Lívea compete na classe B2, destinada a atletas com deficiência visual (Ali Machado) Escalar é subir, encontrar apoio onde parece não haver e avançar mesmo quando o caminho exige esforço. Para Lívea Nazareth Flor Pereira, de 44 anos, a palavra ganhou um sentido que vai além das paredes de competição. Moradora de Praia Grande, no litoral de São Paulo, ela chegou à Seleção Brasileira de Paraescalada e passou a representar o País em provas internacionais. Agora, sonha em subir ainda mais alto: chegar aos Jogos Paralímpicos de 2028, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Portadora de uma doença degenerativa na retina, que provoca perda progressiva da visão, Lívea começou na corrida de rua, passou pelo paratletismo e conquistou títulos nacionais. Depois de enfrentar lesões e o desgaste das provas de longa distância, decidiu migrar para a paraescalada em 2025. Em cerca de um ano na modalidade, conquistou o bicampeonato brasileiro, foi convocada para a Seleção e se tornou a primeira mulher sul-americana a competir na classe B2 do circuito mundial, destinada a atletas com deficiência visual. “Tem muitas pessoas que têm alguma deficiência e acham que não podem fazer mais nada. Às vezes, ficam em casa, deprimidas. Também existem familiares que superprotegem. A pessoa com deficiência pode fazer o que quiser. Acho importante mostrar que ela é capaz e pode seguir a vida”, afirmou a atleta para A Tribuna. Das ruas para as paredes A trajetória esportiva começou bem antes da escalada. Há cerca de 15 anos, Livea passou a praticar corrida de rua e, mesmo com baixa visão, competia junto a atletas sem deficiência. Em 2016, depois de acompanhar os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, percebeu que também poderia disputar provas adaptadas e decidiu conhecer o paratletismo. Na época, trabalhava em um banco, com abertura e manutenção de contas de pessoas jurídicas. “Fiquei pensando: ‘Será que eu também posso competir como paratleta?’. Foi aí que corri atrás para saber”, conta. Desde então, passou a competir em provas de fundo, como os 800 metros, os 1.500 metros, os 5 mil metros e a maratona. Foi nesta última que alcançou alguns dos principais resultados da carreira, chegando à segunda posição entre as atletas das Américas e ficando entre as dez melhores do mundo. Virada na carreira A carreira, porém, também trouxe desgaste físico. “Eu estava um pouco cansada da maratona, por causa das lesões e tudo mais. Comecei a procurar outro esporte para experimentar, aí conheci a paraescalada e gostei muito”, lembra. A mudança aconteceu em 2025. No mesmo ano em que começou a treinar, Lívea conquistou o Campeonato Brasileiro de Paraescalada. Em abril de 2026, repetiu o resultado e garantiu a convocação para a Seleção Brasileira. A estreia internacional aconteceu em maio, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Lívea terminou em sexto lugar, resultado que considera importante para quem havia começado a treinar na modalidade havia tão pouco tempo. “Foi legal, porque eu fui a primeira mulher aqui da América do Sul a participar da prova. A escalada é muito tradicional nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil é pouco conhecida, então são poucas atletas”, explica. Depois, participou das etapas de Innsbruck, na Áustria, e Laval, na França. Na última, enfrentou um problema de saúde durante a viagem, mas decidiu competir mesmo assim. “Foi complicado, porque tive uma infecção muito forte. Peguei alguma bactéria, alguma coisa. Mas, mesmo assim, competi. Meu medo era ficar em último lugar”, conta. A atleta agora se prepara para as próximas etapas da temporada internacional, na Coreia do Sul e no Japão. As provas serão disputadas em Gunsan, no dia 29, e Fukuoka, em 5 de novembro. Apesar do pouco tempo na modalidade, Lívea ocupa atualmente a oitava posição no ranking geral da Copa do Mundo. “Tem mais ou menos um ano que comecei a treinar escalada e, graças a Deus, já está dando um resultado bom. Agora vamos ver se consigo melhorar minha posição na Coreia e no Japão”, diz. Sonho paralímpico A paraescalada tem competições internacionais desde 2006, mas só fará sua estreia nos Jogos Paralímpicos em Los Angeles 2028. A inclusão no programa foi confirmada em junho de 2024. A edição terá 80 atletas, sendo 40 homens e 40 mulheres, distribuídos em oito provas de medalhas. A disputa será na modalidade lead, em que os competidores tentam subir o mais alto possível em uma parede de 15 metros, dentro de um limite de seis minutos. Eles utilizam cordas e equipamentos de segurança, e as vias são adaptadas às respectivas classes esportivas. Atleta de Praia Grande começou há pouco tempo e já se destaca internacionalmente (Ali Machado) Os atletas são divididos conforme o tipo e o grau da deficiência. Além das classes para pessoas com deficiência visual, identificadas pela letra B, há categorias para competidores com limitações nos membros superiores ou inferiores e restrições de força ou mobilidade. O primeiro caminho para a classificação passa pelo Campeonato Mundial de 2027, em Brno, na República Tcheca. Pelos critérios divulgados para a competição, os três atletas mais bem colocados de cada prova poderão obter vagas, respeitados os limites por país. Também haverá uma competição classificatória em 2028, além de vagas reservadas ao país-sede. Lívea compete na classe B2, que está entre as previstas para os Jogos. Por isso, a preparação já é direcionada à disputa que pode garantir sua presença na primeira edição paralímpica da modalidade. “No ano que vem vamos ter o Mundial, e nossa preparação é para essa competição. O resultado de lá vai ser o caminho para conseguir uma vaga em Los Angeles. Estamos lutando para ficar entre as primeiras e chegar lá”, afirma. Trabalho em equipe Na modalidade, o desempenho não depende apenas da força e da capacidade de encontrar os melhores apoios na parede. A comunicação com a guia Thais Makino, que já foi campeã brasileira de escalada, é parte fundamental da prova. Lívea e sua guia Thais Makino (Ali Machado) Por meio de um intercomunicador, Thais indica a posição das agarras e orienta os movimentos durante a subida. A atleta precisa interpretar as instruções e encontrar os apoios enquanto administra o esforço físico e o tempo disponível. “Ela vai me falando onde estão as agarras. Diz, por exemplo, que tem uma na minha direita, na altura do braço, e que posso esticá-lo para alcançar. Eu dependo totalmente dela. Tem um feeling muito forte para a gente conseguir se entender e ter resultado”, explica. Baixa visão A deficiência visual, no entanto, impõe desafios que vão além da competição. A degeneração da retina faz com que a visão de Lívea se deteriore gradualmente. “É como se você visse embaçado o tempo inteiro. À noite, minha visão praticamente zera”, relata. Segundo o National Eye Institute (NEI), instituto ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, a retina é o tecido sensível à luz localizado no fundo do olho e responsável por transformar estímulos luminosos em sinais enviados ao cérebro. Quando doenças danificam essa estrutura, podem surgir alterações como dificuldade para enxergar em ambientes escuros, redução do campo visual, sensibilidade à luz ou perda da visão central. Os sintomas e a velocidade de progressão variam conforme a doença. Livea conta que houve um período em que a perda de visão avançou rapidamente. Ela precisou parar de dirigir e deixou de conseguir fazer provas de corrida à noite. A mudança afetou a rotina e o emocional, mas o esporte ajudou a enfrentar o isolamento e seguir ativa. “Na época, foi bem complicado. Meio que me deu uma depressão. O que me ajudou foi o esporte e a corrida. Eu me dediquei bastante para não ficar só em casa”, recorda. A experiência também mudou a maneira como Lívea enxerga a importância da atividade física para pessoas com deficiência. Para ela, a divulgação do esporte pode ajudar a mostrar que o diagnóstico não precisa significar o fim de uma vida ativa. Dificuldades e renúncias O desempenho internacional trouxe uma nova rotina, mas também evidenciou uma dificuldade: a falta de estrutura para treinar paraescalada perto de onde mora. Como não dispõe de uma estrutura equivalente em Praia Grande, Lívea precisa se deslocar para treinar em condições próximas às que enfrentará nas provas. “No mês, se eu ficar dez dias na minha casa, é muito. Não tenho como treinar tudo que preciso aqui. Tenho que ficar uma semana em um lugar, depois ir para outro, para conseguir me preparar e ter resultado”, relata. O principal centro de treinamento utilizado pela Seleção, com uma parede comparável às encontradas nas competições internacionais, fica em Curitiba. Lívia também faz treinos em São Paulo, o que exige gastos com transporte, hospedagem, alimentação e deslocamento. Parte das despesas relacionadas à preparação e às competições da Seleção é coberta pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e pela Confederação Brasileira de Escalada (CBE). Antes de chegar à equipe nacional, porém, a atleta custeava parte dos gastos para competir no paratletismo. Ela já recebeu a Bolsa Atleta federal e um auxílio municipal de Praia Grande, concedido por sua participação na modalidade. Para 2027, Lívea pretende solicitar novamente o benefício municipal, desta vez para se dedicar integralmente à paraescalada. Até este ano, ela conciliou as duas modalidades para cumprir os compromissos ligados ao atletismo. A atleta ressalta ainda a importância de divulgar a modalidade e ampliar o apoio aos competidores. “Se você não aparece, não tem patrocínio. A gente precisa de apoio para conseguir treinar e chegar mais perto do nível de quem compete lá fora. Muitas vezes, o apoio só vem depois que você ganha uma medalha, mas, para chegar lá, precisa de apoio antes”, destaca. Além de organizar os treinos, Lívea precisa avaliar se conseguirá chegar aos locais de preparação e voltar para casa com segurança, especialmente à noite. “Eu tenho que pensar: vou conseguir chegar lá? Se estiver escuro, vou conseguir? Vou conseguir pegar o ônibus, se não enxergo a placa? São muitas coisas que precisamos considerar para conseguir treinar. Nossa dificuldade triplica”, conta. Mãe de dois filhos, Lívea precisa abrir mão de encontros familiares para manter a rotina de preparação. Os treinos e as viagens ocupam fins de semana e feriados, períodos em que a família poderia estar reunida. “Não é fácil deixar a família no sábado, no domingo, no feriado, sabendo que está todo mundo lá esperando. Quando eu era maratonista, chegava tão cansada que dava vontade de ficar sentada e não levantar nunca mais”, lembra. Apesar dos sacrifícios e das dificuldades financeiras, Lívea afirma que o amor pelo esporte sustenta a decisão de continuar competindo. Mais do que buscar resultados, ela espera que sua trajetória ajude outras pessoas com deficiência a descobrir novas possibilidades. “Se fosse para ganhar bem ou mudar de vida financeiramente, a gente não faria. A gente faz porque ama o esporte”, afirma.