"Quando eu falei que queria virar brasileiro, meu pai era veementemente contra. Mas nunca falou que eu não deveria virar brasileiro”, diz Fininho (Reprodução/ Instagram) Acostumado a ser referência nos comentários de tênis na TV e nas redes sociais, Fernando Meligeni está cada vez mais à vontade para compartilhar ideias e boas histórias também nos livros. Aos 53 anos, o ex-tenista lança sua quarta obra, com o título As Decisões do Coração Estão Sempre Certas, em parceria com o jornalista André Kfouri, pela Editora Sextante. Nela, o argentino naturalizado brasileiro detalha os aprendizados que obteve com seu pai, o fotógrafo Osvaldo Meligeni - que morreu em 2015, aos 73 anos -, e fala sobre o bullying que viveu em solo brasileiro por ter nascido na Argentina. Como surgiu a ideia do livro? Tudo vem de uma conversa com o meu pai, de devolver ao tênis tudo o que aprendi. Nos últimos tempos, tenho colocado na minha vida os ensinamentos do meu pai. Tem um pouco de saudade também, um pouco de referência, um pouco do meu momento de pai que vivo agora. Como classificar a obra? Quem me conhece sabe que fujo dos rótulos e dos extremos. Quando escrevia, pensava a obra mais como uma homenagem ao meu pai. Tudo o que sou é graças a meu pai e minha mãe. Tive que tomar cuidado porque é uma obra muito voltada a ele. Se eu fizesse um livro da minha mãe, seria sobre minha fortaleza, minha força, de não me não me entregar, não me render. Quando você fala em força, se refere aos episódios de bullying? Um dos pontos mais importantes desse livro, sem revanchismo nenhum, e poucas vezes falei sobre esse assunto, é o bullying. Eu me refiro a situações como as que minha mãe viveu, ao sair chorando de uma confederação porque os caras ‘enchiam’ a cabeça dela e do meu pai por eu ser argentino. Minha mãe tem uma importância por esse lado. E esse livro foi feito mais pelo lado de ensinamento da relação pai e filho. A ideia era realmente sair do tênis. Não é um livro para tenista, mas é para tenista. Não é um livro para os pais de tenistas, mas é para todo pai. Não é autoajuda, mas é autoajuda. No livro, você diz não lembrar a data da morte do seu pai. Isso é louco. Toda vez que eu preciso responder a essa pergunta, recorro à minha irmã. Pergunto o dia e o ano, porque eu não sei. Se você me perguntar quantos anos ele tinha, não vou te responder rapidamente porque não sei. Não sei se é uma trava pessoal. É meio louco isso porque, para a família, é como se ele não tivesse morrido. Porque ele acompanha a gente, as nossas decisões, mas sem sofrimento, sem saudosismo, apenas uma coisa agradável. Escrever esta obra foi um processo terapêutico para você? Eu nunca fiz terapia, nunca fui no psicólogo, nem na época que jogava. Vivo muito o momento, com muita intensidade. Se eu fico triste, é naquele momento, não carrego comigo. Vejo o livro mais como uma homenagem ao meu pai, um lembrete do que falta no mundo. Falta um pouco mais de Osvaldo no mundo. Ele era extremamente rigoroso no fazer o certo, no ser justo, no ter índole, mas ao mesmo tempo eu podia fazer o que eu quisesse. E ele sentava para conversar comigo (para me orientar). Quando eu falei que queria virar brasileiro, meu pai era veementemente contra. Mas nunca falou que eu não deveria virar brasileiro. Seu pai te disse para devolver ao tênis tudo o que você aprendeu em sua carreira. O livro é uma parte dessa ‘devolução’? Nunca imaginei escrever quatro livros, eu parei de estudar na oitava série. Pensar que hoje eu sou um cara que muita gente para na rua por causa da escrita, sendo que eu não sou jornalista, e sim um comentarista de tênis que gosta de escrever... E nem acho que escrevo tão bem. Escrevo com o coração, é uma outra escrita. Existe um mundo diferente entre o cara que sabe que é um baita de um escritor e o cara que traz emoção na escrita. Eu trago emoção. Você também escreve bastante nas redes sociais... Acho que 70% do que eu escrevo no dia a dia é de histórias que escutei, adaptei e quero mandar um recado. As pessoas que mais me alimentam são os meus sobrinhos (os tenistas profissionais Carol e Felipe Meligeni). Às vezes, recebo mensagem da minha sobrinha, que pergunta: ‘essa foi para mim, né, tio?’ Sim, foi (risos). Mas eu não botei o nome dela. Minha esposa já me sugeriu escrever um romance. Não sei se tenho competência. Quem sabe um dia... Você se tornou referência em comentários, com participação na TV, podcast, clínicas, livros. Como você lida com esse status? Eu tive que me reinventar. Quando você para de jogar, as pessoas falam que você morre duas vezes, meio chavão. Quando você para de jogar, tem que se reinventar. Se isso não for feito, a única coisa que sobra é dar aula de tênis, o que não é demérito. Mas eu não posso bater na porta dos meus patrocinadores e pedir para ser contratado apenas porque joguei bem tênis. Fui fazendo coisas que eu gosto. Aí vieram clínicas, talk show, podcast. Gosto de fazer essas coisas. Aí me falaram para fazer palestra: não gosto. Jogar com empresários e ganhar uma grana? Não gosto. Curto projetos novos. Fiz um aplicativo de tênis que não deu certo. Fiz um curso on-line que precisei parar por um problema de saúde na família do meu sócio. Mas tenho muito orgulho dos meus projetos. Enquanto conversamos, lembrei de coisas que meu pai dizia, como ‘eu prefiro muito mais ter um filho legal do que um filho campeão’. Não me interessa ter um filho melhor do mundo se ele for um babaca.