O sorriso fácil, o jeito comunicativo e a paciência para orientar empresários dentro da quadra contrastam com a rotina intensa de um tenista profissional. Aos 37 anos, Marcelo Demoliner acumula quase duas décadas no circuito mundial e muitas histórias fora das quatro linhas. Na manhã desta sexta-feira (8), no Tênis Clube de Santos, o gaúcho de Caxias do Sul comandou uma clínica voltada a empresários e patrocinadores do ATP Challenger 50, que vai definir o campeão amanhã, após uma semana de disputas entre tenistas brasileiros e estrangeiros. Entre orientações sobre saque, posicionamento e estratégias usadas nas duplas, Demoliner fez questão de compartilhar algo além da técnica: o amor pelo tênis. “Quanto mais as pessoas jogarem tênis no Brasil, mais o esporte cresce”, afirmou. Especialista em duplas, ele está no 76º lugar do ranking mundial da ATP, mas antes construiu uma trajetória sólida no circuito internacional. Entre os principais resultados da carreira estão a medalha de ouro nas duplas masculinas e a prata nas duplas mistas nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, em 2023, além de participações em Olimpíadas e campanhas de destaque em Grand Slams. Por trás das conquistas, no entanto, existe uma rotina marcada por viagens constantes, fusos horários, desgaste físico e distância da família. “O tênis é um esporte muito solitário”, resumiu. Origens Demoliner costuma dizer que começou a jogar “na barriga da mãe”. O avô ensinou os pais dele a praticarem o esporte, e a infância foi passada praticamente dentro de clubes e quadras. O talento apareceu cedo e, aos 14 anos, ele deixou a família em Caxias do Sul para perseguir o sonho de se tornar profissional. “Imagina uma mãe deixar um menino de 14 anos sair de casa. Foi um amadurecimento muito grande”. A profissionalização veio em 2006. Desde então, vieram torneios pelo mundo, títulos e experiências que moldaram sua visão sobre o esporte. “No futebol, o jogador tem salário. No tênis, não. Se perde, não recebe. Se está lesionado, também não”, lembra. Inspiração Desde garoto, Demoliner buscou inspiração nos grandes nomes do tênis. “Meu ídolo maior sempre foi o Pete Sampras. Eu tentava imitar tudo dele: o saque, a postura, até a forma de tirar o suor. Nessa época não tínhamos redes sociais, só a TV, então ele era referência absoluta. Depois, vieram o Guga e, mais recentemente, o Roger Federer, que também marcaram muito minha trajetória”, contou. Foi justamente para mostrar os bastidores pouco conhecidos do circuito que o tenista passou a produzir conteúdo nas redes sociais, onde reúne mais de 130 mil seguidores no Instagram. Desde 2019, ele compartilha viagens, rotina de torneios, deslocamentos e os desafios físicos e mentais da profissão. “As pessoas só veem o jogo na TV. Não veem os voos longos, o cansaço, a pressão. Tento mostrar a rotina no canal”, explicou. A rotina inclui cerca de 40 semanas por ano longe do Brasil. Nos próximos dias, ele embarca para a Europa, onde disputará dois Grand Slams: Roland Garros e Wimbledon. “Às vezes, teu corpo não entende nada. Você chega de uma viagem longa e já precisa competir. É um desafio. Depois de tanto anos de experiência, a gente acostuma, mas é uma longa trajetória”. Dificuldade Em 2021, Demoliner enfrentou um dos períodos mais difíceis da carreira. Após uma cirurgia no joelho malsucedida, precisou passar por um novo procedimento e ficou quase dois anos tentando recuperar o alto nível. “Foi muito pesado mentalmente. Ficar sem competir e, no tênis, sem jogar, se não joga, não ganha”, adverte ele sobre as particularidades do esporte. Segundo ele, o apoio de patrocinadores foi decisivo para atravessar o período de recuperação. Depois de 20 anos viajando o mundo, o tenista admite que as prioridades mudaram. Casado há 15 anos com Loise Demoliner, ele afirma que a distância da família hoje pesa mais do que qualquer desgaste físico. “O mais difícil, atualmente, é ficar longe dela”. Mesmo pensando em reduzir o ritmo nos próximos anos, Demoliner ainda se vê dentro das quadras. Paralelamente à carreira, já iniciou projetos para o pós-tênis: criou uma marca de bolas esportivas, participa de negócios e administra trabalhos na televisão. “Quero continuar ajudando no mundo do tênis.” Bom humor Durante a clínica realizada em Santos, ele alternou orientações técnicas com histórias bem-humoradas do circuito, arrancando risadas dos participantes. Falava sobre o esporte com o mesmo entusiasmo de quem ainda carrega o brilho da infância. Mesmo pensando no futuro, ele garante que ainda sente prazer em competir e buscar vitórias e títulos. “O tênis não é para qualquer um. Mas, eu ainda amo estar em quadra”. Trajetória Nas duplas, em novembro de 2017, Marcelo Demoliner alcançou sua melhor colocação (34º lugar do ranking mundial da ATP). Conquistou seu primeiro título ATP de duplas em 2018, no ATP 250 de Antália, após ter sido vice-campeão em seis oportunidades. De lá para cá, já conquistou três torneios de nível ATP. Também em duplas, já foi vice-campeão do ATP 500 de Viena. Ao lado de Maria Jose Martinez Sanchez, alcançou duas semifinais de Grand Slam nas duplas mistas, no US Open 2017 e Australian Open 2018. Demoliner é profissional desde 2006.