[[legacy_image_109088]] A dor das agulhas perfurando a sua pele na altura da costela durou quatro horas, mas a enfermeira Fabiana de Almeida, de 29 anos, lembra que isso não foi nada perto da saudade do marido Renato dos Santos, de 27, que morreu de covid-19 em julho do ano passado. “É difícil explicar, mas a tatuagem com a nossa foto de casamento me deu forças para superar o luto. Vejo, de fato, que ele está sempre comigo.” Já a dona de casa Adriana Abreu Vasconcelos, de 38 anos, marcou na pele o dia em que venceu a covid-19: 14/2/2021. Ao lado da data, a palavra ‘fé’ agradece todas as orações recebidas. “Foram três meses de internação, sendo dois deles entubada. Eu nasci de novo e preciso comemorar. Ficam muitas lições, uma vida diferente que preciso seguir e essa tatuagem me lembrará disso todos os dias". [[legacy_youtube_uL-eKChFtUk]] EternizarEm seu estúdio no Morro Nova Cintra, em Santos, o tatuador Robson Rocha eternizou a memória de uma vítima de covid-19. "Um cliente que perdeu o irmão para a doença quis fazer uma homenagem. Também fiz um bebê com asinhas de anjinho em uma mãe que perdeu o filho. São casos em que as pessoas tatuaram algo que representasse aquele momento, mesmo que triste." (veja os diferentes estilos de tatuagem) Para ele, que tem 37 anos de idade e 16 de experiência na área, ainda existe a busca pela tatuagem que signifique alguma coisa e sua missão é fazer com que esse sonho se realize. “Imagino que, daqui a 10, 30 ou 50 anos, eu vá encontrar essa pessoa que fez uma tatuagem comigo, a gente vai se abraçar e vou ouvir ‘olha o que você fez na minha pele’. Para mim, isso representa muito. Essa marca que eu deixo nas pessoas, eternizando a minha arte, é algo sem comentários.” Apesar da pandemia, Robson diz que não parou de trabalhar e observou que o perfil de seu público mudou. "Foi um ano complicado para captar cliente. Foi necessário mais Marketing e divulgação para alcançar as pessoas com condições para pagar. Com a liberação de auxílios, muitas pessoas usaram esse recurso para poder tatuar. O vício pela tatuagem foi maior do que a condição de poder comprar arroz e feijão." O proprietário da Robson Soul Tattoo lembra que seus primeiros desenhos foram os Animaniacs, persongens da Warner Bros. Aos 13 anos, ele sentava no meio fio da rua da casa da sua mãe, no Morro Nova Cintra, e desenhava por horas. Enquanto os pais dormiam, passou a explorar desenhos de observação, registrando o que via com minuciosos detalhes. Aos 15, sua arte transcendeu o papel e passou a tomar conta do corpo de amigos por meio de caneta azul. "Íamos todos tatuados para a escola", brinca ele. A ideia de tatuar apareceu com um amigo mais velho, e com mais condições financeiras, que perguntou se ele tinha interesse em atuar na área. "Ele me comprou todo o material e não parei mais. A promessa era de que, quando eu fosse bom, tatuaria ele um dia. E eu cumpri a minha palavra, anos depois, fazendo a primeira tatuagem dele. O desenho é o pé do filho que tinha acabado de nascer." [[legacy_image_109089]] Vontade de ViverO tatuador santista Pablo Dellic diz que, recentemente, fez muitas tatuagens que reforçam a vontade de viver e símbolos de proteção. "Minhas tatuagens trazem sorte, são como amuletos", diz ele, que tem 46 anos de idade, mas experiência na área há mais de 30. Mas, durante o pico da pandemia, apostou em focar no seu equilíbrio emocional e bem-estar. "Já são 17 países no currículo, incluindo França, Espanha, Portugal e Escandinávia." De passagem por Santos, ele atende com hora marcada no Boqueirão. "A ideia de se tatuar varia de uma pessoa para outra. Por isso, dou toda a atenção para entender o motivo de cada um estar ali me procurando, qual o caso e qual a melhor forma de atender para ajudar a superar arrependimentos ou medos", diz Pablo, proprietário da Tattoo na Paz. Entre as especialidades dele, estão tatuagens reparativas de cobertura e ou restauração de tatuagens antigas. "É uma forma de expressão e identificação psicológica que, muitas vezes, ajuda a tornar as pessoas que a possuem mais fortes." [[legacy_image_109090]] HistóriaA doutora em Comunicação e Semiótica Célia Maria Antonacci, explica que a tatuagem tem um significado diferente para cada povo, para cada pessoa e em determinada época. "Ela não é uma coisa única, de um momento específico, de apenas uma sociedade e de um propósito. A tatuagem atravessou muitos séculos e se mantém resistente por ser um meio muito forte de comunicação." (veja aqui mais curiosidades) Para a professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a arte na pele é também um movimento de cultura. "Hoje, as pessoas se marcam em um momento de covid-19, pois perderam alguém ou passaram por uma situação limite, mas é um momento específico em que a tatuagem apenas retorna com esse novo significado". Célia, que pesquisou para seu doutorado as tatuagens contemporâneas e as nazi-tatuagens como códigos de intolerâncias políticas e sociais, diz que as marcas pelo corpo podem ter simbologias diferentes. "Elas podem ser um rito de agregação política, religiosa e embelezamento ou para marcar um corpo e injuriar essa pessoa, como no caso dos campos de concentração." A autora do livro As Nazi-Tatuagens: Inscrições ou Injúrias no Corpo Humano? defende que a tatuagem é afirmação e liberdade, mas em alguns momentos ainda tornou-se uma inscrição na história, contando o que se viveu. "Em grupos de excluídos, que procuram uma inserção na sociedade, ela tem esse papel. Temos ainda o preconceito, que tem um contexto mais abrangente principalmente por conta das religiões. Para o cristianismo e judaismo, marcar o corpo é deixá-lo maculado." [[legacy_image_109091]]