Sem emprego, guarujaenses se reinventam na informalidade

A falta de vagas para perfil de pouco estudo ou primeiro emprego exige esforço e criatividade

A professora Daniela Laurindo de Souza Afonso, 49 anos, viu dois filhos universitários – aos 20 e 26 anos –, sem sucesso na busca do primeiro emprego. “Aquela velha história de que todo lugar pedem experiência, mas se nunca abrir oportunidade, eles não conseguem começar”, conta.

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Moradores das Astúrias, viraram o mundo de cabeça para baixo com o câncer da mãe, em 2018, e o afastamento do trabalho. “Fiz o tratamento, retirei as mamas, me recuperei... Senti que precisava de novos ares e criatividade para a nova vida que eu poderia ter, então juntamos o que tínhamos e fomos viajar”.

Em passagem por terras portuguesas, em janeiro deste ano, Daniela descobriu os sabores das geleias e encontrou a nova profissão que escolheria pra ela e os próprios filhos. “O mais velho é designer, criou a marca e toda a identidade visual, o do meio estuda Gastronomia, desenvolve comigo as receitas e tabelas nutricionais. Eu, com a experiência na gestão pública assumi a administração do negócio: abri empresa, código de barras e trouxe minha prima para vender”.

O filho caçula, aos 15 anos, também já tem vaga na firma. É o rotulador. “Quem mais trabalha”, brinca a mãe. “Ele que embala tudo, coloca o lacre... Tem todo um critério de segurança e qualidade do produto”.

Acompanhando os números de quase 7 mil conterrâneos demitidos este ano, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) sobre Guarujá, Daniela orgulha-se de abrir portas e mostrar um caminho para seus filhos e, talvez outros jovens, se o negócio expandir. “Não quer dizer que eles fiquem nisso para sempre. Mas gerir uma empresa é a maior experiência dentre todas de trabalho. Ser funcionário é ‘fácil’: alguém te diz o que fazer e você executa. Aqui, eles sentem na pele como é controlar lucros e despesas, fazer muito além do necessário, correr dia e noite, sem hora de parar”.

Agravado pela pandemia, o desemprego no Brasil subiu de 10,1 milhões em maio de 2020 para 12,9 milhões em agosto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2019, o Brasil fechou o ano com 11, 6 milhões.

Roupas e lanches

A recepcionista Raquel Santos Nascimento, 41, do Pae Cará, em Vicente de Carvalho, foi rápida na solução. Demitida em julho deste ano do consultório médico onde trabalhava desde 2005, tentou nova colocação no mercado, onde não teve sucesso pela falta de estudo. “Sem faculdade, sem nada, nem em funções de balcão ou caixa consegui me empregar”.

Mas as portas fechadas não desanimaram Raquel, que logo sacou mais cartas da manga. “Já trabalhei com roupas outras vezes. Peças de academia. Abri uma página em redes sociais e comecei a vender”.

O carrinho de lanches não foi de muito sucesso na quarentena, mas quebrou um galho quando o marido também estava desempregado. “Ele é mecânico e foi cortado. Por uns meses, nos viramos vendendo x-salada. Agora, só voltou a trabalhar em oficina porque um amigo indicou. Você não consegue emprego por currículo, e sim quando alguém te indica”.

Apesar de pagar as contas, Raquel espera um apoio para voltar ao trabalho formal. “Se não der este ano, pela pandemia, torço que logo a Prefeitura faça um programa, parceria com empresas, coloque a gente em contato com as pessoas certas... Deveria haver mais convênios, atrair comércio e investidores para empregar moradores”

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