Como jornalista com paralisia cerebral se tornou o 1º medalhista paralímpico do tênis de mesa

A medalha de prata conquistada por Israel Stroh na Rio 2016 foi a primeira de um atleta brasileiro da modalidade tanto em Jogos Olímpicos quanto Paralímpicos

"Uma deficiência, por princípio, te limita a algumas coisas. A minha, não. Ela me permitiu". É desta maneira que o mesatenista santista Israel Stroh enxerga a vida. Jornalista por formação, ele descobriu que tinha paralisia cerebral congênita aos 23 anos, quando o ofereceram uma vaga para pessoas com deficiência no trabalho. Hoje, ele vive do esporte, detém o status de primeiro medalhista entre olímpicos e paralímpicos da história do tênis de mesa brasileiro e quer que sua história sirva de inspiração.

Descendente de família judaica da Polônia, Stroh tem 32 anos e é um dos principais paratletas do Brasil. Seu jeito de andar 'diferente' foi motivo de chacota durante sua infância e adolescência, mas ele não pensava que fosse por conta de uma disfunção cerebral. "Minha família pensava que era minha forma de andar. Ando normal, mas com um esforço a mais. Sempre fui atendido por um pediatra durante minha vida inteira e ele nunca apontou a deficiência", contou o jornalista em conversa com a Tribuna On-Line.

Quando tinha 15 anos, ele chegou a se consultar com um ortopedista, que fez o diagnostico: paralisia cerebral desde o nascimento. "Ele me disse para não me assustar, que era leve, apesar do nome forte", disse Stroh. Seu pediatra, porém, negou que o paciente de longa data tivesse a deficiência. "Ele não ia passar o recibo que comeu bola e errou", falou ainda o esportista paralímpico.

Foi só depois de ter se formado em Jornalismo, quando participava de um processo seletivo para trabalhar no Lance!, onde estagiou durante a graduação, que a ficha caiu. Uma funcionária do departamento de recursos humanos da empresa disse ao santista que ele poderia aceitar a vaga destinada para PcD. "Ela disse que pelo meu jeito de andar, eu teria direito a essa cota. Fiquei meio bravo com isso, mas fui a outro ortopedista para tirar a dúvida, e ele confirmou meu diagnóstico", relatou.

Ele, então, aceitou a vaga e trabalhou como setorista do Santos no veículo por um ano. Depois desse período, ele resolveu abandonar o jornalismo e se dedicar exclusivamente ao tênis de mesa, esporte que praticava desde os 14 anos, mas mais por hobby. "Eu era um jogador intermediário. Não tinha resultados, mas tinha muita dedicação", garantiu Stroh, que pesquisou o ranking mundial paralímpico da modalidade e começou a pensar no seu nível comparado aos atletas que estavam bem ranqueados. "Eles não eram tão melhores do que eu. Foi aí que eu decidi que voltaria para o esporte".

Às segundas, quartas e sextas, Stroh treina no CT Paralímpico (Divulgação/Comitê Paralímpico Brasileiro)

Foco na Rio 2016

Antes amador, o paratleta traçou uma meta de se fortalecer no tênis de mesa para chegar em um nível elevado de competitividade aos Jogos Paralímpicos do Rio. Em pouco tempo, ele se tornou paratleta de alto rendimento e, na Rio 2016, foi vice-campeão da classe 7 (para atletas com ambos os membros inferiores afetados) na disputa individual. E não só isso. Com a medalha de prata, ele se tornou o primeiro brasileiro do tênis de mesa a subir ao pódio em Jogos Olímpicos e Paralímpicos, um feito histórico e inédito.

Atualmente, ele é o sétimo colocado no ranking da ITTF (sigla em inglês para Federação Internacional de Tênis de Mesa) entre os homens de sua classe na modalidade paralímpica. Entre os 10 primeiros, ele é o único das Américas. Quem está no topo é justamente o britânico que o derrotou na final da Rio 2016, William Bayley, quem, por sinal, ele conseguiu bater na fase de grupos naquela ocasião.

A posição que ocupa no momento garante Stroh nos Jogos Paralímpicos de 2020, em Tóquio. Para não ter sua classificação ameaçada, o santista optou por não competir mais este ano em disputas internacionais. Como a diferença entre sua pontuação e a do décimo colocado, o último a conseguir uma vaga olímpica, é grande, ele não arriscará seus pontos nas competições. No entanto, continuará treinando e se preparando em campeonatos internos para buscar o tão sonhado ouro no Japão, já que sua vaga está muito bem encaminhada, como ele mesmo diz.

Exemplo

Não são só resultados que Stroh persegue em sua carreira esportiva. Ele também pretende ser um exemplo a outros atletas e pessoas com deficiência. "Eu tento usar essa referência que eu sou. Não grande, como os caras do futebol, mas referência", declarou ele, que recordou também como sua vida mudou a partir da descoberta da paralisia cerebral: "Tudo mudou para melhor. Fui para mais de 20 países por causa dessa história que começou com um hipotético susto".

Stroh hoje olha para trás e relembra as piadas que ouvia na escola por caminhar de uma forma não convencional. "Esse meu jeito me proporcionou uma história que ninguém mais que eu conheço daquela época viveu. Minha disfunção física se transformou em uma virtude. Não consigo subir em árvore, escalar montanha, mas tenho preguiça disso", brincou o paratleta, que, hoje, divide sua rotina entre os treinos no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, no Saldanha da Gama, em Santos, e a faculdade de Publicidade e Propaganda, a qual cursa em São Bernardo.

Stroh exibe sua medalha prateada, inédita para o tênis de mesa brasileiro (Miriam Jeske/brasil2016.gov.br)
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