Munícipes pedem melhorias no Hospital Irmã Dulce, em Praia Grande: ‘Não somos números’

Moradores dizem esperar que a próxima gestão do município dê mais atenção às demandas do hospital.

Moradores de Praia Grande relatam casos de má qualidade no atendimento do Hospital Municipal Irmã Dulce. Em entrevista para ATribuna.com.br, eles pedem melhorias nos serviços prestados e dizem esperar que a próxima gestão do município dê mais atenção às demandas do hospital.

Paciente sem banho durante três dias e falta de lençóis limpos, além de demora para conseguir internação e resultado de exames são algumas das queixas dos munícipes. ATribuna.com.br também ouviu um dos funcionários hospital, que afirma que os profissionais da saúde não são valorizados.

“Minha mãe sofreu muito naquele lugar. Quando ela saiu da UTI, demoraram três dias para dar banho nela. Deixavam ela toda urinada e com os lençóis sujos, que muitas vezes tinham que ser trazidos de casa porque até isso faltava no hospital”, conta a autônoma Mariana Souza, de 25 anos.

No início deste ano, a mãe de Mariana foi internada para realizar uma cirurgia de retirada da vesícula. Dias após o procedimento médico, a mãe da autônoma passou mal e retornou ao hospital devido a uma complicação. Aos 55 anos, a mãe da autônoma faleceu em maio, após passar três meses internada.

“Minha opinião sobre o Hospital Irmã Dulce é que deveria melhorar exatamente tudo, desde a limpeza até os médicos e equipamentos do hospital. Eu que tinha que dar banho na minha mãe, trocar os curativos dela, porque os enfermeiros não tinham tempo para atender todos os pacientes. Às vezes esqueciam de levar a comida dela, e ela ficava com fome, pois eu não podia sair do hospital, tinha que estar sempre com ela. Foi horrível, só sei que eu não quero ter que um dia me internar naquele lugar”.

Para Mariana, a expectativa é que a próxima gestão do município dê mais atenção ao que acontece no hospital. “Espero que os próximos eleitos coloquem médicos que realmente amam o que fazem, que mostrem compaixão pelos pacientes e, o principal para tudo sair bem, é que os eleitos desse ano se coloquem nos lugares dos familiares e pacientes desses hospitais e tratem isso como se alguém da família deles estivesse lá”.

‘Não somos números’

A estudante Adriana Ferreira Lira, de 38 anos, reclama da demora para conseguir o resultado do exame de sangue da filha, de 17 anos, que faleceu em abril desse ano.

“Pedi para chamar o médico e ele me falou que só poderia fazer algo se tivesse o exame de sangue. Ela ficou jogada morrendo de dor. Vi uma sala com maca e coloquei ela lá deitada”, lembra.

Adriana diz que a filha tinha doença de Crohn e deu entrada no hospital com fortes dores na barriga. Ela chegou a ser internada, mas não resistiu. “O lugar é péssimo, médicos ignorantes. Espero que tenham bons profissionais, que tenham mais amor ao próximo. Não somos números. Esse ano vai ter eleição, quero que eles olhem para o hospital, pois é o único de Praia Grande, do setor público”.

‘Péssimas condições’

Quem também relata um caso de precariedade no atendimento prestado pelo hospital é o autônomo Itaicy Júlio da Silva Araújo, de 27 anos. Ele conta que acompanhou o pai, de 60 anos, durante internação por conta de problemas cardíacos. “Teve dias que precisei levar cobertor, travesseiro e até ventilador porque o local estava em péssimas condições”.

Ele conta que o pai ficou internado no hospital durante alguns dias; o idoso foi para casa após receber alta, mas voltou a passar mal. Na ocasião, a família chamou uma ambulância, que só chegou depois de uma hora, mas teve de retornar porque seu pai precisava de uma ambulância do tipo UTI móvel - que levou mais meia hora para chega à casa da família.

“Meu pai não resistiu e veio a óbito nos meus braços, lembro como se fosse hoje a cena. Nunca vou esquecer o que o descaso fez com a vida do meu pai. Se tivessem mandado a ambulância certa meu pai teria 80% de chance de estar vivo agora comigo”.

Para ele, é preciso que sejam feitas melhorias na área da saúde. “Nossa cidade está linda por fora, mas precisa melhorar muito o sistema de saúde, que é o principal na vida das pessoas. Sem saúde de qualidade a gente não consegue viver”, diz.

‘Fralda molhada durante 12h’

Outro morador da cidade que se queixa do hospital é o agente de escolta armada Lucas Barbosa. Ele diz que não tem do que reclamar dos funcionários, mas destaca que a gestão do hospital precisa melhorar alguns aspectos, como em relação ao aumento no número de leitos para internação e mais cuidado com os pacientes.

“Teve um dia que meu pai ficou mais de 12h com a fralda molhada e aí eu tive que reclamar para irem trocar”, conta o morador, que diz ter precisado insistir para conseguir que o pai, que estava com insuficiência cardíaca e líquido no pulmão, conseguisse uma vaga para ser internado no hospital.

Lucas também reclama do atendimento no Pronto Socorro do Complexo Hospitalar Irmã Dulce. “Na parte do Pronto Socorro você fica jogado. Meu pai, quando ficou lá, não ficou nem em uma cama, era uma poltrona, para ele poder aguardar vaga para internação. No Pronto Socorro tem que melhorar tudo, os médicos, questão da atenção. Nem olham no seu olho para dar atendimento”.

‘Não podemos dar opinião em nada’

Um dos funcionários do hospital, que não quer se identificar, afirma que os profissionais da saúde não são valorizados. “Espero que deem mais atenção à saúde porque estamos nos sentindo abandonados. Não tenho motivação, não tenho vontade de ir trabalhar mais”, diz.

Segundo apurado pela reportagem, funcionários contratados na antiga gestão do hospital que estão sendo demitidos. “Trabalhamos todos os dias sem saber o que vai acontecer”.

Bancos de horas acumulados, ausência de local para descanso após o almoço para alguns profissionais da saúde e redução no quadro de funcionários também estão entre algumas das reclamações citadas. “Não podemos dar opinião em nada que sempre somos criticados”, lamenta.

Complexo Hospitalar Irmã Dulce

Formular políticas de saúde, aplicar recursos próprios e os repassados pelo Estado e pela União, coordenar e planejar o Sistema Único de Saúde (SUS) - a nível municipal - estão entre as responsabilidades dos municípios, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em Praia Grande, o Complexo Hospitalar Irmã Dulce, que compreende o Hospital Municipal, o Pronto Socorro, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Samambaia e o Nefro PG, é gerido pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) desde o dia 1º de janeiro de 2019.

Após vencer o processo de licitação, a SPDM e a Prefeitura de Praia Grande, por meio da Secretaria de Saúde Pública, celebraram um contrato de gestão compartilhada em dezembro de 2018.

Segundo o contrato, a gestora tem a obrigação de atender os pacientes com dignidade e respeito, de modo universal e igualitário, mantendo-se sempre a qualidade na prestação dos serviços, bem como garantir todos os direitos individuais e coletivos pertinentes aos pacientes.

A penalidade, em caso de não cumprimento da gestora quanto às cláusulas do contrato, pode variar em advertência, multa, suspensão temporária dos procedimentos e até rescisão contratual.

Ainda de acordo com o documento, a fiscalização quanto ao cumprimento do contrato é de responsabilidade dos órgãos competentes da Prefeitura de Praia Grande e, quando necessário, do SUS.

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