequim-2008. Também estão na seleção Larissa Pimenta, que esteve nos Jogos de Tóquio, e Beatriz Souza, que vai estrear em Paris. Natasha Ferreira vai ser outra estreante da equipe. Para quem disputou duas Olimpíadas no peso ligeiro, Barcelona (1992) e Atlanta (1996), e foi como reserva em Sydney (2000), Andrea está confiante. “Nós trabalhamos pensando em tudo. Preparação física, psicológica e emocional. Eu procuro motivá-las, desafiá-las. Falo para elas: ‘Meu principal papel aqui é facilitar o caminho para vocês, e vocês são responsáveis pelo que vai acontecer lá dentro, eu tô aqui para ajudar, para orientar por toda minha experiência’”. Andrea se emociona quando olha para trás. “Me sinto uma privilegiada de vivenciar tudo isso, essas experiências. Como atleta a gente depende só da gente. Enfrenta adversários, contusões e muita pressão. Como treinadora é tudo mais difícil ainda. São desafios diferentes, fora as responsabilidades com a família e a vida pessoal. É uma batalha diária. Todo dia a gente está aprendendo”. Andrea Berti pode dizer que já viveu de tudo nos tatames. Como treinadora, se orgulha da equipe do Brasil. “Esse grupo da seleção é bastante gostoso, tem atletas experientes e mais novas, um grupo heterogêneo. Temos nossas dificuldades, mas a gente se diverte bastante. A gente lembra de toda essa vivência e dá bastante risada. Elas me conhecem bem e sabem quando eu gosto ou não gosto do treino. Sou transparente e não consigo disfarçar. Ser treinadora é bastante desafiador. Tenho a minha personalidade e tenho que lidar com a delas. Cada uma tem a sua. Trabalho muito com a individualidade. Procuro respeitar isso, mas a gente depende delas. E elas fizeram o melhor até aqui”. Brincadeira virou coisa séria Desde os 12 anos de idade Andrea Berti viu sua vida mudar. A menina hiperativa gostava de brincar na rua, pulando muro, subindo árvore com o irmão e os primos, na casa da avó Dorcina, em São Vicente. “Eu fui criada no meio dos meninos, sem frescura. Era Maria-moleque mesmo”. Além das brincadeiras infantis, Andrea gostava de viver todas as experiências possíveis. Queria tocar na banda da escola, fazer aulas de pintura e até se aventurar nos treinos de vôlei e basquete, apesar do seu 1m54 de altura. Era tanta atividade que a menina nem percebeu que o destino dela começou a ser traçado na própria rua onde morava (Ernesto de Melo Júnior, no Conjunto do BNH, no bairro da Aparecida, em Santos) e por influência dos vizinhos. “Eu costumo dizer que eu dei muita sorte. De estar com as pessoas certas na hora e no lugar certo”. Andrea explica melhor. “Quando eu falo sorte, quero dizer que morava numa rua que tinha um técnico de judô, o Mário César Coelho, e a irmã dele, a Telma Coelho, que era judoca da seleção. Se eu não morasse ali, talvez eu nunca tivesse conhecido o judô”. Os dois influenciaram toda a vizinhança e o Mário acabou levando todos os meninos da rua para treinarem no Brasil Futebol Clube. “Meu irmão foi primeiro. Depois da escola, eu tinha que passar em frente ao clube para chegar em casa. Aí comecei a ver os treinos e o técnico queria que eu participasse”. Mário César insistiu para que a Andrea também fosse para o tatame. “Mas não havia meninas e eu não me sentia à vontade, até que eu vi que outra vizinha da rua, a Valéria Caramelo, já estava treinando. Aí eu não tinha mais como dar desculpa. O Mário me emprestou o quimono e disse: ‘Vem brincar’, e eu fui brincando. Não parei mais. A verdade é que o Mário e a Telma motivaram todas as crianças da rua”. Do Brasil Futebol Clube, Andrea foi para o Vasco, indicada pelo técnico Mauro Arasaki. “Quem foi me buscar foi o senhor Raul José Guedes, que era o diretor de judô e depois virou meu sogro (risos)”. Ele é pai de Alexsander José Guedes, também judoca e técnico, que se casou com a Andrea. A carreira dela foi seguindo com novos desafios. Foi para o Saldanha com o professor Agostinho Feijó Filho, que além de treinador era psicólogo. “Ele me ajudou muito na época da Olimpíada de Atlanta”. De Santos foi para o Esporte Clube Pinheiros, ainda como atleta. “Lá eu tive como referência o João Gonçalves e o Sérgio Baldijão”. Em cada clube por que passou, com cada treinador, Andrea foi criando o seu próprio perfil de técnica. “Tudo tem a ver com esse embasamento que tive de todos esses profissionais. O Mário César, o Mauro e o sensei Arasaki, Feijózinho, João, Baldijão, e também quando treinei com o Rogério Sampaio e o Ivo Nascimento. Isso também fez parte de toda a minha história de treinamento”. E nessa viagem de lembranças daqueles que a ajudaram a vencer no judô, ela também faz questão de lembrar do sensei Geraldo Bernardes, que a direcionou já na seleção brasileira. “Ele é uma referência por tudo, como treinador, como defensor de uma equipe feminina, que na época ainda não existia. Ele abraçava a gente, brigava pela gente, ele se colocava na frente”. Com tantos mestres, o caminho de Andrea Berti só poderia ser de retornar à seleção brasileira, agora como treinadora e para mais uma Olimpíada. “ Eu sempre fui determinada, e como técnica sou mais rígida e exigente. Eu trabalhei muito com a equipe de base, então a gente vai se especializando e eu levo um pouquinho de cada um. Tive muitas referências boas na minha carreira”.