Ana Marcela comemora a travessia com a equipe técnica. Foto: Jonne Roriz/COB (Jonne Roriz/COB) As nadadoras Renata Câmara Agondi e Ana Marcela Cunha tiveram seus destinos ligados mais uma vez. Além do gosto em comum por águas abertas, a travessia do Canal da Mancha, entre a Inglaterra e França, marcou as histórias das duas: a primeira acabou falecendo em sua tentativa; já a segunda conseguiu o feito na última quarta-feira (22), com o tempo de 8h25min29s, novo recorde sul-americano entre mulheres e homens para o percurso. Um feito que une duas atletas ligadas a Santos. A campeã olímpica completou o trajeto na distância de 42,9 km - as fortes correntes e ondulações implicam em um nado não linear. Ana largou 1h (horário do Brasil) na cidade inglesa de Dover, e chegou por volta das 9h25 (horário do Brasil) na cidade francesa de Calais. Sonho pessoal “A medalha olímpica é uma conquista muito profissional e no auge do atleta é a maior conquista que você pode ter na vida. Mas acho que quando você realiza sonhos, mesmo não sendo uma medalha olímpica, vale muito. É o caso de hoje, algo que eu sempre quis também. Para mim vale tanto quanto. Não é só o ouro olímpico, não são somente as 17 medalhas em mundiais. Sei que tudo isso está na história. Mas essa travessia era um sonho muito pessoal, de criança”, explicou, em entrevista ao site do COB, a medalhista de ouro na maratona aquática de 10 Km nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021 e que morou e competiu, por muitos anos, pela cidade de Santos A mesma cidade de onde surgiu Renata Câmara Agondi. A jovem que passou pelos clubes Saldanha da Gama, Internacional de Regatas e pela Associação Santa Cecília de Esportes, ficou, em 1986, com o terceiro lugar entre as mulheres na Travessia de Capri-Napoli, uma das mais charmosas provas de mar aberto do mundo. Mas o sonho do Canal da Mancha era um horizonte em sua carreira. A travessia das gélidas águas do Atlântico Norte virou um drama. No dia 23 de agosto de 1988, totalmente exaurida pelo esforço extremo provocado por uma imperdoável falha na rota e apresentando um acentuado quadro de hipotermia, Renata não resistiu e acabou morrendo, aos 25 anos. Celebração Autor da biografia de Renata Agondi, o livro Revolution 9, em alusão a uma canção dos Beatles, o pró-reitor administrativo da Unisanta, Marcelo Teixeira, celebrou o feito de Ana Marcela. “A Renata foi a fonte inspiradora da Ana, que se preparou para marcar seu nome na história da natação brasileira, com a primeira medalha de ouro, com todos os títulos do circuito Mundial e agora como recordista sul-americana da travessia. Muito feliz com esta meta alcançada”, narra. Segundo ele, a própria campeã olímpica contou sobre o projeto do Canal da Mancha, há dois anos. “A Ana Marcela sentou comigo na universidade e disse: ‘Vim contar uma surpresa’, junto com seus pais. A sua mãe, Ana Patrícia falou: ‘Surpresa? Mas como, se nem a sua mãe sabe? E você sempre contou as coisas primeiro para nós!’. Ela disse que havia decidido atravessar o Canal da Mancha. Todos nós nos emocionamos. Foi muito bom, um novo estímulo, outro objetivo em sua brilhante carreira”, descreve. O trajeto Ana Marcela foi guiada durante o percurso pelo seu treinador Rogério “Kafu”, responsável pelo suporte técnico, hidratação e alimentação, e pelo especialista Igor de Jesus, guia da travessia encarregado de traçar a melhor estratégia na rota até a costa francesa. Durante o trajeto, a campeã olímpica enfrentou adversidades, mas conseguiu imprimir um bom ritmo para finalizar a prova com um tempo de destaque. “Essa travessia foi para mim um momento de curtição. Independentemente de todos os fatores que encontrei, como um pouco de ondas, algumas caravelas, mas nada me prejudicou. Eu tinha experiência de ter nadado provas longas e isso me trouxe tranquilidade de saber para onde estava indo, sentir a correnteza e seguir em frente”, completou Ana Marcela.