"No início da Copa davam apenas 1% de chance para Cabo Verde. Nós respondíamos que tínhamos 1% de chance e 99% de coragem e fé", diz José Augusto (Divulgação) Nascido em Cabo Verde e radicado no Brasil, José Augusto do Rosário é uma das principais lideranças da comunidade cabo-verdiana no País. Ex-presidente da Associação Cabo-Verdiana por 16 anos, ele fala sobre a história de sua família, a evolução do arquipélago africano, o investimento em educação e o impacto da participação da seleção nacional na Copa do Mundo – nesta sexta-feira (26) o time enfrenta a Arábia Saudita, às 21 horas. Personalidade conhecida no universo português da região, José Augusto é presidente da Escola Portuguesa de Santos e responsável pelo Escritório Consular de Portugal em Santos. O senhor chegou muito cedo ao Brasil. Como foi essa história? Cheguei em 1963, aos 3 anos, com minha irmã mais velha. Minha mãe já estava no Brasil desde 1960. Ela imigrou graças a uma carta de chamada enviada por um tio cabo-verdiano que vivia aqui desde a década de 1930. Meu pai nunca quis deixar Cabo Verde e permaneceu lá durante toda a vida. Hoje tenho 18 irmãos. Da união dos meus pais somos apenas eu e minha irmã mais velha. Depois, minha mãe constituiu outra família no Brasil e teve mais seis filhos. Meu pai também refez a vida em Cabo Verde e teve mais 12 filhos. O que representa para um cabo-verdiano ver o país ganhando tanta projeção internacional? É motivo de orgulho. Cabo Verde finalmente entrou no mapa do mundo. Durante muito tempo, as pessoas sequer sabiam onde ficava nosso país. Somos um arquipélago com cerca de 500 mil habitantes, no meio do Atlântico, mas com uma história muito rica e uma contribuição importante para diversos povos, especialmente para o Brasil. Que contribuição foi essa? Cabo Verde foi descoberto por Portugal em 1460. As ilhas eram desabitadas e passaram a receber tanto colonizadores europeus quanto africanos escravizados trazidos da costa ocidental da África. Dessa convivência nasceu o povo cabo-verdiano, resultado da mistura entre essas duas culturas. Durante aproximadamente 300 anos, Cabo Verde também funcionou como entreposto do tráfico negreiro. Ali os escravizados passavam pelo chamado processo de ladinização, aprendendo português, agricultura e a religião cristã antes de seguirem para o Brasil e outras regiões das Américas. Por isso digo que Cabo Verde teve participação importante na formação do povo brasileiro. Pouca gente sabe, por exemplo, que inconfidentes mineiros foram exilados em Cabo Verde e deixaram descendentes por lá. Também houve um movimento, após a Independência do Brasil, defendendo que dom Pedro incorporasse Cabo Verde ao território brasileiro. E como Cabo Verde conseguiu se desenvolver mesmo sem grandes riquezas naturais? A independência veio em 1975. Naquele momento diziam que Cabo Verde era um país inviável. Tínhamos cerca de 80% de analfabetismo, poucos recursos naturais e enfrentávamos graves problemas provocados pelas secas. A maior riqueza que possuíamos era o nosso povo. O governo tomou uma decisão fundamental: investir na educação. Milhares de jovens foram estudar em países como Brasil, Portugal, Rússia, Cuba, Holanda e Estados Unidos. O resultado foi extraordinário. Hoje Cabo Verde figura entre os países africanos com melhores indicadores de desenvolvimento humano, estabilidade política, democracia e liberdade de imprensa. O turismo se tornou um dos pilares da economia? Sem dúvida. Hoje temos uma estrutura turística comparável à dos principais destinos do Caribe, com grandes redes internacionais de hotéis. Outra fonte importante de renda são as remessas enviadas pela diáspora cabo-verdiana. O desempenho da seleção surpreendeu o mundo. A que o senhor atribui esse crescimento? Muita gente imagina que nossa seleção seja formada apenas por jogadores que atuam em Cabo Verde, mas não é assim. A maioria joga nas principais ligas da Europa. São atletas acostumados a enfrentar jogadores das maiores seleções do mundo. No início da Copa davam apenas 1% de chance para Cabo Verde. Nós respondíamos que tínhamos 1% de chance e 99% de coragem e fé. Essa força tem relação com a história do povo cabo-verdiano? Totalmente. O cabo-verdiano foi forjado na dificuldade. As secas, a fome, a necessidade de emigrar e os desafios naturais de viver em um arquipélago moldaram um povo resiliente, persistente e trabalhador. A educação no exterior continua sendo uma política de Estado? Sim. O governo incentiva os jovens a estudarem fora do país. A ideia é que eles se desenvolvam onde estiverem e continuem ajudando Cabo Verde. Foi isso que procurei fazer. Durante os 16 anos em que presidi a Associação Cabo-Verdiana consegui estabelecer uma parceria entre Santo André e Cabo Verde que permitiu a formação universitária de cerca de 80 estudantes cabo-verdianos na Fundação Santo André. Muitos deles hoje ocupam cargos importantes tanto no Brasil quanto em Cabo Verde. Qual o principal legado que essa Copa pode deixar? Mais do que resultados esportivos, ela apresenta Cabo Verde ao mundo. Quero que as pessoas conheçam nossa cultura, nossa história e descubram que existe um país pequeno, democrático, seguro, acolhedor e que construiu seu desenvolvimento apostando na educação.