[[legacy_image_19293]] Se você estiver passeando pela Praia do Itararé e vir um grupo de rapazes vestindo bermuda laranja ao lado de pranchas de surf sobrepostas, pode estar certo: você chegou ao QG de uma das confrarias mais antigas de surfistas da região: o Barriga Bowl. O QG é fácil de achar: o quiosque 37, na areia do Itararé, bem em frente ao posto de gasolina BR que divide as duas pistas do “tapetão” vicentino. Clique e Assine A Tribuna por R\$ 1,90 e ganhe acesso ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em lojas, restaurantes e serviços! O Barriga Bowl não tem endereço formal, nem atas de reuniões, mensalidades, carteirinha, estatuto ou qualquer outra formalidade. O grupo nasceu do outro lado da avenida, quando o comerciante Wilson Ferreira tinha sua loja de surfwear, a Surf Total, tradicional e referência nos anos 90. “Ali a gente já reunia o pessoal que curtia surf. Virou ponto de encontro”, diz Wilson. E eram tantos que surgiu a primeira ideia de fazer um campeonato. Como já eram todos “um pouco mais velhos”, como define o fundador, os nomes sugeridos para o torneio foram os mais criativos: “Cãimbra Open”, “Bengala Pro”, entre outros que acabaram virando parte das muitas histórias que o grupo coleciona. Confraria Quando Wilson encerrou a loja, o Barriga se transferiu em peso para um dos quiosques próximos, depois também fechado. Há cerca de 10 anos o ponto de encontro é o quiosque da Rosa Maria. “É um prazer recebê-los aqui”, diz a comerciante, que trabalha para o sobrinho. Os fundadores da confraria foram envelhecendo, mas a paixão pelo surf os manteve unidos. Hoje, o Barriga já tem membros da segunda geração, filhos dos que primeiro integraram o grupo. Wilson faz a conta: “tem gente de 15 a 70 anos”. Só no grupo de whatsApp são 86 pessoas. Para além de pegar onda, o ponto comum entre todos é o espírito fraterno e de comunhão. “Aqui não importa a que classe social pertence, quanto ganha, que profissão tem. São todos iguais”, diz o advogado Armando Bote. E é esse espírito democrático que coloca na mesma mesa caminhoneiro, empresário, médico, advogado, dentista, publicitário e aposentado. Em cima da prancha ou nas mesas do quiosque, todos são iguais. Campeonatos Como o traço comum entre eles é pegar onda, o grupo também participa de campeonatos nacionais e internacionais. No início deste mês, dois membros do Barriga conquistaram título no Circuito Brasileiro de Long Board, realizado em Jericoacoara (CE). Nilson Firmino venceu na categoria 60+, e Fabiano Malavasi na 50+. O grupo de whatsApp é o meio mais eficaz de comunicação rápida entre eles. “A gente fica sabendo no final da madrugada se tem onda ou não. Se tiver, o ponto de encontro é aqui, no quiosque”, diz o construtor Ricardo Beschizza, mostrando a mensagem que recebeu no grupo às 5 da madrugada. Outra regra é jamais entrar no mar sozinho. “No mínimo em dupla”, diz o aposentado Tadeu Nakano. Esse espírito de fraternidade é o que move os membros do Barriga Bowl em outras campanhas coletivas ou mesmo para alguém do próprio grupo que esteja em dificuldade. Eles também integram um movimento que conscientiza a comunidade sobre a preservação dos oceanos, conhecido como Caravana das Águas Limpas. Sem confraternização A pandemia deu uma freada nos encontros semanais da turma, mas agora eles começam a voltar devagar, tanto nas ondas como nos jogos de xadrez e pôquer, outra diversão do Barriga. A festa de confraternização, tradicional em dezembro, não vai ter este ano, mas os finais de semana com sol, como este, têm servido para manter o espírito de união que deu origem a tudo. Depois de pegarem onda, o quiosque é a terapia. “Aqui tem que gostar de três “S”: surf, cerveja e churrasco”, diz Wilson. “Mas cerveja e churrasco não são com “s”, fala o jornalista. “Verdade, mas isso não tem importância”, brinca o fundador.