A Copa do Mundo começa oficialmente na quinta-feira. Mas, para quem curte figurinhas, há algumas semanas o assunto é o mesmo: o álbum que traz os jogadores (ou nem todos) que atuarão nos gramados do México, Estados Unidos e Canadá. É mais um exemplo de uma febre que, no País, tem quase 80 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pois o jornalista Marcelo Duarte tratou de colocar em livro todas as figurinhas de Copas lançadas no Brasil desde 1934: o Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas (Panda Books, 152 páginas). Lançada em abril, a publicação já está na terceira edição. Para o autor, foi a concretização de uma meta. “Coloquei como um desafio publicar as capas de todos os álbuns de figurinhas lançados no Brasil. E não só os comprados em banca, mas os que vinham em produtos, fosse a caixa de cereal, dentro do salgadinho, embrulhando chiclete ou em promoção de posto de gasolina”, afirma Duarte. Segundo ele, a pesquisa levou cerca de 1 ano e teve ajuda de uma rede de colecionadores, que abriram seus acervos para o álbum. “Foi um desafio, porque comecei com um que eu conhecia, que me apresentou o outro, e assim por diante. Então, fui conseguindo ver, dentro da coleção de cada um, como essa história ia ser contada. E são pessoas que conhecem muito. Tem muita criança que acha que quem inventou o álbum de figurinhas foi a Panini. Há muita história antes”. Para os registros, Marcelo Duarte convocou o fotógrafo Alexandre Batibugli, com quem trabalhou na Revista Placar. Enquanto as imagens eram feitas, o autor anotava todos os detalhes de cada álbum, do número de cromos às datas de lançamento, entre outras informações. O resultado é um mapa fiel, digno de colecionador. “Como os álbuns são muito parecidos, queria pegar sempre um aspecto curioso de cada um, para não ficar repetindo as mesmas informações. Todos os álbuns que estão aqui, todas as figurinhas, alguns são pôsteres de promoção, folhetos, tabelas, ou seja, tudo que está no álbum, eu peguei, folheei, anotei e a gente fotografou”, garante. Longevo As primeiras figurinhas de futebol apareceram timidamente em 1919. O primeiro álbum de Copa do Mundo foi lançado no Uruguai, pelas Balas Glorieta, em 1932. No Brasil, só começaram a ser publicados em 1950 – e o mais especial de todos foi justamente o das famosas Balas Futebol. “Meu pai tinha 15 anos quando a Balas Futebol traz o primeiro álbum de figurinhas com todos os times que disputaram uma Copa e todos os jogadores, no modelo que a gente vê hoje. Ele dizia que a bala era muito ruim. Tanto que pegava a figurinha e a jogava fora”, conta o autor, que achava que era caso isolado de promoção. Durante a pesquisa, viu que não era bem assim. “Tinha uma quantidade absurda de balas, com nomes meio futebolísticos, esportivos, que faziam figurinhas de jogadores. Desde 1919, as balas Sport já faziam figurinhas de jogadores”, descreve. Desde então, entre álbuns e figurinhas de diversos formatos, o amor pela coleção de jogadores que brilharam no principal torneio de futebol do mundo só cresceu, chegando a lotar shoppings e até estádios, como ocorreu recentemente no Chile. Para Marcelo Duarte, a troca de figurinhas é uma forma de interação social necessária em tempos digitais. “O lançamento do álbum é o pontapé inicial no assunto Copa. E isso faz com que você ache que, se não colecionar, é um cara fora do seu tempo. Todo mundo quer participar dessa conversa”, complementa. E lançam sempre a célebre pergunta: “Tem pra troca?”. Uma marca de chiclete já deu as cartas das coleções dos mundiais Antes dos álbuns produzidos pela italiana Panini serem os principais do gênero, quem queria ver os craques dos Mundiais tinha que recorrer aos chicletes – ainda que nem sempre fossem mascados. Os álbuns Ping Pong viraram febre de 1980 até meados dos anos 1990 e marcaram uma geração de colecionadores. “A empresa vinha de um sucesso de vendas com a coleção Futebol Cards. Ela nasceu no final da década de 1970, baseada nos cards de beisebol nos Estados Unidos e eram vendidos em alguns estados. Depois, veio outra coleção, de Grandes Jogos. E, em 1982, o álbum de figurinhas da Copa, com muitas informações. Tinha até um tutorial de como jogar bafo (disputa em que os jogadores batem a mão em cima de um monte de cartas ou figurinhas para virá-las)”, recorda Marcelo Duarte. Também na década de 1980, o álbum Olé, que era majoritariamente de clubes, tinha um espaço para que o colecionador formasse a sua Seleção Brasileira ideal – eram apenas 11 espaços para cromos e um número maior de atletas. “Era uma época quando não havia preocupação com licenciamento junto à Fifa. Assim, havia muitos players, com diferentes tipos de produto. Foi em 1998 que isso mudou”, acrescenta o jornalista. (Reprodução) Era Panini e o fim anunciado Em 1990, a Copa do Mundo ganhou seu ar globalizado na Itália. Produzido em vários idiomas, a publicação da Panini, em parceria com a Editora Abril, deu as cartas do que temos até hoje em termos de álbum dos mundiais. “Quando a Abril perde a parceria com a Panini, eles criam o álbum Copa Disney entre 2002 e 2014. Você conta a história da Copa usando personagens da Disney. Teve até a Turma da Mônica contando a história da Copa. Mas o álbum de figurinha com jogador, com seleção e símbolos da FIFA, só a Panini, e em breve nem mais ela”, cita. A partir de 2031, caberá à Fanatics Collectibles, por meio da divisão conhecida como Topps, a produção de álbuns de figurinhas, cards colecionáveis e jogos de cartas. Enquanto isso, o álbum atual, com suas 980 figurinhas, segue mobilizando crianças e (muitos) adultos. “Tem um movimento muito legal, de parar uma pessoa que você nunca viu na vida, um olhar o bolinho da outra e separar, e você aju</CW>dar, ‘Me dá duas eu te dou uma’. Assim, passei a completar todos os álbuns”, emenda Marcelo Duarte. Existe Apesar do estrondoso sucesso do álbum do chiclete Ping Pong da Copa de 1982, a marca não lançou um livro ilustrado no Mundial seguinte, o de 1986, no México. Apenas as figurinhas foram comercializadas. O protótipo, porém, está no livro. Um dos colecionadores entrevistados por Marcelo Duarte foi até à agência de publicidade que cuidava da conta da marca e descobriu a existência da peça que nunca foi impressa. CURIOSIDADES O maior da história O álbum da Copa de 2026 é o maior de todos os tempos. Para abrigar as 48 seleções, o item possui 112 páginas e 980 figurinhas – quase 300 a mais que o da Copa do Catar, em 2022 Sem Permissão Um conflito de licenciamento junto a atletas e seleções já criou situações curiosas. Entre 1998 e 2014, a Inglaterra não tinha camisas ou escudos oficiais. Ainda em 1998, a Panini não chegou a acordo com a Federação do Irã, e a página da seleção saiu vazia no álbum O rápido O lendário locutor esportivo José Silvério sempre teve um hábito peculiar: “fechar” o álbum da Copa do Mundo o mais rápido possível. Não raro, comprava dezenas de envelopes para conseguir seu intento Pacote de atualização A partir de 2014, a Panini passou a vender no Brasil kits de atualização do álbum, que permitem ‘substituir’ jogadores ausentes das equipes nacionais por outros que foram efetivamente relacionados – fora do País, a prática foi iniciada quatro anos antes, na Copa de 2010. Para este ano, a expectativa é pela figurinha de Neymar, cuja versão ‘legends’ chegou a custar R\$ 9 mil na Copa do Catar