Há pouco tempo, Juary Jorge dos Santos Filho dirigia pelas ruas de Santos transportando passageiros e contando histórias de uma carreira que o levou dos Meninos da Vila ao topo da Europa. O trabalho como motorista de aplicativo, contou ele a A Tribuna, havia se transformado em uma espécie de terapia durante o enfrentamento à depressão. Agora, aos 67 anos, o ex-camisa 9 inicia um novo capítulo: está de volta ao futebol. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ídolo do Santos, Juary foi anunciado pela Caldense para comandar as categorias de base do clube mineiro. A missão do ex-atacante será trabalhar na formação de jovens jogadores e contribuir para a revelação de novos talentos. O retorno ganha significado especial diante da história contada recentemente pelo próprio Juary a A Tribuna. Afastado do futebol desde que deixou um trabalho nas categorias de base do Santos, no final de 2020, ele revelou que enfrentou um período de depressão e encontrou no volante uma maneira de recuperar a rotina e o contato com outras pessoas. “As pessoas acham que depressão é brincadeira, mas é uma doença carnal e espiritual. Acordava às 10 horas e ia dormir às 3 horas, não levantava da sala para nada, nem para comer”, relatou na ocasião. Foi a esposa quem sugeriu que ele aproveitasse duas coisas de que sempre gostou: dirigir e conversar. “Minha esposa falou: ‘Tu não gosta de dirigir, de conversar com as pessoas? Sai de casa, vai fazer Uber, vai fazer alguma coisa da vida’. Aí eu comecei a fazer e gostei”, contou. Juary passou, então, a circular pelas ruas da cidade que adotou para viver. De passageiro em passageiro, dizia ter recuperado parte do jeito alegre que o caracterizou desde os tempos de jogador. “Para mim é uma terapia, porque eu me reencontrei”, afirmou a A Tribuna. De volta à formação de jogadores A nova função na Caldense representa também um reencontro com uma área que Juary conhece. No Santos, o ex-jogador trabalhou na formação de atletas e comandou equipes das categorias Sub-13 e Sub-17. Agora, a experiência será colocada a serviço das equipes de base da Veterana. A missão tem uma ligação particular com a própria trajetória do ex-atacante. Juary foi um dos grandes representantes da primeira geração que ficou conhecida como “Meninos da Vila”, expressão que décadas depois se tornaria praticamente sinônimo dos jovens talentos revelados pelo Santos. Protagonista dos Meninos da Vila Juary foi um dos principais nomes do time santista campeão paulista de 1978. Naquela edição do Estadual, marcou 29 gols e terminou como artilheiro da competição. O título ganhou importância especial por ter sido o primeiro Campeonato Paulista conquistado pelo Peixe após a era Pelé. Em entrevista a A Tribuna, Juary relembrou o peso daquela geração na reconstrução da identidade santista. “Não tem presente sem passado. Aquela molecada de 1978/79 deixou uma marca. O que vem depois é a continuação daquilo que fizemos. Porque, querendo ou não, aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga”, afirmou. Com a camisa do Santos, Juary disputou 229 partidas oficiais e marcou 101 gols. Ficou conhecido não apenas pela velocidade e pelos gols, mas também pela comemoração característica: depois de balançar as redes, corria e dançava ao redor da bandeirinha de escanteio. Gol que valeu a Europa A carreira de Juary também atravessou o Atlântico. O atacante defendeu Universidad Guadalajara, do México, além de Avellino, Inter de Milão, Ascoli e Cremonese, na Itália. Mas foi em Portugal que viveu um dos momentos mais importantes da trajetória. Pelo Porto, Juary marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões da Europa de 1986/87. O brasileiro entrou durante a partida e fez o gol que garantiu o título europeu ao clube português. No mesmo ano, conquistou também o Mundial de Clubes pelo Porto. Juary ainda participou de outro capítulo histórico do futebol. Em 1977, esteve em campo na despedida de Pelé, realizada nos Estados Unidos. Novo capítulo aos 67 anos Apesar de ter nascido em São João de Meriti, no Rio de Janeiro, Juary construiu uma relação profunda com Santos. Chegou à cidade aos 14 anos e, mesmo após períodos vivendo no exterior por causa do futebol, manteve seus vínculos com o município. “Eu devo muito ao Santos, que me deu a oportunidade de conquistar tudo o que conquistei. Tenho um amor muito grande ao Santos, eu amo a Cidade”, disse a A Tribuna. Na entrevista, ao falar sobre a fase em que trabalhava como motorista de aplicativo, Juary também demonstrava entender que a vida depois dos gramados precisava encontrar novos caminhos. “Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso. Eu tenho orgulho daquilo que eu fiz, dos momentos que passei no clube, da alegria que nós demos para o torcedor. Foi uma coisa maravilhosa, que a gente não esquece nunca.” Agora, o futebol voltou a fazer parte do presente. Mais de cinco anos depois de deixar seu último trabalho nas categorias de base do Santos, Juary terá novamente a missão de trabalhar diretamente com jovens jogadores — justamente ele, um dos nomes que ajudaram a transformar uma geração de garotos em parte da história do Peixe.