Icônica, Hortência é a primeira brasileira a entrar para o Hall da Fama do basquete mundial, em 2005 (Danielle Andrede/Divulgação) Fora das duas últimas edições dos Jogos Olímpicos, o basquete feminino precisa passar por uma revolução, amparada por uma gestão profissional que promova a reformulação a partir de um intenso trabalho nas categorias de base. A opinião é da melhor jogadora brasileira de todos os tempos, Hortência, de 65 anos, que participou em dezembro do 1º Congresso Futebol e Finanças, em Santos. “Eu acho que o basquete nunca teve uma gestão profissional. Tanto é que nós éramos o segundo esporte do Brasil e o vôlei tomou o nosso espaço. Surgimos a Paula, eu, a Janeth e, através dos nossos próprios esforços, do trabalho dos nossos clubes, pudemos chegar lá. Material humano tem, o que precisa é fazer uma gestão”, apontou a Rainha do Basquete. Para a maior cestinha da história da seleção, com 3.160 pontos, a modalidade necessita de um planejamento a longo prazo para voltar a ter uma seleção competitiva, que consiga repetir os feitos da melhor geração nacional, campeã pan-americana, em 1991, e medalha de prata nos Jogos de Atlanta, em 1996, além de campeã mundial em 1994. “Vamos dar dois passos atrás para dar quatro, cinco, seis lá na frente. Começar um trabalho de base bem forte. Eu não preciso querer resultado agora, vamos fazer daqui dez, 15 anos, porque já faz duas Olimpíadas que não vamos. Vamos começar de novo, mas de maneira correta, planejada, porque se não vamos ficar vendendo o almoço para comer o jantar a vida inteira”. Dirigente? A curto prazo, não Primeira brasileira a entrar para o Hall da Fama do basquete mundial, em 2005, Hortência integra a Comissão de Atletas do Comitê Olímpico do Brasil (COB), a Comissão de Atletas do Ministério do Esporte e os movimentos Pacto Pelo Esporte e Atletas pela Cidadania, mas não se vê como dirigente. Ao menos, a curto prazo. “Tempos atrás, o dirigente ficava lá (no cargo) até quando quisesse sair. Hoje não, tem uma lei. Se ele recebe dinheiro público, fica quatro anos e só pode se eleger mais uma vez. Já está melhorando, mas tem muito ainda a melhorar”, avaliou a Rainha, que apoiou o candidato eleito à presidência do COB, Marco La Porta, que toma posse em janeiro. “Não quero cargo nenhum, a minha vida já é uma loucura, eu já ajudo o esporte brasileiro”. Questionada se toparia o desafio de comandar a Confederação Brasileira de Basquete, ela lembrou da passagem como diretora de seleções, entre 2009 e 2013. “Não gostei da maneira que vi as coisas sendo feitas lá dentro. Eu tenho meu nome a zelar, a minha credibilidade, que construí durante anos”, disse Hortência, ponderando que não poderia afirmar que “dessa água não beberei”. A escola como base ao esporte Dentro da proposta da Rainha de ‘refundar’ o basquete feminino brasileiro, ela vê a iniciação esportiva nas escolas como fundamental, não apenas para a sua modalidade, mas para a criação de uma cultura olímpica no País. “Eu comecei o esporte dentro da escola, na aula de educação física. Hoje, 60% das escolas no País não têm quadra poliesportiva. Como é que você vai montar uma nação (esportiva), que tem mais de 200 milhões de habitantes, se ganhamos 20 medalhas? Eu não acho que isso é um sucesso”, criticou. Na visão de Hortência, o fomento de uma nação olímpica também não significa que o foco nas crianças deve ser direcionado à formação de atletas de alto rendimento. “Você vai oferecer o esporte porque não quer que ela seja sedentária, quer que ela deguste os esportes. Você oferece, como ofereceram para mim, o atletismo, o futebol, o voleibol... e eu gostei do basquete. Não precisa ser campeão, mas pelo menos se divertir, ter disciplina, planejamento, saber ganhar, saber perder. Tudo isso o esporte ensina para a criança”.