[[legacy_image_353711]] Se a Jovem Guarda, com Roberto Carlos à frente, consagrou as jovens tardes de domingo, que nunca mais foram as mesmas, o que dizer das manhãs de domingo pilotadas por Ayrton Senna da Silva? Quantas vitórias espetaculares, ultrapassagens impossíveis, talento na chuva... Sem falar nos três títulos de Fórmula 1. Porém, foi também em uma manhã de domingo, mais precisamente 1o de maio de 1994, que o Brasil e o mundo se despediram tragicamente do ícone. Passados 30 anos, a imagem de Senna entrando na curva Tamburello, do circuito de Ímola, no GP de San Marino, como se fosse uma reta, e batendo forte no muro com a Williams, permanece viva na memória não apenas de fãs do piloto ou de entusiastas da Fórmula 1, mas de praticamente todo mundo que viveu aquele dia. “Não é necessário lembrar. Cada brasileiro sabe. E muitos continuam sentindo, 30 anos depois, como foi aquele 1o de maio de 1994: o lugar onde estava, as palavras que pronunciou, o vazio que o capacete imóvel abriu no peito, a angústia do resgate inútil, os pés alinhados e caídos, a mancha vermelha no chão de cimento branco, o domingo desfeito em perplexidade e o baque definitivo, no meio da tarde, direto do Hospital Maggiore, em Bolonha”, afirma o jornalista Ernesto Rodrigues, autor do livro Ayrton: o herói revelado. A morte do piloto trouxe reflexos. Uma série de mudanças em aspectos de segurança foi executada na Fórmula 1 de lá para cá. Conjuntos do carro foram aperfeiçoados para evitar que novos acidentes fatais ocorressem. Em 30 anos, a categoria teve somente um acidente que levou à morte de um piloto, o francês Jules Bianchi, no GP do Japão de 2014, o que introduziu outras alterações. Atualmente, os carros possuem estruturas que protegem o corpo do piloto, da cabeça aos pés. O bico, as laterais do cockpit e a traseira têm reforços capazes de absorver o impacto em caso de batida. Materiais como as fibras sintéticas kevlar e zylon tornaram a F-1 um campeonato mais seguro. Além da tradicional barreira de pneus, a F-1 incorporou há alguns anos uma nova barreira, chamada TecPro, agilizou seu procedimento de atendimento a pilotos acidentados, aumentou áreas de escape e proteção nas pistas mundo afora. Uma reivindicação de Senna na véspera de sua morte foi a limitação da velocidade dos carros nos boxes. A ideia foi colocada em prática depois e, atualmente, é de 80 km/h, com algumas exceções, como Mônaco, em que o pit lane é mais estreito, e o limite passa a 60 km/h. Por causa do acidente fatal de Jules Bianchi em Suzuka, a Fórmula 1 criou um safety car virtual (VSC, sigla em inglês). Caso haja algum acidente ou problema na pista de menor grau, os carros diminuem o ritmo de volta em 30% a 40% para evitar que permaneçam em alta velocidade mesmo sob bandeira amarela. Palco da tragédia de Senna, o Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, passou por transformações no traçado. Um dos mais velozes e perigosos, ele voltou a fazer parte do circo da Fórmula 1 durante a pandemia de covid-19, em 2020, após 13 anos fora do calendário. O circuito alterou a curva Tamburello para uma chicane, obrigando frenagem dos carros. A curva Villeneuve, onde o austríaco Roland Ratzenberger morreu naquele mesmo fim de semana fatídico, porém no treino de sábado, se tornou uma variante. Entre os principais equipamentos obrigatórios de um piloto de Fórmula 1 está o Hans (head and neck support, que significa apoio de cabeça e pescoço), desde 2003. Ele fica preso ao capacete e sustenta a cabeça e o pescoço do piloto para que não aconteça o mesmo que passou com Senna com o impacto do braço da suspensão do carro, que acertou seu capacete e provocou uma fratura da base do crânio. Capacete e célula de sobrevivência foram aperfeiçoados para resistir a maiores impactos e reduzir os danos ao piloto em caso de acidente. As laterais do carro foram elevadas. Anteriormente, o piloto ficava com os ombros expostos fora do cockpit, agora a proteção é maior. O macacão tem como uma das principais missões impedir que o piloto se queime se o carro incendiar, luvas e sapatilhas seguem o mesmo padrão. Uma das mais importantes medidas de segurança foi a adoção do Halo após muitos testes e motivada principalmente pelo acidente de Felipe Massa, na Hungria, em 2009, em que foi atingido na cabeça por uma mola solta do carro de Rubens Barrichello. O item se tornou obrigatório apenas em 2018 e já salvou algumas vidas na Fórmula 1, entre elas a do francês Romain Grosjean e a do heptacampeão Lewis Hamilton. MarcaA influência de Ayrton Senna, mesmo 30 anos depois de sua morte, pode ser notada dentro e fora das pistas. Está num adesivo no para-choque de carro, num pacote de frutas no supermercado, num tênis ou numa camisa de etiqueta famosa. A marca do piloto é vista em todo lugar, em diferentes áreas da sociedade, e em processo de crescimento. E agora desbrava um novo e poderoso mercado: os Estados Unidos. “O Senna está ficando famoso nos Estados Unidos, acredite se quiser”, disse Bianca Senna, sobrinha do ídolo. “O mercado americano não tinha muito interesse em Fórmula 1, mas começou a ter nos últimos quatro anos. E porque os pilotos falam muito do Senna, principalmente o Lewis Hamilton, as novas gerações que são fãs dos pilotos de hoje acabam querendo saber quem é o Ayrton. E isso se transfere, passa de geração para geração. Vai acontecendo de forma orgânica”. No ano passado, a Senna Brands encomendou pesquisa sobre a popularidade do ídolo em 14 países. Neste grupo avaliado, os Estados Unidos é onde há maior interesse recente no brasileiro, nos últimos cinco anos ou menos. Em muitas destas nações, o interesse pelo tricampeão mundial é maior do que pela Fórmula 1 e do que pelo automobilismo em geral, de acordo com a pesquisa. A força do tricampeão mundial até hoje pode ser medida por uma cifra, já desatualizada. Em 2019, Bianca estimou que a marca Senna já rendeu cerca US\$ 2 bilhões (cerca de R\$ 8,3 bilhões no câmbio da época) desde a sua criação, em 1990. A sobrinha do ídolo acredita que a cifra receberá uma boa atualização no próximo ano, após a marca se consolidar no mercado americano. Pilotos reverenciamAyrton Senna carrega uma legião de fãs mesmo três décadas após a sua morte. Tricampeão da Fórmula 1 pela McLaren, o piloto vem recebendo seguidas homenagens pelo legado que deixou nas pistas. Ele ainda desperta um fascínio pela maneira com que encarava os desafios na carreira. Essa herança, documentada pelas transmissões das corridas, ou ainda em programas especiais com a participação de Senna, povoam as lembranças, principalmente, de quem está ligado ao automobilismo. Felipe Massa, ex-piloto da Ferrari, tinha apenas 13 anos quando Senna bateu no muro e sofreu o acidente fatal na Itália. Quando começou a dar os primeiros passos na carreira, ele teve em Ayrton a sua grande inspiração. “Quando estava começando, todas as categorias na Europa tinham um piloto brasileiro. Todos queriam chegar à Fórmula 1. Percebi esse respeito e acredito que essa tenha sido uma das grandes marcas deixadas pelo Senna”, comentou. Além da empatia com o povo brasileiro, Massa destacou mais outra característica que o tricampeão passou a seus fãs. “A maior mensagem deixada por ele foi a importância da dedicação, do trabalho incessante, da motivação e da vontade de vencer que ele tinha”, afirmou. Dia tristeMaior campeão da Stock Car, Ingo Hoffmann também foi impactado pela perda de Ayrton Senna. Passadas três décadas, ele ainda lembra de um dos dias mais tristes do esporte mundial. “Estava disputando um campeonato em Brasília. A notícia do acidente veio de manhã, durante o treino de aquecimento. Quando foi confirmada a morte, a corrida nem aconteceu. Fizemos uma volta em homenagem e retornamos ao box. Um momento extremamente chocante para todos nós”, recordou. Nova geraçãoBoa parte da geração nascida nos anos 2000, e que inicia a fase profissional no automobilismo, carrega a figura de Senna como uma referência. É o caso, por exemplo, de Zezinho Muggiati, o mais novo piloto do grid da Stock Car. “Sempre levo comigo uma homenagem a ele no design do meu capacete. E ainda que eu não o tenha visto pilotar, Senna é muito importante na minha carreira. Sou muito concentrado no que faço e acredito que essa dedicação era o que o Senna tinha de sobra. É o que tentava ensinar para todos”. Outra dimensão do legado de Ayrton é a forma como os brasileiros enxergavam as façanhas de seus heróis. Lucas Moraes, destaque no Rally Dakar, foi impactado pela reação da família. “Achei em um armário da minha mãe uma pilha de fitas VHS. Comecei a assistir e eram programas de TV e homenagens que Senna recebeu após a morte. Aquilo me marcou muito”, contou o piloto.