Era uma vez um garoto que sonhava em ser jogador de futebol, como tantos outros pelo Brasil. Mas, felizmente, quis o destino que José Roberto Lages Guimarães começasse a jogar vôlei na escola, aos 13 anos. Mal sabia ele que começava ali a carreira de jogador de seleção brasileira e de um dos maiores técnicos da história da modalidade no mundo. Afinal, são raros os esportistas que têm no currículo cinco medalhas olímpicas. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O amor ao vôlei, descoberto na adolescência, criou uma conexão de Zé Roberto com a cidade de Santos. Foi quando ele conheceu o grande time do Santos Futebol Clube, em 1970, no Campeonato Brasileiro disputado em Santo André, onde ele morava. “Era um timaço, um dos melhores times que o Brasil tinha naquele período. Conheci o Negrelli jogando no Santos”, relembrou para A Tribuna o atual técnico da seleção feminina e do time feminino de Barueri, em entrevista concedida na semana passada, durante a noite de abertura da exposição em homenagem a Negrelli. A admiração fez com que Zé Roberto descesse a serra para assistir as partidas da equipe. Das arquibancadas, observando e assimilando os macetes de craques como Negrelli, Arlindinho e Geraldinho, nasceu uma amizade que transcorreu décadas. “Eu sempre agradeço a esses jogadores, que abriram o caminho para nós. Eles treinavam na praia, na areia, no vento, e isso enriquecia a qualidade técnica deles. A gente aprendeu muito com eles, que sempre foram simples na maneira de ser, sempre nos orientaram. É por isso que temos essa amizade até hoje, de respeito, de carinho”. De pupilo dos veteranos, Zé Roberto foi convocado para a seleção e passou a conviver com grandes nomes da época. Como levantador, foi bicampeão sul-americano e disputou os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, quando o Brasil terminou na sétima posição. Técnico multicampeão Zé Roberto passou para fora da quadra em 1988, como auxiliar de Bebeto de Freitas, o técnico da “geração de prata” do vôlei masculino brasileiro, vice no Mundial de 1982 e prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. De auxiliar, Zé Roberto se tornou técnico de equipes femininas e masculinas no Brasil e na Itália, colecionando títulos em clubes. Não demorou para que ele também começasse a fazer história nas seleções brasileiras. Foi o comandante do primeiro ouro olímpico do Brasil em um esporte coletivo, com a seleção masculina, em Barcelona, em 1992. Após Atlanta-1996, Zé Roberto migrou para o futebol, virando dirigente do Corinthians. Em 1999, ele foi à Itália acertar a contratação do goleiro Dida, junto ao Milan. “O Dida veio, aí joga contra o São Paulo, semifinal do Campeonato Brasileiro, e pega dois pênaltis do Raí”, conta, rindo, o são-paulino Zé Roberto, lembrando do histórico duelo vencido pelo alvinegro por 3 a 2. No retorno ao vôlei, em 2000, o técnico colecionou títulos em clubes e na seleção feminina, onde repetiria o feito do ouro olímpico, em dose dupla, em Pequim-2008 e Londres-2012. Com as conquistas, ele se tornou o único técnico da história olímpica a subir ao degrau mais alto com as duas seleções. Aos 71 anos, técnico sonha com medalha em Los Angeles Trabalhando em mais um ciclo olímpico com a seleção feminina, visando as Olimpíadas de Los Angeles, em 2028, Zé Roberto demonstra, aos 71 anos, a mesma vitalidade do início de carreira. Um dos maiores responsáveis por transformar o vôlei brasileiro numa potência mundial, ele não descansa e quer mais. “Tem dias de assistir três, quatro jogos lá de fora, seja do Campeonato Russo, do Turco, do Japonês, do Italiano. E eu voltei ontem da Itália e Turquia, fui encontrar jogadoras brasileiras para falar com elas sobre o planejamento desse ano. Tem Liga das Nações, o Sul-Americano, classificatório dos Jogos Olímpicos de 2028. Então, a gente tem que ter um planejamento bacana e começar a treinar agora”, diz Zé Roberto. Incansável, ele também dirige o time feminino de Barueri, de olho nas categorias de base da equipe paulista. E foi sondado para comandar a recém-criada equipe de Los Angeles, que vai disputar a Liga Americana – convite que ainda não respondeu. “Quem manda é dona Alcione (esposa), que está comigo, me segue o tempo inteiro”, brinca. Independentemente da resposta, Zé Roberto vai continuar no comando da seleção. E já projeta outra para subir a mais um pódio olímpico com as meninas, aumentando a coleção de medalhas (além das três de ouro, ele tem uma prata com a feminina, em Tóquio-2020, e um bronze, em Paris-2024). “A gente tem chance. O Brasil nunca teve um time tão alto, temos oito jogadoras acima de 1,90 metro, fisicamente bem. Hoje tem a Itália, que está um patamar acima dos outros, é a primeira do ranking, nós somos o segundo. A gente esteve muito próximo da vitória contra a Itália, perdemos de 15 a 13 no Mundial, no tie-break. Eu tenho muita fé que a gente consiga fazer um bom trabalho para chegar ao pódio de novo”.